Super Quarta: decisões de juros no Brasil e nos EUA devem manter foco nos sinais para 2026

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 10 de dezembro de 2025

A chamada “Super Quarta”, quando Copom e Federal Reserve anunciam suas decisões de política monetária no mesmo dia, chega ao mercado carregada de expectativas. Embora inflação e mercado de trabalho continuem sendo pilares centrais das análises, a atenção dos investidores está voltada aos comunicados pós-reunião, que devem trazer pistas sobre o rumo dos juros em 2026.

Nos Estados Unidos, a maior parte do mercado trabalha com a probabilidade de 85% de que o Federal Reserve reduza novamente a taxa básica em 0,25 ponto percentual, levando a banda atual de 3,75%–4% para o intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano. Já no Brasil, a projeção consensual é de manutenção da Selic em 15%, com a dúvida concentrada no tom do Copom: o comunicado abrirá espaço para um corte já em janeiro, ou o Banco Central preferirá aguardar sinais mais consistentes antes de iniciar o ciclo de afrouxamento?

EUA: corte provável, mas divisão interna persiste

Nos Estados Unidos, a reunião ocorre após semanas de instabilidade política e econômica. O país deixou recentemente um período de shutdown que atrasou a divulgação de dados, e o próprio comitê do Fed demonstra divergências sobre o ritmo de flexibilização.

Os argumentos que sustentam o corte vêm do enfraquecimento do mercado de trabalho, do risco crescente de desaceleração econômica e da avaliação de que o impacto das tarifas elevadas sobre a inflação tende a ser transitório. Economistas como Luis Cesario, da Asset 1, afirmam que há uma pequena maioria inclinada à redução dos juros, embora não seja descartada uma postura mais cautelosa do comitê.

Outros analistas, porém, destacam que o mercado de trabalho segue próximo do pleno emprego e que a inflação continua acima da meta há um longo período, justificando um movimento mais conservador. Marcos Freitas, da AF Invest, cita o avanço da taxa de desemprego e o aumento dos desligamentos no setor privado como sinais importantes, mas reforça que a leitura ainda é heterogênea.

Uma eventual redução dos juros nos EUA tende a favorecer mercados emergentes, ampliando a liquidez global, reduzindo a aversão ao risco e fortalecendo operações de carry trade, fatores que podem beneficiar o real. Para economistas brasileiros, esse alívio externo é especialmente relevante em um momento de incertezas fiscais e proximidade do calendário eleitoral.

Brasil: Selic estável e grande expectativa no comunicado

No cenário doméstico, o Banco Central mantém a Selic em 15% desde julho, com a estratégia de segurar a atividade e conter pressões inflacionárias. Desde a reunião de novembro, novos dados reforçaram a desaceleração da economia.

O PIB desacelerou progressivamente ao longo do ano, e o mercado de trabalho mostrou menor abertura de vagas formais desde 2020. Mesmo assim, a taxa de desemprego recuou à mínima histórica, mantendo a renda elevada e pressionando a inflação pelo lado da demanda. O quadro reforça a complexidade do balanço de riscos.

Mesmo com núcleos de inflação mais comportados e projeções recuando no longo prazo, as expectativas ainda estão acima do centro da meta para 2025 e 2026. Para Leonardo Costa, do ASA Investments, o Copom encontrará um cenário mais benigno do que o observado meses atrás, mas ainda insuficiente para um corte imediato.

Além disso, setores sensíveis ao crédito já mostram fraqueza evidente. Como destaca Luís Otávio Leal, da G5 Partners, “a economia brasileira não aguenta muito tempo com juros reais acima de 10%”. Ele observa que políticas de transferência de renda do governo mantêm o consumo aquecido, criando um efeito de sustentação que reduz a eficácia da política monetária.

Nesse ambiente, o risco é que o ajuste se dê pela oferta, com empresas pressionadas pelo custo do crédito, e não pela demanda, que é o efeito natural de uma política contracionista.

Comunicação vira protagonista

Cada vez mais, o comunicado do Copom se torna parte essencial da política monetária. O texto costuma apontar os fatores decisivos da reunião e delinear possíveis trajetórias futuras da Selic.

O documento anterior afirmava que a interrupção do ciclo de alta deveria se estender por “período bastante prolongado”. Instituições como Itaú e Warren acreditam que essa linguagem deve ser suavizada, mas sem comprometer indicações explícitas de corte em janeiro. O tom deve permanecer cuidadoso, sustentado por dados de atividade, inflação, expectativas e projeções.

Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú, avalia que o comitê deve retirar trechos que sugerem possibilidade de retomada de altas, mas sem abrir um compromisso direto com redução imediata. A Warren, por sua vez, projeta que o BC apenas pavimentará o caminho para eventuais cortes, repetindo a mensagem de dependência dos próximos indicadores.

Quando começam os cortes?

As projeções divergem, mas convergem para um início do ciclo em 2026:

• Warren: corte de 25 bps já em janeiro, com movimentos subsequentes entre 25 e 50 bps ao longo do ano, levando a Selic a 12,25% em dezembro.

• Itaú: início em janeiro, porém em ritmo mais lento, com Selic próxima de 12,75% ao final de 2026.

• ASA Investments: cortes apenas em março, desde que inflação, expectativas e atividade mostrem sinais mais claros de moderação. Projeção de redução de 0,50 p.p. no primeiro movimento.

• Polo Capital: início em janeiro e Selic em 12% no fim de 2026, sustentada por melhora no balanço de risco e pela credibilidade da nova diretoria do BC.

Apesar das diferenças, analistas concordam que a combinação de juros reais historicamente elevados, desaceleração gradual da atividade e inflação mais próxima da meta abre espaço para uma flexibilização controlada no primeiro trimestre de 2026.


Visão Bolso do Investidor

A Super Quarta revela mais do que decisões pontuais: ela antecipa o clima monetário para 2026. Para o investidor brasileiro, o que mais importa não é o número divulgado, mas o discurso. Um Fed mais brando pode fortalecer o real, reduzir volatilidade e abrir espaço para o início de cortes no Brasil. Já um Copom mais cuidadoso reflete o compromisso com a convergência da inflação em um ambiente de riscos fiscais e atividade desigual.

A leitura final para quem investe é clara: o ciclo de juros está perto de virar, mas ainda depende de dados consistentes. A antecipação deste movimento pode abrir janelas relevantes tanto na renda fixa quanto na Bolsa.


Fontes:

  • InfoMoney