Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 23/10/2025

O Brasil, maior produtor mundial de café, enfrenta uma crise silenciosa em suas lavouras: segundo estudo da ONG Coffee Watch, o desmatamento nas regiões produtoras está reduzindo significativamente as chuvas, o que pode levar ao colapso da produção em médio prazo. O alerta traz implicações sérias para investidores que apostam no agronegócio nacional e para a cadeia global da commodity.
O alerta da Coffee Watch e os impactos do desmatamento
De acordo com o relatório publicado recentemente pela Coffee Watch, ao mapear antigas áreas de floresta convertidas em cafezais no sudeste do Brasil, detectou-se correlação clara entre a redução de cobertura vegetal e a queda da precipitação direta nas plantações, fator crítico para o café, que é extremamente sensível à umidade e à regularidade das chuvas. A diretora da ONG, Etelle Higonnet, afirmou: “O desmatamento para o cultivo de café está matando as chuvas, que estão matando o café.”
Segundo o relatório, quanto mais florestas são derrubadas para abrir espaço à cafeicultura, mais comprometida se torna a capacidade das chuvas em alimentar o solo, o que gera falhas de colheita, produtividade reduzida e preços mais altos para o consumidor final. Esse fenômeno foi observado em regiões como Minas Gerais e Espírito Santo, onde plantações se expandiram sobre áreas de floresta degradadas.
Consequências para a safra e risco de preço
A pesquisa destaca que o café se encontra num estágio de vulnerabilidade: a seca de 2014 foi um ponto de virada, e desde então os períodos de chuva têm sido menos confiáveis. O solo enfraquecido por anos de cultivo intensivo e cobertura vegetal reduzida reagiu com menor resiliência às interrupções de chuva e floração tardia. Estima-se que, se essa tendência persistir, parte considerável do cinturão cafeeiro brasileiro poderá se tornar menos produtivo até 2050, o que abriria espaço para volatilidade e preços extremos no mercado global.
Além disso, o relatório alerta que outras regiões produtoras, fora do Brasil, também devem entrar em área de pressão, o que coloca o grão em uma posição de risco para oferta global. De fato, a produção brasileira, embora ainda alta, depende do padrão climático que ajudou a consolidar o país como líder.
Regulamentação internacional e desafio de exportação
O Brasil ainda resiste à pressão internacional para tornar públicas as origens das plantações de café exportadas, tema que está no centro da nova legislação da União Europeia que exige rastreabilidade das commodities cultivadas em terras recentemente desmatadas. A lei, em processo de implementação escalonada, obriga países exportadores e empresas a fornecerem dados geolocalizados. O país alegou que a regra é “instrumento unilateral e punitivo” e defende alternativas como fundo para proteger florestas em países em desenvolvimento.
Para o comércio brasileiro, isso significa que uma fatia crescente de demanda europeia poderá condicionar a compra à conformidade ambiental, o que adiciona um risco reputacional e fiscal à produção de café nacional.
Impactos para investidores e cadeias de valor
Para o investidor, o alerta é duplo: por um lado, o Brasil continua sendo um dos pilares da cafeicultura global; por outro, a sustentabilidade do modelo está em xeque. A exposição ao café brasileiro, seja via empresas agrícolas, fundos de commodities ou mesmo bolsas, passa a depender de fatores não apenas climáticos, mas de gestão ambiental, terra, regulação internacional e certificações.
Caso cenários de redução de produção venham a se concretizar, os contratos de exportação podem sofrer ruptura e os preços domésticos e internacionais do grão podem disparar, o que afeta tanto players do agronegócio quanto fundos de commodities.
Visão do Bolso do Investidor
O estudo da Coffee Watch traz à tona que o agro brasileiro, em especial o segmento de café, não está apenas reagindo a variações de safra ou preços, mas a uma mudança estrutural nos padrões de chuva, solo e cobertura vegetal. Isso muda completamente a lógica de avaliação de risco para investidores ligados à cadeia do café. O que antes se considerava “ciclo normal” de safra, agora pode refletir fragilidade sistêmica.
Para quem investe em agronegócio ou commodities, é essencial incorporar critérios que vão além da produtividade aparente, como uso da terra, práticas de reflorestamento, certificação de origem e conformidade regulatória internacional. Se o Brasil não se adaptar, o valor de ativos ligados à cafeicultura poderá ser revisto.
Conclusão
A cafeicultura brasileira pode estar enfrentando sua maior crise de médio prazo, não por falta de demanda, mas por esgotamento de condições que sustentaram sua liderança global. O desmatamento está corroendo as chuvas que alimentam as lavouras e colocando em xeque a previsibilidade da oferta. Para o mercado, o momento exige não apenas olhar para volumes e preços, mas para sustentabilidade e resiliência da produção. Investidores devem acompanhar de perto como os players respondem a esse desafio, e se o Brasil conseguirá ou não manter-se no topo do mercado com credibilidade e estabilidade.
Fontes:
