Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 28 de novembro de 2025

O halving, evento que reduz pela metade a quantidade de Bitcoins gerados como recompensa aos mineradores, sempre foi considerado um dos pilares da formação de preço da criptomoeda. Por limitar a oferta, o processo cria escassez e influenciou, por muitos anos, um padrão previsível de ciclos de quatro anos, no qual máximas, mínimas e recuperações seguiam intervalos regulares. No entanto, especialistas afirmam que esse comportamento pode estar mudando.
O próximo halving está previsto para o início de 2028. Mas, segundo analistas, a dinâmica de preços que tradicionalmente orbitava o evento já não parece tão linear.
A tese do ciclo de quatro anos
Historicamente, investidores observaram um padrão que se repetia:
- Após o halving, o Bitcoin levava determinado número de semanas para atingir um novo recorde;
- Depois desse topo, o mesmo intervalo se repetia até o fundo do ciclo;
- Em seguida, o mesmo número de semanas separava o fundo do próximo halving.
Esse ciclo ficou evidente em diferentes períodos. Em abril de 2015, o BTC valia cerca de US$ 230, o fundo daquele ciclo. Exatas 77 semanas depois, ocorreu o halving. Outras 77 semanas se passaram até que, em novembro de 2017, o Bitcoin atingisse sua máxima ao redor de US$ 13.880. Os dois ciclos seguintes repetiram padrões de 75 semanas.
O halving mais recente aconteceu em 19 de abril de 2024. Setenta e cinco semanas antes, o Bitcoin registrou o valor mais baixo do ciclo. Já em 6 de outubro de 2025, 76 semanas após o halving, a criptomoeda renovou sua máxima, chegando a US$ 126 mil. No entanto, o mercado já enfrenta um bear market intenso: desde a máxima, o Bitcoin recuou mais de 30%, caminhando para seu pior mês em três anos, o que gera dúvidas sobre a continuidade do ciclo tradicional e a possibilidade de um fundo somente em 2027.
O ciclo acabou?
Para alguns especialistas, o ciclo não desapareceu, mas perdeu protagonismo.
Julián Colombo, diretor sênior de Políticas Públicas e Estratégia para a América do Sul na Bitso, afirma que o padrão ainda existe, mas foi “diluído em um mercado mais complexo e profissionalizado”. Hoje, diz ele, os ciclos convivem com variáveis como mudanças macroeconômicas e fluxos institucionais.
Paulo Aragão, economista e host do podcast Giro Bitcoin, compartilha visão semelhante: “o ciclo não morreu, mas está sendo transformado”. Para ele, a presença de ETFs, grandes fundos e maior correlação com a liquidez global alterou a dinâmica tradicional.
Já Sarah Uska, analista de criptoativos do Bitybank, avalia que o padrão de quatro anos está “ultrapassado”. Segundo ela, o avanço da adoção institucional, envolvendo gestoras, bancos, fundos e até governos, gera uma demanda mais constante e regulada, o que reduz o impacto do halving como único eixo de precificação.
Outra mudança relevante é a crescente sensibilidade do Bitcoin ao cenário macroeconômico, especialmente às decisões dos bancos centrais, em particular o Federal Reserve. Isso diminui o peso do halving diante de fatores como juros, liquidez e aversão ao risco.
Uska destaca ainda uma mudança de percepção: “o Bitcoin está se provando como uma reserva de valor. Ele foi criado para ser moeda de troca, mas o mercado se encaminha para tratá-lo como reserva de valor, e o investimento institucional reforça essa tese”.
Qual é o papel do halving agora?
Mesmo com a perda de previsibilidade dos ciclos anteriores, o halving continua sendo observado pelo mercado.
Para André Franco, CEO da Boost Research, o evento passou a ter “efeito psicológico” e segue sendo “um marco técnico interessante”.
Colombo concorda. Ele aponta que o halving seguirá influenciando a precificação do Bitcoin, ainda que de forma mais moderada, tanto pela redução estrutural da oferta, que permanece relevante, quanto pelo peso simbólico que o evento carrega entre investidores.
Segundo ele, o enfraquecimento do ciclo rígido traz efeitos positivos para o mercado. “A previsibilidade absoluta pode gerar distorções, pois incentiva movimentos especulativos baseados exclusivamente no calendário e reduz a eficiência da descoberta de preço.”
Visão Bolso do Investidor
A possível diluição do ciclo de quatro anos representa uma mudança significativa para quem acompanha o mercado de criptoativos. Em um ambiente mais institucionalizado e sensível a fatores macroeconômicos, o Bitcoin passa a responder menos a padrões históricos e mais a variáveis como liquidez global, estratégias de grandes investidores e decisões monetárias. Para o investidor, isso reforça a importância de evitar apostas baseadas apenas em cronogramas e de priorizar fundamentos, diversificação e análise de risco. A previsibilidade menor pode, paradoxalmente, contribuir para um mercado mais maduro e menos vulnerável a comportamentos especulativos.
Fontes:
- Infomoney
