Brasil atinge 8 milhões de empresas e quase 80 milhões de pessoas endividadas: juros altos cobram o preço

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 30/10/2025


Introdução

O retrato da inadimplência no Brasil é alarmante. Dados da Serasa Experian mostram que o país chegou a 8,1 milhões de CNPJs negativados e 78,8 milhões de pessoas endividadas, o equivalente a mais de um terço da população. Mesmo com recorde de empregos formais e melhora na renda média, empresas e famílias continuam presas em um ciclo de dívidas acumuladas desde a pandemia. A escalada dos juros — que saltaram de 2% em 2020 para 15% em 2025 — tornou o crédito mais caro, corroendo o orçamento e empurrando parte significativa da economia para a inadimplência.


Desenvolvimento

O problema se formou ao longo de anos. Após o choque econômico da pandemia, muitas famílias recorreram ao crédito para manter o consumo, enquanto pequenas e médias empresas assumiram dívidas para preservar operações.
Mas a partir de 2022, o Banco Central elevou a Selic de forma acelerada para conter a inflação, encarecendo os empréstimos e dificultando renegociações. O resultado é uma montanha de dívidas em atraso que ainda cresce: em janeiro deste ano eram 74,6 milhões de inadimplentes, número que saltou para 78,8 milhões em agosto.

Cada consumidor deve, em média, R$ 6.267,69, distribuídos em cerca de quatro dívidas por pessoa. As pendências se concentram em bancos e cartões de crédito (27%), utilities (20,8%) e instituições financeiras não bancárias (19,5%).

No caso das empresas, a inadimplência atingiu 8,1 milhões de CNPJs em agosto — recorde histórico. Há um ano, eram 6,9 milhões. O valor médio das dívidas subiu de R$ 21,6 milhões para R$ 24,6 milhões, com maior peso em serviços (31,9%) e setor financeiro (23,4%).

A economista Camila Abdelmalack, da Serasa Experian, explica que o problema não está apenas no custo do crédito, mas também na demanda enfraquecida e nas margens comprimidas. “As empresas estão vendendo menos e enfrentam custos fixos elevados. Com juros altos por mais tempo e capital de giro escasso, a tendência é de um 2026 desafiador, com menos investimentos e contratações.”

A Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta ainda que o endividamento familiar atingiu 79%, e a inadimplência já alcança 30% das famílias — um novo patamar estrutural, segundo o economista Flávio Ataliba Barreto. Ele explica que, mesmo após o Programa Desenrola, encerrado em 2024, a maioria das famílias não conseguiu recompor reservas e segue dependente de crédito rotativo.
O cartão de crédito, hoje com juros médios de 451% ao ano, é o principal vilão da inadimplência.

Além do componente financeiro, Barreto destaca o comportamento de consumo como fator relevante. “Muitos brasileiros ainda tratam o limite do cartão como extensão da renda. Essa percepção, somada à falta de educação financeira, mantém o ciclo de endividamento ativo”, afirmou.


Como incentivar o acesso saudável ao crédito

Especialistas defendem que o Brasil precisa reformular os incentivos ao crédito produtivo, principalmente para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), que representam 93% das companhias ativas no país.
Entre as medidas possíveis estão:

  • Expansão de garantias públicas via Fundo de Aval para MPMEs, reduzindo o risco bancário e permitindo juros menores;
  • Criação de linhas de crédito específicas para investimento e capital de giro, com juros subsidiados e contrapartidas de produtividade;
  • Programas de incentivo à digitalização e gestão financeira, para profissionalizar empresas e melhorar sua análise de risco;
  • Ampliação do crédito via cooperativas e fintechs, que possuem custo operacional menor e oferecem alternativas mais ágeis;
  • Descontos tributários condicionados à manutenção de empregos e investimentos, estimulando o uso do crédito para expansão, não apenas sobrevivência.

Essas iniciativas podem revitalizar a confiança do empresariado, estimular o investimento privado e reduzir o risco de inadimplência sistêmica, já que empresas mais capitalizadas têm maior capacidade de renegociar dívidas e sustentar a atividade econômica.


Análise do Bolso do Investidor

O quadro atual reforça a necessidade de políticas de crédito mais inteligentes e educação financeira em larga escala. A inadimplência elevada limita o consumo — responsável por 62% do PIB brasileiro — e enfraquece o ciclo de crescimento.
Para o investidor, o cenário é duplo: o alto endividamento pressiona bancos e varejistas, mas favorece empresas de recuperação de crédito, seguradoras e fintechs que oferecem soluções de refinanciamento e controle financeiro.

A redução gradual da Selic, esperada para 2026, pode aliviar o peso das dívidas, mas o impacto será lento. A confiança empresarial e o crédito acessível serão essenciais para reverter o quadro.
Setores que dependem fortemente de financiamento, como construção civil, automotivo e pequenas indústrias, só devem reagir de forma consistente se houver queda estrutural dos juros e estabilidade fiscal.


Fechamento

Com juros altos, crédito restrito e consumo enfraquecido, o Brasil vive um círculo vicioso que combina endividamento recorde e baixo investimento produtivo. A saída passa por educação financeira, gestão responsável de crédito e políticas de incentivo bem calibradas para empresas e famílias.
Sem essas mudanças, a inadimplência tende a permanecer alta em 2026 — e o crescimento econômico, mais uma vez, limitado.


Fontes: InfoMoney; Serasa Experian; Banco Central; FGV/Ibre; Ministério da Fazenda