Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 22 de dezembro de 2025

Mesmo com os juros reais pagos pelos títulos públicos brasileiros entre os mais altos do mundo, a renda variável continua apresentando oportunidades relevantes para o investidor de longo prazo. Um estudo do Bradesco BBI mostra que dezenas de ações listadas na B3 ainda oferecem potencial de retorno real superior ao das NTN-Bs em um horizonte de dez anos, mesmo em um cenário de juros elevados.
O levantamento ocorre em um momento em que a renda fixa voltou a competir de forma agressiva com a bolsa. Em 2025, os resgates em fundos de ações atingiram o maior patamar desde 2006, reflexo direto das taxas reais próximas de 7% ao ano oferecidas pelos títulos indexados à inflação. Ainda assim, o banco aponta que o prêmio pelo risco da renda variável permanece atrativo em diversas companhias e setores.
Estudo compara ações com NTN-B 2035
O Bradesco BBI analisou 131 ações da B3 acompanhadas pela instituição, estimando o retorno real esperado em um horizonte de dez anos. Para 2026, foram consideradas projeções de preço justo; a partir de 2027, os analistas utilizaram modelos de fluxo de caixa descontado ajustado. Esses retornos foram comparados ao rendimento da NTN-B com vencimento em 2035, utilizada como referência de renda fixa de longo prazo.
O resultado mostrou que 60 ações, o equivalente a 45% da amostra, apresentam potencial de retorno real superior ao da NTN-B no período analisado. Os setores com maior destaque nas projeções foram Educação e Agronegócio, além de segmentos como varejo alimentar e têxtil. Segundo o banco, esse número tende a aumentar caso os juros reais recuem nos próximos anos, cenário considerado provável.
Ajuste pelo risco reduz universo, mas mantém oportunidades
Quando as projeções são ajustadas pela volatilidade histórica dos ativos, o número de ações que superam a renda fixa diminui para 31. Ainda assim, Educação e Agronegócio permanecem liderando, com retornos reais ajustados estimados em 7,7% e 7,5% ao ano, respectivamente.
Os analistas ressaltam que as NTN-Bs estão próximas de máximas históricas em termos de juros reais, uma situação que dificilmente se sustenta no longo prazo. Com o início esperado do ciclo de queda da Selic a partir de 2026, a atratividade relativa das ações tende a aumentar.
Large Caps se destacam frente às Small Caps
O estudo também separou as ações em dois grupos. O primeiro reúne empresas com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão, chamadas de Large Caps, que apresentaram desempenho significativamente superior ao Ibovespa em 2025. O segundo grupo é composto por Small Caps, com capitalização inferior a esse patamar, que ficaram abaixo do índice de small caps no acumulado do ano.
A diferença de desempenho entre os dois grupos chegou a cerca de 30 pontos percentuais em 2025, mostrando que, em ambientes de maior incerteza e juros elevados, empresas maiores e mais consolidadas tendem a capturar melhor o prêmio pelo risco.
Expectativa de melhora com queda dos juros
Na avaliação do Bradesco BBI, o cenário para a bolsa brasileira pode se tornar ainda mais favorável no primeiro semestre de 2026. A expectativa de início do ciclo de corte de juros, aliada à discussão de reformas fiscais e ao calendário eleitoral, pode estimular o retorno do investidor local à renda variável.
O banco lembra que as taxas de juros influenciam as ações de três formas: elevam o retorno mínimo exigido pelo investidor, impactam diretamente o custo de capital das empresas e, historicamente, mostram que a direção dos juros é tão importante quanto o seu nível. Com juros reais projetados em 5%, o BBI estima um potencial de valorização de cerca de 20% para o Ibovespa.
Ações com maior potencial de retorno real em dez anos
Large Caps com retorno acima da NTN-B (seleção):
| Ação | Código | Retorno real (%) | Retorno ajustado (%) |
| Banco do Brasil | BBAS3 | 15,2 | 11,7 |
| Energisa | ENGI11 | 21,7 | 15,9 |
| XP Inc | XP | 30,9 | 16,4 |
| Gerdau | GGBR4 | 7,9 | 6,8 |
| SLC Agrícola | SLCE3 | 9,1 | 7,4 |
Small Caps com retorno acima da NTN-B (seleção):
| Ação | Código | Retorno real (%) | Retorno ajustado (%) |
| Yduqs | YDUQ3 | 12,9 | 9,9 |
| São Martinho | SMTO3 | 16,7 | 10,2 |
| Jalles Machado | JALL3 | 17,9 | 10,3 |
| Mitre Realty | MTRE3 | 23,9 | 16,1 |
Fonte: Bradesco BBI
Visão Bolso do Investidor
O estudo reforça uma mensagem central para o investidor: juros altos não eliminam oportunidades na renda variável, mas tornam a seleção de ativos ainda mais importante. Em momentos de taxas reais elevadas, a bolsa exige mais disciplina, horizonte de longo prazo e compreensão do risco envolvido.
A comparação direta entre ações e NTN-Bs ajuda a lembrar que renda fixa e renda variável não são inimigas, mas complementares. Enquanto os títulos públicos oferecem previsibilidade e proteção, as ações continuam sendo o principal motor de geração de riqueza no longo prazo, especialmente quando o ciclo de juros começa a se inverter.
Para o investidor pessoa física, o recado é claro: não se trata de escolher “tudo ou nada”, mas de construir uma carteira equilibrada, capaz de atravessar diferentes cenários econômicos sem abrir mão do crescimento patrimonial ao longo do tempo.
Fontes:
- InfoMoney
