Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 23/10/2025

A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado Federal, divulgou nesta quarta-feira (23) seu mais recente relatório, mostrando que o governo federal acumula déficit primário de R$ 100,9 bilhões entre janeiro e setembro de 2025. Embora o valor seja inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior, o documento aponta que o país ainda precisará de um esforço adicional de R$ 27,1 bilhões no último trimestre para alcançar o piso da meta orçamentária — e de R$ 58,1 bilhões caso queira encerrar o ano com saldo fiscal zerado.
O resultado reacende o alerta sobre a trajetória das contas públicas e a capacidade do governo de cumprir suas metas, em um momento em que as receitas diminuem e as despesas obrigatórias seguem em alta.
MP caduca e amplia o buraco nas contas públicas
Um dos principais fatores que agravaram o quadro fiscal foi a caducidade da Medida Provisória 1303, que havia sido editada em junho para compensar a perda de arrecadação gerada pela desoneração da folha de pagamentos. A MP previa recompor parte da receita por meio de alterações na cobrança do IOF, mas perdeu validade em outubro sem ser votada pelo Congresso.
Segundo a IFI, a não aprovação da medida resultou em perda estimada de R$ 10,6 bilhões na arrecadação federal. Além disso, a instituição apontou que o governo teve dificuldade em compensar as renúncias fiscais, o que pressiona a meta de resultado primário e compromete o cumprimento do arcabouço fiscal.
O relatório também destaca que, mesmo com a recuperação parcial das receitas em setembro, o comportamento das despesas obrigatórias — como benefícios previdenciários, folha de pagamento e gastos sociais — continua a pesar fortemente sobre o caixa do governo.
Estatais também pressionam o resultado
Outro ponto de preocupação levantado pela IFI está relacionado às empresas estatais federais, que seguem contribuindo negativamente para o quadro fiscal.
O relatório indica que, no acumulado de doze meses até agosto, as estatais registraram déficit primário de R$ 8,9 bilhões, com projeção de encerrar 2025 com saldo negativo de R$ 9,2 bilhões.
De acordo com a IFI, esse resultado está ligado principalmente ao desempenho de empresas como Petrobras e Eletrobras, que passaram por mudanças em suas políticas de investimento e distribuição de dividendos. A instituição observa que, somados ao déficit do Tesouro Nacional, esses números ampliam a necessidade de um ajuste mais severo nas contas do governo para evitar o descumprimento das metas fiscais.
Meta sob risco e esforço adicional necessário
Com base nos cálculos da IFI, o esforço fiscal necessário para alcançar o piso da meta de resultado primário — que é de déficit zero, com margem de tolerância de 0,25% do PIB — será significativo no último trimestre de 2025.
Para atingir o limite mínimo da meta, o governo precisaria reduzir despesas ou aumentar receitas em R$ 27,1 bilhões até dezembro. Já para zerar completamente o déficit, seria necessário um esforço de R$ 58,1 bilhões — cenário considerado difícil pelos analistas.
O órgão alerta ainda que o arcabouço fiscal, embora importante, ainda depende da execução de medidas concretas de controle de gastos e revisão de incentivos tributários. Caso contrário, a credibilidade das metas pode ser colocada em xeque, impactando a percepção dos investidores e o custo de financiamento da dívida pública.
Visão do Bolso do Investidor
O alerta da IFI reforça o que o mercado já vinha precificando: a deterioração das contas públicas voltou ao centro do radar. O déficit acumulado de R$ 100,9 bilhões indica que, apesar dos sinais de recuperação da atividade econômica, o governo enfrenta limitações crescentes para equilibrar receitas e despesas.
Para o investidor, o recado é claro: o risco fiscal permanece o principal entrave para a trajetória de juros e câmbio. Uma gestão fiscal desequilibrada pressiona as expectativas de inflação, limita a queda da Selic e reduz o espaço para políticas de estímulo.
Além disso, o aumento do déficit pode afetar a percepção de solvência do país e encarecer o custo de captação para empresas e títulos públicos.
Em meio a esse cenário, a IFI defende uma agenda de consolidação fiscal focada em revisão de renúncias, racionalização de despesas e recomposição gradual da receita, pontos que serão determinantes para a confiança do investidor em 2026.
Conclusão
Com o déficit fiscal de R$ 100,9 bilhões e a perda de arrecadação após a queda da MP 1303, o governo entra no último trimestre de 2025 sob forte pressão. A manutenção das despesas em alta e a lentidão nas medidas de ajuste aumentam o desafio de cumprir as metas previstas no arcabouço fiscal.
A IFI alerta que o esforço exigido para reequilibrar as contas será expressivo e dependerá de decisões políticas rápidas e consistentes. Para o mercado, o quadro é de atenção máxima: a credibilidade fiscal do país voltou a ser o principal ativo em jogo.
Fontes:
