Bradesco mostra avanço sólido, mas juros altos pesam nas provisões e no humor do mercado

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 30/10/2025


Introdução

O Bradesco (BBDC4) apresentou um balanço sólido no terceiro trimestre de 2025, registrando lucro líquido recorrente de R$ 6,2 bilhões, uma alta de 18,8% em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar da melhora consistente e dos avanços operacionais, o mercado reagiu com frustração: as ações do banco caíam mais de 3,5% na manhã desta quinta-feira (30).
A leitura geral entre os analistas é que o resultado foi positivo, mas abaixo das altas expectativas. O principal ponto de atenção foi a estagnação do retorno sobre o patrimônio (ROE), que impediu uma precificação mais otimista dos papéis.


Desenvolvimento

A margem financeira total subiu 16,9%, somando R$ 18,7 bilhões, puxada por um crescimento de 19% na margem com clientes. A receita líquida de juros (NII) superou as projeções e chegou a R$ 18,7 bilhões, 17% acima do ano anterior.
O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) foi de 14,7%, levemente acima do trimestre anterior (14,6%), mas em linha com as estimativas da XP (14,5%). Ainda assim, analistas apontaram que a ausência de um salto mais expressivo nesse indicador gerou “sensação de estagnação”, especialmente após a valorização recente das ações.

Do lado operacional, o banco mostrou inadimplência estável em 4,1%, despesas sob controle e eficiência próxima de 50%, sinalizando que o plano de reestruturação iniciado em 2024 continua dando resultado.
A Genial Investimentos destacou que este é o sétimo trimestre consecutivo de alta nos lucros, indicando consolidação do “turnaround” da instituição. O setor de seguros manteve destaque, com ROE acima de 20% e crescimento consistente nos ramos de vida, saúde e previdência.

Por outro lado, o banco registrou alta de 5% nas provisões para perdas, movimento que reflete uma postura mais conservadora diante do cenário macroeconômico. Com a Selic ainda em 15% e o crédito mais caro, o risco de inadimplência entre empresas e consumidores permanece elevado. A desaceleração da economia, somada a casos corporativos pontuais e ações judiciais recentes, levou o Bradesco a reforçar suas reservas para eventuais calotes — uma decisão preventiva que protege o balanço, mas limita parte do lucro no curto prazo.

Segundo o Itaú BBA, o desempenho foi “líquido positivo”, ainda que ligeiramente abaixo da sua projeção de R$ 6,4 bilhões, devido a alíquotas tributárias maiores. Já o JPMorgan classificou o balanço como “neutro”, destacando que “a qualidade foi boa, mas as expectativas eram altas”.

O Bradesco também apresentou crescimento de 2% na carteira de crédito no trimestre, com destaque para varejo e pequenas e médias empresas (PMEs), que continuam sendo o foco do banco para sustentar o ciclo de recuperação.


Análise do Bolso do Investidor

O balanço do Bradesco mostra força operacional e consistência, mas ainda carece de aceleração nos retornos que empolguem o mercado. O ROE estabilizado em torno de 14% indica que o banco está em um estágio de maturação do processo de reestruturação, sem novos gatilhos de valorização no curto prazo.

Para o investidor, isso significa que BBDC4 segue uma tese de paciência: o banco vem melhorando indicadores de eficiência, crédito e rentabilidade, mas o ritmo é gradual.
Enquanto isso, concorrentes como Santander Brasil (SANB11) têm mostrado resultados mais dinâmicos, o que explica parte da rotação de investidores.

Ainda assim, as casas de análise mantêm visão positiva no longo prazo. A Genial e o Itaú BBA reiteraram recomendação de compra, com preço-alvo próximo de R$ 22, o que representa potencial de alta de 17% em relação ao fechamento mais recente. Já a XP manteve posição neutra, alertando que será preciso sustentar ROE acima de 15% e custo de crédito estável para atrair nova rodada de revisões otimistas.


Fechamento

O terceiro trimestre reforçou que o Bradesco segue em trajetória de recuperação, mas ainda enfrenta o desafio de converter eficiência em rentabilidade crescente.
Apesar da reação negativa das ações no curto prazo, o banco demonstra fundamentos sólidos e progresso sustentável, que podem render frutos a partir de 2026, quando o ciclo de crédito amadurecer.
Para o investidor, o cenário é de otimismo moderado: a tese de reestruturação continua válida — mas exige tempo, consistência e resistência às oscilações do mercado.


Fontes: InfoMoney; XP Investimentos; Itaú BBA; Genial Investimentos; JPMorgan; Bradesco (BBDC4).