Corte da Selic em janeiro volta ao radar após PIB fraco e economia desigual

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 4 de dezembro de 2025

Os dados divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira (4) trouxeram de volta ao radar a possibilidade de um corte da taxa Selic já em janeiro de 2026. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,1% no terceiro trimestre, abaixo das expectativas, e confirmou um cenário de desempenho desigual entre os setores da economia, combinação que reacendeu apostas de que o Banco Central poderá iniciar antes do esperado um ciclo de flexibilização monetária.

O Brasil opera com juros extremamente elevados. Com a Selic estacionada em 15%, a política monetária permanece entre as mais restritivas do mundo, o que tem provocado efeitos distintos em diferentes segmentos da atividade. Para Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital, o resultado do PIB indica um país em desaceleração, mas com setores que continuam surpreendendo. A indústria cresceu 0,8% e a construção civil, tradicionalmente sensível a juros altos, avançou 1,3% após dois trimestres de queda. Do lado da demanda, os investimentos também mostraram resiliência, subindo 0,9% após recuo no período anterior.

Em contrapartida, serviços e consumo das famílias, dois grandes motores da economia, praticamente não cresceram, ambos com alta de apenas 0,1%. O comportamento reforça o impacto da política monetária apertada e alimenta a tese de que há espaço para o início de cortes já no começo de 2026.

No mercado de juros futuros, a reação foi imediata. Após a divulgação do PIB, a precificação da curva a termo passou a indicar 84% de probabilidade de um corte de 25 pontos-base na Selic já no encontro do Copom de janeiro, acima dos 78% registrados no dia anterior. Economistas do Inter e da Galapagos Capital projetam redução no início do ano, embora divergem sobre o ritmo: 0,25 ponto percentual para o Inter e 0,50 ponto para a Galapagos.

Outros especialistas mantêm cautela. Para Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, o BC pode optar por esperar mais sinais claros de desaceleração e iniciar o ciclo somente em março. Ele destaca que a economia está perdendo força de forma irregular, e que o Banco Central tende a adotar prudência num ambiente em que o cenário internacional aumenta a incerteza. A desaceleração global, especialmente na Europa e na Ásia, e o debate sobre inflação e juros nos Estados Unidos também terão peso na decisão. O Federal Reserve volta a se reunir na próxima semana e o mercado espera um novo corte de juros, após uma série de indicadores apontar arrefecimento no mercado de trabalho americano.

Padovani também alerta para o excesso de otimismo nos mercados acionários globais, que pode gerar correções bruscas e afetar crescimento e fluxos financeiros. Somado às indefinições sobre a corrida eleitoral brasileira de 2026, o quadro aponta para um ano mais volátil. Mesmo com eventuais cortes na Selic, ele projeta que os impactos positivos levarão tempo para se refletir plenamente na economia.

A divulgação do PIB reforçou um retrato de transição. Há setores sustentando o ritmo, outros já mostrando estagnação e um ambiente de juros altos que segue pressionando o consumo e dificultando a expansão da atividade. A partir deste ponto, o debate sobre a Selic passa a depender do equilíbrio entre a necessidade de estimular a economia e a responsabilidade de manter a inflação em trajetória de convergência.

Visão Bolso do Investidor

A reabertura das apostas em corte da Selic para janeiro mostra como o mercado reage rapidamente a sinais de fraqueza na atividade econômica. Para o investidor, o momento exige equilíbrio: juros ainda muito altos travam parte dos setores, mas também criam boas oportunidades em renda fixa, enquanto eventual início de flexibilização pode melhorar o cenário para ativos de maior risco ao longo de 2026. Ainda assim, é importante lembrar que cenários eleitorais e incertezas externas tendem a aumentar a volatilidade. Planejamento, diversificação e disciplina continuam essenciais para atravessar períodos de transição monetária com segurança e visão de longo prazo.

Fontes: Reuters; Infomoney