Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 10 de novembro de 2025

A paralisação recorde do governo dos Estados Unidos pode estar próxima do fim, após um grupo de senadores democratas moderados concordar em apoiar um acordo que prevê a reabertura do governo e o financiamento de alguns departamentos e agências até o próximo ano, segundo fontes próximas às negociações.
Pelos termos do acordo, o Congresso norte-americano aprovaria o financiamento integral dos departamentos de Agricultura, Assuntos de Veteranos e do próprio Congresso, além de liberar recursos temporários para outras agências federais até o dia 30 de janeiro. O projeto também garantiria o pagamento retroativo a funcionários públicos afastados sem remuneração, retomaria repasses federais bloqueados a estados e municípios e reintegraria servidores desligados durante a paralisação.
A Câmara dos Representantes deve realizar uma votação processual neste domingo (9). Caso o projeto avance, o Senado precisará da aprovação unânime de seus membros para acelerar o processo de votação e pôr fim à paralisação rapidamente. Qualquer objeção isolada pode provocar atrasos e novas rodadas de votação.
“Parece que estamos cada vez mais perto do fim da paralisação”, afirmou o presidente Donald Trump a repórteres na noite de domingo, ao retornar à Casa Branca.
Divisões internas ainda persistem
Apesar do otimismo do governo, a aprovação do acordo na Câmara não está garantida. Lideranças democratas já se manifestaram contra qualquer proposta que não inclua a prorrogação dos subsídios do programa de saúde Obamacare, que expiram neste ano. O texto atual não contempla essa medida.
Por outro lado, a ala mais conservadora do Partido Republicano exige que o pacote financie o governo integralmente até 30 de setembro de 2026.
O acordo, portanto, é visto como uma tentativa de ambos os lados salvarem as aparências, ainda que fique aquém dos objetivos dos líderes democratas da Câmara e do Senado — que reivindicam a extensão dos subsídios do Obamacare e a revogação dos cortes no programa Medicaid aprovados pelos republicanos no início do ano.
“Vamos lutar contra o projeto de lei republicano na Câmara dos Representantes”, declarou o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, em comunicado no domingo à noite.
Em troca, o grupo de senadores democratas moderados aceitou a promessa de uma votação futura, ainda neste ano, sobre a prorrogação dos subsídios da Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act). A promessa foi feita pelo líder da maioria no Senado, John Thune.
Paralisação histórica e impactos econômicos
A paralisação, que já dura 40 dias, tornou-se a mais longa da história dos Estados Unidos — superando os 35 dias registrados durante o primeiro governo de Donald Trump, entre 2018 e 2019.
Esse tipo de impasse entre os poderes não é novidade. Em 2013, os republicanos não conseguiram revogar o Obamacare durante um bloqueio semelhante, e em 2019 Trump também falhou em obter financiamento para o muro na fronteira com o México durante outro fechamento prolongado do governo.
Este ano, os democratas bloquearam 14 vezes um projeto de lei provisório aprovado pela Câmara em 19 de setembro, que teria mantido as operações federais até novembro. A postura se tornou um ponto de tensão entre os partidos, intensificado por pressões econômicas e sociais crescentes.
Na sexta-feira (7), o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, propôs reabrir o governo em troca de um acordo que prorrogasse por um ano os créditos fiscais do Obamacare. A proposta, contudo, foi rejeitada pelos republicanos, que defendem uma substituição completa do programa por uma alternativa ainda em elaboração.
Os conservadores também se opuseram às demandas democratas por US$ 1,5 trilhão em novos gastos, mantendo a Câmara fora de sessão desde 19 de setembro. A Casa Branca, por sua vez, elevou a pressão ao anunciar demissões em massa de funcionários públicos, ameaçar o não pagamento de mais de 600 mil servidores afastados e desobedecer decisões judiciais sobre a liberação de benefícios do programa de assistência alimentar (“food stamps”).
Com a aproximação do feriado de Ação de Graças, o secretário de Transportes, Sean Duffy, ordenou que companhias aéreas cancelassem voos, provocando forte impacto no setor. “A situação só vai piorar durante o período de festas”, afirmou Duffy.
Negociações e efeitos políticos
A estratégia surtiu efeito: um grupo de senadores democratas cedeu às pressões, permitindo o avanço de um projeto bipartidário que deve encerrar o impasse. Para que a votação no Senado ocorra, oito democratas precisam se unir aos republicanos, que controlam ambas as casas do Congresso.
As conversas entre os dois partidos se intensificaram após vitórias expressivas dos democratas nas eleições de meio de mandato em estados como Nova York, Virgínia, Nova Jersey e Califórnia. Republicanos afirmam que os democratas começaram a recuar em suas exigências por temer um impacto negativo nas próximas disputas eleitorais.
Ainda assim, o futuro do Obamacare permanece incerto. Mesmo que o governo seja reaberto, não há garantia de que os subsídios do programa serão renovados antes de expirar em dezembro.
Os republicanos da Câmara se opõem à prorrogação e, em vez disso, defendem a expansão de planos de saúde alternativos de curto prazo e a imposição de restrições mais rígidas em temas como aborto. Alguns senadores republicanos exigem a criação de novos limites de renda e regras de coparticipação para os beneficiários, enquanto outros querem uma reformulação total da Lei de Acesso à Saúde antes de qualquer acordo.
Custos da paralisação e impacto econômico
De acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), a paralisação já está custando cerca de US$ 15 bilhões por semana à economia americana. A entidade estima que o impasse reduzirá o crescimento trimestral do PIB em até 1,5 ponto percentual até meados de novembro.
A confiança do consumidor também atingiu o menor nível em três anos, refletindo preocupações com inflação, preços e mercado de trabalho.
Além disso, a suspensão da maioria dos dados econômicos oficiais deixou o Federal Reserve sem informações atualizadas, o que dificulta decisões sobre juros e política monetária.
Visão Bolso do Investidor
O impasse político nos Estados Unidos reforça a fragilidade fiscal e institucional de um país que ainda tenta equilibrar gastos públicos e políticas sociais em um cenário de desaceleração econômica.
Para o investidor, a instabilidade política afeta diretamente o apetite ao risco global — especialmente no curto prazo —, impactando bolsas, juros e câmbio em mercados emergentes.
O desfecho das negociações será um termômetro importante para medir o nível de confiança no governo americano e nas suas políticas fiscais ao longo de 2025.
Fontes:
- InfoMoney
