Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 9 de dezembro de 2025

Os investimentos multibilionários realizados pelas empresas de tecnologia em inteligência artificial levantaram nas últimas semanas um debate sobre a possibilidade de formação de uma bolha no setor. Apesar das preocupações, essa não é a visão de Ronaldo Patah, estrategista do UBS Global Wealth Management, que reforça o potencial das companhias globais ligadas à tendência e descarta sinais de que o movimento atual se assemelhe ao período das empresas “pontocom”.
O tema foi discutido no Onde Investir 2026, evento realizado pelo InfoMoney em parceria com a XP, que reúne especialistas para interpretar o cenário econômico e indicar estratégias de alocação para o próximo ano. Também participou do painel Rodrigo Sgavioli, head de alocação da XP.
IA segue como força estrutural, não especulativa, afirmam analistas
Para Patah, o forte desempenho das bolsas americanas em 2025, que subiram mais de quinze por cento impulsionadas pela onda de inteligência artificial, não caracteriza excesso irracional. Ele destaca que, ao contrário do fim dos anos 1990, o avanço atual é sustentado por empresas grandes, lucrativas e com crescimento real de vendas e lucros. Afirmou ainda que as big techs enfrentam um “problema positivo”: a incapacidade de atender toda a demanda por infraestrutura de IA.
Apenas em 2025, as quatro maiores companhias devem investir cerca de 460 bilhões de dólares em data centers, computação em nuvem, chips e capacidade de processamento. O número supera com folga as estimativas do ano anterior, reforçando a dimensão do ciclo de investimentos em andamento.
Rodrigo Sgavioli, da XP, concorda que a inteligência artificial está longe de um ponto de saturação na economia real. O ciclo de investimentos, iniciado há menos de dois anos, segue acelerado, e, para ele, é cedo para falar em excesso de capacidade ou sobrevalorização estrutural.
Múltiplos altos pedem atenção, mas não indicam bolha
O debate passa também pelos valuations. Patah reconhece que alguns múltiplos, como o preço/lucro, estão um a dois desvios-padrão acima da média histórica, mas argumenta que isso não configura, necessariamente, um movimento insustentável. Para ele, o patamar é compatível com o crescimento esperado de lucros, estimado em pelo menos oito por cento para 2026.
Sgavioli lembra que executivos de grandes bancos americanos, como Goldman Sachs e Morgan Stanley, já consideram natural a possibilidade de correções nos próximos doze a vinte e quatro meses. Ainda assim, ele enfatiza que tentar acertar o “timing” da Bolsa americana é uma estratégia arriscada e que o mais importante é manter posição consistente ao longo do tempo.
Com esse pano de fundo, o UBS mantém recomendação acima do neutro para ações globais, reforçando alocação nos Estados Unidos, retomando exposição na Europa e ampliando investimentos em emergentes como Brasil e Índia. Segundo Patah, a Bolsa americana negocia hoje a cerca de 22,5 vezes lucro, um nível alto, mas condizente com o ciclo econômico atual.
Estratégias de alocação da XP para 2026
Para a XP, a renda fixa continuará predominante nas carteiras brasileiras no próximo ano, mas com composição diferente: menor peso em ativos pós-fixados e maior participação de papéis atrelados à inflação e prefixados. A gestora mantém exposição relevante a multimercados e ativos globais e aumentou recentemente a fatia destinada à renda variável doméstica.
Sgavioli destacou que muitos investidores evitaram a Bolsa no início de 2025 e acabaram ficando de fora de uma alta expressiva, que superou inclusive as projeções iniciais de 160 mil pontos. Em sua avaliação, mais importante do que “ter ou não ter Bolsa” é definir o tamanho adequado da posição e os instrumentos corretos. Setores como imobiliário, bancos, consumo e farmacêuticas são vistos como potenciais beneficiários de um cenário de queda gradual da Selic aliado a uma economia ainda resiliente.
Visão Bolso do Investidor
O debate sobre uma possível bolha de IA revela um ponto central para o investidor: diferenciar movimentos especulativos de transformações estruturais. A inteligência artificial já está integrada à economia real, impulsionando produtividade e criando novos mercados. Valuations elevados exigem cautela, mas também refletem expectativas de lucros em setores de crescimento acelerado. Para quem investe, entender o ciclo tecnológico e manter disciplina na alocação pode ser mais eficiente do que tentar prever correções de curto prazo. Em um ambiente de inovação contínua, consistência e diversificação tornam-se essenciais para atravessar períodos de volatilidade sem abrir mão das oportunidades geradas por tendências de longo prazo.
Fontes: InfoMoney
