Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 25 de novembro de 2025

A saída de Warren Buffett da presidência da Berkshire Hathaway é mais do que uma mudança de comando em uma das empresas mais valiosas do planeta. Para especialistas em liderança, como Carolyn Dewar, sócia da McKinsey e referência global em sucessão de CEOs, trata-se de uma das demonstrações mais raras, e valiosas, de liderança altruísta. É uma transição silenciosa, elegante e cuidadosamente planejada por um homem que transformou US$ 10 mil iniciais em uma fortuna estimada hoje em mais de US$ 130 bilhões, e que, mesmo assim, deixa o cargo sem apego ao poder.
A carta final de Buffett aos acionistas, citada por Dewar, sintetiza sua visão de mundo e sua forma de liderar. Em um dos trechos mais comentados, ele lembra que “a faxineira é tão humana quanto o presidente do conselho”, reforçando a crença de que respeito e decência não são adereços, mas fundamento para a confiança e para resultados duradouros. Para Dewar, essa é a essência de uma liderança voltada para o coletivo, e não para o ego.
Buffett construiu seu patrimônio seguindo uma filosofia simples de explicar e difícil de executar: comprar empresas excelentes por preços justos, manter investimentos por décadas e ignorar a volatilidade do mercado. Esse método, o value investing, fez dele uma das mentes mais respeitadas da história dos mercados financeiros e garantiu a Berkshire Hathaway um crescimento sem paralelo. Acumulou ao longo de décadas companhias como Coca-Cola, American Express, Geico, BNSF e Apple, consolidando uma estratégia que prioriza fundamentos, gestão competente e visão de longo prazo.
Mesmo com uma das maiores fortunas do mundo, Buffett manteve por toda a vida um estilo surpreendentemente simples: vive até hoje na mesma casa em Omaha, comprada em 1958, dirige seu próprio carro, toma café da manhã no McDonald’s e nunca adotou o padrão de vida extravagante comum entre bilionários. Ele próprio chamava isso de “independência intelectual”, a liberdade de viver como deseja sem ser moldado pelo olhar externo.
A decisão de deixar o comando da Berkshire se encaixa nesse mesmo padrão. Segundo Dewar, a saída de Buffett não foi um movimento pessoal, mas organizacional: ele escolheu o momento certo para assegurar o futuro da companhia. A sucessão para Greg Abel, vice de longa data, foi planejada ao longo de anos, com cuidado, paciência e generosidade. “O líder precisa se perguntar: eu ainda sou a pessoa certa para o futuro que a empresa precisa?”, diz Dewar. É uma reflexão que poucos executivos têm a coragem de fazer.
Ela compara a transição ao famoso episódio do quarterback Steve Young, que sucedeu Joe Montana no San Francisco 49ers. Young, no começo, tentou imitar o ídolo, e fracassou. Apenas quando decidiu ser ele mesmo, sua carreira deslanchou. Dewar diz que o gesto de Buffett de “ficar quieto por um tempo” serve exatamente para isso: permitir que Abel seja o melhor Greg Abel possível, e não uma sombra de Buffett.
O investidor também deixa como legado as suas cartas anuais, que se tornaram leitura obrigatória no mercado financeiro. São textos simples, diretos e recheados de lições que marcaram gerações, como o clássico “tenha medo quando os outros são gananciosos e seja ganancioso quando os outros têm medo” ou a famosa metáfora das bolhas financeiras: “só quando a maré baixa você descobre quem estava nadando pelado”. Para Dewar, a forma como Buffett encerra sua trajetória mostra o verdadeiro sentido da liderança: preparar o sucessor para ter ainda mais sucesso do que o antecessor. Para ela, esse é o teste definitivo de grandeza. Encerrar bem, afirma, é garantir que a organização prospere sem você, e graças ao que você construiu.
Visão Bolso do Investidor
A aposentadoria de Warren Buffett não é apenas um marco histórico; é um lembrete poderoso para investidores e líderes. Buffett mostra que disciplina, simplicidade, visão de longo prazo e respeito são pilares que atravessam gerações. Sua filosofia reforça que riqueza duradoura não é construída na pressa, mas na consistência. E que grandes líderes deixam um legado justamente quando aprendem a sair de cena no momento certo, permitindo que a próxima geração prospere. Para o investidor, a mensagem é clara: princípios sólidos superam modismos, e o tempo é o maior aliado do mercado.
Fontes: Fortune; Infomoney
