Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 17 de dezembro de 2025

A situação financeira dos produtores rurais brasileiros se agravou de forma significativa ao longo do terceiro trimestre de 2025. Segundo levantamento da Serasa Experian, o número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio disparou 147,2% entre julho e setembro, na comparação com o mesmo período de 2024. O avanço expressivo reforça um cenário de pressão crescente sobre o setor, mesmo em um contexto de safras volumosas.
No total, foram registrados 628 pedidos de recuperação judicial no período, o maior volume desde o início da série histórica da Serasa Experian, em 2021. O ritmo de deterioração se intensificou ao longo do ano: no segundo trimestre, a alta havia sido de 31,7% na comparação anual, indicando uma aceleração clara do problema nos meses seguintes.
De acordo com Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, o momento é particularmente desafiador para produtores que vêm postergando ajustes estruturais. Segundo ele, muitos agricultores têm rolado dívidas por vários anos sem revisar custos, patrimônio ou estratégias de expansão, o que contribuiu para o acúmulo de desequilíbrios financeiros. Esse quadro se agravou em um ambiente de margens comprimidas, provocado pela combinação de queda nas cotações de grãos, elevação dos custos de insumos e juros elevados, mesmo com a presença de subsídios governamentais.
O cenário é ainda mais preocupante porque ocorre apesar de o Brasil ter colhido mais uma safra recorde de grãos em 2025. As primeiras projeções para a temporada 2025/2026 também indicam uma produção robusta, mas o volume não tem sido suficiente para compensar o aumento dos custos e a deterioração das condições financeiras, como já vinha sendo observado desde o início do plantio.
Os dados da Serasa Experian mostram que a maior pressão recai sobre produtores pessoas físicas. No terceiro trimestre, foram 255 pedidos de recuperação judicial por parte desse grupo, um aumento de 140% em relação ao mesmo período do ano anterior. A maior parte das solicitações veio de produtores arrendatários ou ligados a grupos econômicos e familiares, seguidos por grandes proprietários, pequenos produtores e, em menor número, médios produtores.
Entre as empresas agrícolas, o quadro também se agravou. Foram registrados 242 pedidos de recuperação judicial no terceiro trimestre, uma alta de 163% na comparação anual. Além disso, empresas de outros elos da cadeia do agronegócio, como fornecedores e prestadores de serviços, somaram 131 pedidos no período, avanço de 134%.
Os segmentos mais afetados foram o comércio atacadista de produtos agropecuários primários, a indústria de processamento de agroderivados, como óleo e farelo de soja, açúcar, etanol e laticínios, além da agroindústria de transformação primária. Esses números reforçam que a crise não está restrita ao campo, mas se espalha por toda a cadeia produtiva.
Visão Bolso do Investidor
O aumento expressivo dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio evidencia um problema estrutural que vai além de eventos pontuais de safra ou clima. Margens pressionadas por custos elevados, juros altos e queda nos preços das commodities expõem fragilidades financeiras acumuladas ao longo dos últimos anos. Para investidores, o movimento acende um alerta importante sobre risco de crédito, especialmente em empresas e produtores altamente alavancados ou com baixa capacidade de ajuste operacional. O cenário reforça a importância de avaliar com cuidado balanços, estrutura de capital e sustentabilidade financeira de negócios ligados ao agro, sobretudo em um ambiente de política monetária ainda restritiva.
Fontes:
- InfoMoney
- O Globo
