Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 17 de dezembro de 2025

A B3 vem estruturando sua estratégia para capturar um novo ciclo favorável do mercado a partir de 2026, impulsionado pela expectativa de início do afrouxamento monetário e por um ambiente macroeconômico mais construtivo. A avaliação foi apresentada durante o B3 Day 2025, evento que reuniu investidores e imprensa para discutir as perspectivas da operadora da Bolsa brasileira para os próximos anos.
Segundo Gilson Finkelsztain, CEO da B3, a companhia mantém foco no seu núcleo de negócios, independentemente do cenário político ou macroeconômico. Ele destacou que a estratégia da empresa permanece consistente ao longo dos ciclos econômicos e que a visão para o biênio 2026–2027 é mais otimista. A administração reforçou que a Bolsa estará preparada para capturar oportunidades quando o mercado voltar a crescer de forma mais intensa.
Estrutura de receitas e desafios para o próximo ciclo
A B3 opera com dois grandes grupos de receitas: as recorrentes e as pró-cíclicas. As receitas recorrentes incluem renda fixa e crédito, empréstimos de ativos, soluções para o mercado de capitais, dados, tecnologia e plataformas. Já as receitas pró-cíclicas dependem diretamente da dinâmica da renda variável e dos derivativos listados.
De acordo com a diretoria, ambos os segmentos apresentaram crescimento bastante semelhante entre 2015 e 2025, o que demonstra equilíbrio na estrutura de receitas da companhia. Ainda assim, os desafios para 2026 diferem entre as frentes. No segmento pró-cíclico, o foco está em potencializar os mercados e ampliar a participação dos investidores. Nas receitas recorrentes, a estratégia envolve expandir produtos ligados à renda fixa, crédito privado, duplicatas estruturadas e novas soluções de mercado.
Finkelsztain ressaltou que o mercado de ações é o mais sensível ao nível da taxa de juros no Brasil, sofrendo de forma mais intensa em períodos de aperto monetário. Por isso, a companhia tem buscado inovar dentro da própria família de produtos de renda variável, preparando o terreno para um novo ciclo de crescimento quando os juros começarem a recuar.
Renda variável e expansão da base de investidores
No segmento de renda variável, a B3 evita cravar projeções específicas de crescimento atreladas à queda dos juros, mas demonstra confiança no potencial de expansão do volume negociado. A expectativa se apoia na combinação de um cenário macroeconômico mais favorável com a ampliação da base de investidores de varejo.
Segundo a administração, o investidor pessoa física está mais engajado com o mercado, mas ainda pouco ativo na renda variável. Simulações internas indicam que um aumento no engajamento desse público pode gerar crescimento expressivo do volume médio diário negociado. A companhia também observa espaço para maior participação de investidores estrangeiros, cuja alocação no Brasil está em patamares historicamente baixos.
Além disso, os fundos de ações e multimercados seguem pressionados pelo ambiente de juros elevados, enfrentando resgates e competição direta com produtos de renda fixa. A retomada do fluxo para esses fundos é vista como um dos fatores-chave para impulsionar o mercado acionário no próximo ciclo.
Derivativos mantêm resiliência mesmo em cenários adversos
No mercado de derivativos, a avaliação da B3 é de que o impacto do cenário econômico tende a ser mais moderado. A natureza defensiva de parte das operações, aliada ao lançamento contínuo de novos produtos e ao modelo de tarifação, ajuda a suavizar oscilações cíclicas.
O número de investidores de varejo nesse segmento cresceu de 250 mil para 311 mil nos últimos anos, embora o Brasil ainda esteja distante de mercados como Índia, Estados Unidos e Coreia do Sul. A presença de formadores de mercado é apontada como essencial para sustentar o crescimento dos derivativos no próximo ciclo, especialmente após a diversificação de produtos que reduziu a concentração histórica em contratos de juros e câmbio.
A companhia destacou ainda que suas receitas recorrentes cresceram de forma consistente em dois dígitos anuais desde 2012, reforçando a resiliência do modelo de negócios ao longo do tempo.
Renda fixa, crédito privado e novos mercados
Na frente de renda fixa, Luiz Masagão, vice-presidente de produtos e clientes da B3, destacou a digitalização da negociação de títulos públicos como um dos avanços mais relevantes de 2025, ainda com grande espaço para expansão no Brasil. O mercado de crédito privado também segue em crescimento, embora enfrente desafios estruturais.
Segundo Masagão, houve dias com quase R$ 20 bilhões negociados, mas o foco para os próximos anos será ampliar ofertas e volume no mercado primário. Já no caso das duplicatas escriturais, a operacionalização plena deve ocorrer em 2026, com a obrigatoriedade para empresas com faturamento mínimo de R$ 300 milhões prevista para 2027.
Visão Bolso do Investidor
A estratégia apresentada pela B3 mostra que a companhia vem se posicionando de forma antecipada para capturar um eventual novo ciclo de crescimento do mercado financeiro brasileiro. A diversificação entre receitas recorrentes e pró-cíclicas reduz a dependência exclusiva da renda variável, enquanto os investimentos em tecnologia, dados, crédito privado e novos produtos ampliam o potencial de geração de valor no longo prazo.
Para o investidor, esse movimento reforça o papel estrutural da B3 no sistema financeiro nacional. Em um cenário de queda de juros, maior participação do varejo, retorno gradual do investidor estrangeiro e recuperação dos fundos de ações, a operadora da Bolsa tende a se beneficiar de forma direta do aumento do volume negociado. Ao mesmo tempo, a resiliência das receitas recorrentes ajuda a suavizar períodos de volatilidade, tornando a companhia menos exposta a ciclos extremos do mercado.
Fontes:
- InfoMoney
