Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 12 de novembro de 2025

O programa Crédito ao Trabalhador, lançado em março de 2025, vem registrando uma expansão acelerada. Em apenas sete meses, o número de concessões quase triplicou — passando de 2.250 operações em março para 6.399 em setembro.
Ao mesmo tempo, os juros médios anuais subiram de 44% para 58,4%, com alguns bancos chegando a cobrar até 185% ao ano, segundo dados do Banco Central.
Especialistas alertam que o crédito fácil tem atraído trabalhadores sem a devida consciência sobre o peso das parcelas descontadas diretamente na folha de pagamento, o que pode comprometer o orçamento mensal e ampliar o risco de endividamento.
Expansão rápida do consignado CLT
Antes da criação do programa, os empréstimos consignados no setor privado dependiam de convênios específicos entre empresas e instituições financeiras. Agora, a adesão é feita via aplicativo Carteira de Trabalho Digital, permitindo que o trabalhador solicite crédito e escolha o banco diretamente — sem intermediação da empresa.
A empresa só toma conhecimento do empréstimo quando recebe a notificação para efetuar o desconto em folha, limitado a 35% do salário. A modalidade está aberta a empregados CLT, domésticos, rurais, MEIs e trabalhadores de aplicativo.
A facilidade na contratação impulsionou as concessões: de uma média de 1.500 empréstimos por mês nos últimos dois anos, o volume saltou para mais de 6 mil em setembro, o maior patamar desde o início da série.
| Mês | 2025 |
| Março | 2.250 |
| Abril | 5.596 |
| Julho | 5.112 |
| Setembro | 6.399 |
Fonte: Banco Central
Para a economista Katherine Hennings, do FGV Ibre, o programa “abriu uma via antes obstruída” e vem se estabilizando rapidamente. Segundo ela, o aumento da base de tomadores reduziu a inadimplência momentaneamente, mas pode gerar riscos estruturais a médio prazo.
Juros sobem e comprometem renda
Embora o crédito consignado CLT ofereça juros menores que os empréstimos pessoais tradicionais, as taxas têm subido de forma consistente. Desde o lançamento do programa, a média avançou de 44% para 58,4% ao ano, alta de 14,4 pontos percentuais.
Mesmo assim, o consignado CLT custa mais que o dobro do cobrado a servidores públicos e beneficiários do INSS, cujas taxas giram em torno de 24% ao ano.
| Modalidade | Juros médios anuais (%) |
| Cheque especial | 141,0 |
| Crédito pessoal não consignado | 101,2 |
| Consignado CLT | 58,4 |
| Consignado servidores públicos | 24,4 |
| Consignado INSS | 24,0 |
Fonte: Banco Central (setembro/2025)
O uso do FGTS como garantia também preocupa. Em caso de demissão, o valor acumulado é usado automaticamente para quitar o empréstimo, reduzindo a reserva do trabalhador. Caso o saldo não cubra a dívida, o desconto continua sendo feito em futuros vínculos CLT, acrescido de juros e correção monetária.
Para Reinaldo Domingos, presidente da Abefin (Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira), isso compromete o propósito original do FGTS, que é proteger o trabalhador em momentos de instabilidade.
“O crédito consignado CLT é uma dádiva e um problema. Pode aliviar dívidas caras, mas sem educação financeira o risco de colapso no orçamento é enorme”, afirma.
Trabalhadores tomam crédito sem entender o custo
Uma pesquisa conduzida pela Abefin revelou um cenário preocupante. Entre 800 entrevistados (metade contratou o consignado CLT e metade não), 69% não calcularam o impacto mensal das parcelas, 83% desconheciam a taxa de juros e 47% não sabiam que o FGTS seria usado como garantia.
Outro ponto é a disparidade de juros entre instituições. Segundo o BC, as taxas variam de 19,1% ao ano no Banco Arbi até 185,2% no Banco Ribeirão Preto. Entre os grandes bancos, as médias estavam em 36,6% (Bradesco), 40,8% (Caixa), 41,2% (Itaú), 45,7% (Banco do Brasil) e 48% (Santander).
Impacto direto no salário
Com o desconto automático em folha, o salário líquido do trabalhador sofre uma redução significativa.
Hennings alerta:
“Crédito não é renda. É antecipação de salário. O trabalhador precisa entender que, ao pegar um empréstimo, está comprometendo o que receberá nos meses seguintes.”
Se um empregado destinar o limite de 35% do salário ao consignado e já tiver desconto de 27% de IR, restará apenas 38% da renda para todas as outras despesas. O cenário é ainda mais preocupante para quem possui plano de saúde, previdência privada ou outros abatimentos fixos.
Domingos destaca que a modalidade também foi aberta a trabalhadores de aplicativo — o que amplia o risco.
“Muitos já estão lutando para complementar a renda e acabam comprometendo esse segundo ganho com parcelas fixas que consomem boa parte do que recebem”, explica.
Como usar o consignado com responsabilidade
Para quem pretende recorrer ao crédito consignado CLT, especialistas recomendam:
- Levantar todos os custos fixos e variáveis antes de assumir a dívida.
- Simular o impacto da parcela no salário líquido.
- Evitar prazos longos: o prazo médio hoje é de 34,4 meses, quase três anos.
- Usar o crédito apenas para substituir dívidas mais caras, e não para consumo.
Segundo a Abefin, os principais motivos de contratação são:
- 36% para quitar dívidas caras (como cartão e cheque especial)
- 29% para gastos com saúde
- 26% para reforma da casa
- 19% para compra de eletrodomésticos ou veículos
Domingos alerta que trocar uma dívida de cartão (média de 508% ao ano) por consignado pode parecer vantajoso, mas lembra:
“O consignado não está sujeito à Lei do Superendividamento — ou seja, não é possível renegociar o pagamento. É uma dívida que não se pode adiar.”
Visão Bolso do Investidor
O crescimento do consignado CLT reflete o apetite por crédito em meio à renda comprimida, mas acende um sinal de alerta.
Apesar da taxa parecer mais baixa que outras modalidades, o endividamento invisível via desconto em folha é uma armadilha comum: o trabalhador sente o alívio imediato, mas perde poder de compra por anos.
O crédito deve ser visto como último recurso, nunca como extensão do salário. Educação financeira e planejamento orçamentário são as únicas formas de evitar que o “crédito fácil” se transforme em bola de neve financeira.
Fontes:
- InfoMoney
