Selic a 15% ainda não surte o efeito esperado: entenda por que a economia não respondeu como previsto

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 08/10/2025


Alta dos juros não tem provocado o freio esperado

Mesmo com a taxa Selic em 15% ao ano — o maior patamar em quase duas décadas —, o efeito contracionista sobre a economia ainda não se concretizou como esperado.
Segundo relatório do Banco Inter, os principais canais de transmissão da política monetária (câmbio, crédito e expectativas) estão operando com baixa eficiência, o que reduz a capacidade dos juros de desacelerar a economia e conter a inflação.

Desde 2022, o Banco Central vem mantendo uma política monetária restritiva para controlar os preços, mas o impacto sobre o consumo, o crédito e os investimentos ainda é limitado. O crescimento econômico continua aquecido em alguns setores, mesmo sob condições financeiras mais apertadas.


PIB cresce acima do previsto, apesar da Selic elevada

De acordo com dados recentes do IBGE e projeções do mercado, o PIB brasileiro cresceu cerca de 0,9% no segundo trimestre de 2025, acumulando alta próxima de 2,3% em 12 meses — resultado acima das expectativas de economistas, que estimavam avanço inferior a 2%.

Esse desempenho é impulsionado por setores como agropecuária, serviços e consumo das famílias, que continuam mostrando resiliência mesmo diante do custo elevado do crédito.
A manutenção da atividade econômica em ritmo firme indica que os efeitos da Selic sobre o nível de atividade estão defasados, ou seja, demoram mais tempo para se propagar pela economia real.

Em outras palavras, o aperto monetário ainda não “mordeu” o suficiente para reduzir a velocidade do crescimento.


Canais de transmissão da política monetária continuam travados

O relatório do Inter destaca que o efeito da Selic ocorre por três canais principais — câmbio, riqueza/expectativas e crédito —, mas todos estão parcialmente comprometidos:

  • Câmbio: mesmo com juros reais elevados, o real não se valoriza frente a outras moedas emergentes, reflexo da desconfiança fiscal e do cenário político interno.
  • Riqueza e expectativas: a alta dos juros de longo prazo perdeu potência para influenciar preços de ativos e confiança empresarial, reduzindo o impacto indireto sobre decisões de investimento.
  • Crédito: o aumento dos juros encarece o crédito, mas sua eficácia é limitada. Os spreads bancários já são altos, e o sistema de crédito brasileiro tem rigidez estrutural — o que faz com que o custo do dinheiro continue elevado, independentemente da Selic.

O resultado é que a política monetária atua em um ambiente de baixa sensibilidade, tornando o ciclo de juros menos eficiente do que o esperado.


Inflação resistente e risco fiscal dificultam o ajuste

A persistência da inflação, somada à meta ambiciosa de 3%, mantém o Banco Central em alerta. Para atingir esse objetivo, seria necessário manter juros altos por mais tempo — o que encarece o crédito e reduz o investimento produtivo.

Além disso, o desequilíbrio fiscal mina a credibilidade da política econômica. O aumento de gastos públicos e a dificuldade de controle orçamentário reduzem o impacto da Selic sobre as expectativas de inflação, uma vez que os agentes não percebem consistência entre política fiscal e monetária.


Conclusão: Selic alta não basta sem coordenação e confiança

O cenário atual mostra que juros em 15% não são suficientes, sozinhos, para conter a inflação ou esfriar a economia.
O PIB segue crescendo acima do previsto, sustentado pelo consumo e pelos serviços, enquanto os canais de transmissão da política monetária permanecem enfraquecidos.

Especialistas apontam que, sem credibilidade fiscal, reformas estruturais e coordenação entre política monetária e fiscal, a Selic perde efetividade e gera apenas custo financeiro para o setor produtivo.

Para os investidores, o ambiente indica uma economia resistente, mas sob risco de desaceleração mais brusca no futuro. Juros altos favorecem a renda fixa no curto prazo, mas o equilíbrio de longo prazo depende de sinal fiscal sólido e da retomada de confiança na política econômica.


Fontes: InfoMoney –