Empresas correm para antecipar dividendos extraordinários e driblar novo imposto que entra em vigor em 2026

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 15 de novembro de 2025

A tributação sobre dividendos aprovada pelo Congresso na semana passada — com vigência prevista para 2026 — tem levado diversas companhias brasileiras a acelerar estratégias para distribuir lucros ainda em 2025. A regra de transição prevê que dividendos aprovados até 31 de dezembro de 2025 e pagos entre 2026 e 2028 continuarão isentos de imposto de renda, o que tem estimulado um movimento de antecipação por parte de empresas com reservas elevadas.

De acordo com especialistas, para garantir a isenção, muitas companhias estão avaliando alternativas para levantar recursos imediatamente, recorrendo a empréstimos bancários e até a ofertas primárias de ações destinadas exclusivamente a financiar o pagamento de dividendos extraordinários.

Um estudo do Banco Safra mostra que setores como alimentos e bebidas, mineração e construção civil são os mais propensos a antecipar distribuições. Entre as empresas com reservas robustas e baixo endividamento que surgem como candidatas naturais a pagamentos extraordinários estão Eztec (EZTC3), PetroReconcavo (RECV3), Ambev (ABEV3), Cyrela (CYRE3) e Vale (VALE3). A própria Vale já admitiu analisar a possibilidade de distribuir dividendos adicionais por conta da nova tributação.

Emissões de ações para financiar dividendos

Com a valorização recente da Bolsa, algumas companhias avaliam recorrer ao mercado de capitais para financiar dividendos antecipados. A estratégia envolve uma oferta primária de ações cujo valor levantado seria utilizado integralmente para distribuir os lucros aos acionistas.

Segundo George Costa e Silva, responsável pela área de Mercados de Capitais de Renda Variável do Bradesco Banco de Investimento, empresas com reservas elevadas já estão modelando cenários para determinar se vale mais a pena antecipar a distribuição ou esperar a entrada em vigor da nova regra.

Nesse caso, a oferta teria características híbridas: seria primária, pois envolve emissão de novos papéis, mas funcionaria como uma secundária do ponto de vista financeiro, já que os recursos não seriam usados na operação da empresa, mas direcionados diretamente aos acionistas.

Há ainda empresas de médio porte — especialmente no setor imobiliário — que, com reservas elevadas e boa geração de caixa, podem optar por emissões específicas para antecipar dividendos.

Linhas de crédito para pagamentos antecipados

Além do mercado de capitais, bancos já oferecem linhas de crédito direcionadas a companhias que buscam garantir o pagamento de dividendos ainda este ano.
Para Andrea Bazzo Lauletta, sócia tributarista do Mattos Filho Advogados, as preocupações das empresas se dividem em duas frentes: os lucros apurados até 31 de dezembro de 2025 e os pagamentos que ocorrerão após 2026. A prioridade tem sido assegurar a isenção enquanto ainda há tempo hábil.

A especialista lembra que a nova regra afetará tanto empresas grandes quanto pequenas, incluindo sociedades limitadas, o que amplia o alcance da corrida por antecipações.

Bonificação em ações como alternativa

Uma dúvida recorrente entre empresas é como distribuir dividendos isentos ainda em 2025 quando não há caixa disponível para efetuar o pagamento imediato.
A legislação aprovada exige três condições: apuração do lucro este ano, deliberação sobre a distribuição até 31 de dezembro e que os lucros sejam considerados exigíveis conforme normas empresariais e civis.

Para companhias abertas, uma alternativa em análise é a distribuição por meio de bonificações em ações, o que permitiria formalizar a entrega dos lucros ainda em 2025, sem a necessidade de desembolso financeiro imediato.

Dividendos podem diminuir no futuro?

Com a nova tributação, surge a discussão sobre a possível redução da distribuição de dividendos nos próximos anos. Para Andrea Bazzo Lauletta, esse efeito não seria necessariamente negativo. Em sua visão, a mudança pode incentivar companhias a reinvestirem mais nos próprios negócios, o que tende a gerar valor no longo prazo.

Ela observa, porém, que reter lucros para aplicações financeiras não é vantajoso, já que o lucro financeiro também será mais tributado. Assim, para empresas com espaço de crescimento e investimento, a retenção pode se mostrar uma estratégia mais eficiente do que distribuições frequentes.


Visão Bolso do Investidor

O adiantamento de dividendos extraordinários evidencia como mudanças tributárias podem alterar de forma abrupta a alocação de capital das empresas. Para investidores, a janela até dezembro de 2025 pode gerar oportunidades relevantes de recebimento de proventos, especialmente em companhias com reservas robustas.

Ao mesmo tempo, o cenário reforça a importância de monitorar como as empresas financiarão essas antecipações — seja via endividamento, emissões de ações ou bonificações. Tais decisões impactam diretamente estrutura de capital, diluição acionária e sustentabilidade das distribuições futuras.
A partir de 2026, é provável que o mercado observe um equilíbrio maior entre reinvestimento e remuneração ao acionista, conforme os efeitos da nova tributação forem assimilados.


Fontes:InfoMoney