Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 19 de dezembro de 2025

O ambiente de juros elevados e crédito mais restrito ao longo de 2025 impulsionou de forma significativa o sistema de consórcios no Brasil. Entre janeiro e novembro, a modalidade alcançou um volume financeiro recorde de R$ 467 bilhões, crescimento de 31,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac).
O avanço foi sustentado pela venda de 4,78 milhões de cotas ao longo dos 11 meses do ano. No mesmo intervalo, o número de participantes ativos chegou a 12,74 milhões, alta de 13,5% na comparação anual. Já os créditos concedidos aos consorciados contemplados somaram R$ 112,55 bilhões, reforçando o papel do consórcio como instrumento relevante de financiamento e planejamento financeiro.
De acordo com a Abac, esse volume representa uma injeção expressiva de recursos em diversos setores da economia, como veículos, imóveis, agronegócio, bens duráveis e serviços, além de consolidar o sistema de consórcios como uma engrenagem importante do crédito no país.
Disciplina financeira em cenário de restrição
Na avaliação de especialistas, o crescimento reflete uma mudança estrutural no comportamento do consumidor brasileiro. Com financiamentos mais caros e menor oferta de crédito, o consórcio passou a ser visto como uma alternativa organizada de aquisição de bens.
“Muita gente tem dificuldade em poupar, e o consórcio surge como uma solução prática de compromisso mensal, que transforma disciplina em conquista. Quem se planeja paga mais barato”, afirma Warley Ferreira, líder comercial de consórcios da Blue3 Investimentos.
Segundo ele, a modalidade atua como um verdadeiro treinamento financeiro, estimulando o hábito de poupar com objetivo definido, evitando compras por impulso e mantendo foco no longo prazo. “Em um país historicamente marcado pelo endividamento caro e pelo consumo imediato, o consórcio se apresenta como uma ferramenta concreta para organizar o orçamento e construir patrimônio de forma previsível”, destaca.
Para Paulo Roberto Rossi, presidente executivo da Abac, o desempenho de 2025 confirma uma tendência que já vinha se desenhando nos últimos anos. “O brasileiro vem aderindo por começar a entender a essência da educação financeira. O crescimento é resultado desse amadurecimento do planejamento das finanças pessoais, incluindo o consórcio como opção para aquisição de bens ou contratação de serviços”, afirma.
Alternativa ao crédito tradicional
Criado nos anos 1960 por funcionários do Banco do Brasil, o consórcio sempre funcionou como alternativa à compra imediata financiada, especialmente em momentos de maior dificuldade econômica. Em 2025, com a taxa Selic em 15%, essa característica voltou a ganhar força.
O principal atrativo da modalidade é a ausência de juros. O consorciado paga apenas uma taxa de administração diluída ao longo do prazo, sem incidência de IOF, o que preserva o poder de compra do crédito. Segundo a Abac, esse modelo explica por que o setor manteve crescimento relativamente independente das oscilações da política monetária ao longo dos anos.
Automóveis lideram demanda
O setor automotivo segue como principal destino dos consórcios. De janeiro a novembro, a modalidade respondeu potencialmente por cerca de um a cada três veículos leves vendidos no país, além de uma em cada três motocicletas comercializadas no mercado interno.
No segmento de veículos pesados, especialmente caminhões, a participação estimada foi de um a cada quatro vendidos, com forte presença no agronegócio por meio de máquinas agrícolas.
Mercado imobiliário amplia participação
No mercado imobiliário, as contemplações via consórcio representaram aproximadamente 24% dos imóveis financiados no período, considerando recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) e da própria modalidade.
O segmento de imóveis registrou crescimento de 36,2% na venda de cotas e avanço de quase 50% nos negócios realizados em 2025. Segundo a Abac, o novo perfil do consorciado ajuda a explicar essa diversificação.
Jovens profissionais, empreendedores e investidores passaram a utilizar o consórcio não apenas para aquisição da casa própria, mas também como estratégia de formação e alavancagem patrimonial, muitas vezes combinando a modalidade com o uso do FGTS para lances, quitação ou complementação de crédito.
Expansão em outros setores
Além de veículos e imóveis, segmentos como eletroeletrônicos, bens duráveis e serviços apresentaram crescimento expressivo, com altas superiores a 100% no volume de negócios em alguns casos. O movimento mostra que o consórcio deixou de ser restrito a grandes aquisições e passou a integrar o planejamento financeiro de diferentes perfis de consumo.
Ao final dos 11 meses de 2025, o sistema acumulou R$ 719 bilhões em ativos administrados, o equivalente a 6,1% do PIB brasileiro de 2024, além de um patrimônio líquido ajustado de R$ 20,9 bilhões, reforçando a solidez e a segurança do setor.
Visão Bolso do Investidor
O crescimento recorde do consórcio em 2025 reflete uma combinação clara entre crédito caro, maior consciência financeira e busca por planejamento. Em um ambiente de juros elevados, o brasileiro passou a priorizar decisões mais estruturadas, substituindo o consumo imediato por estratégias de aquisição baseadas em disciplina e previsibilidade.
Embora o consórcio não seja adequado para quem precisa do bem de forma imediata, ele se consolida como uma ferramenta relevante para quem busca organização financeira, redução de custos e construção patrimonial no médio e longo prazo. O avanço da modalidade indica um amadurecimento do comportamento financeiro das famílias e tende a seguir como alternativa importante enquanto o crédito tradicional permanecer restritivo.
Fontes:
- Infomoney
