Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 24 de dezembro de 2025

A busca por renda recorrente é um dos principais objetivos de investidores que desejam complementar o orçamento ou acelerar a construção de patrimônio. No mercado brasileiro, os dividendos distribuídos por empresas listadas em bolsa sempre ocuparam papel relevante nessa estratégia. Mas, afinal, é possível montar uma carteira de ações capaz de gerar rendimentos mensais, combinando renda variável com previsibilidade de caixa?
Um levantamento realizado por Einar Rivero, sócio fundador da consultoria Elos Ayta, a pedido do InfoMoney, mostra que sim — embora com ressalvas. O estudo identificou nove ações que pagaram dividendos ou juros sobre capital próprio todos os meses, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025.
Empresas que pagaram dividendos mensalmente
A amostra é formada majoritariamente por bancos, setor que tradicionalmente utiliza o pagamento recorrente como forma de atrair e fidelizar acionistas. Também aparecem empresas dos setores imobiliário e de calçados.
Confira a lista:
| Ação | Código | Setor | Dividend Yield (%) |
| Alos ON | ALOS3 | Imóveis | 7,17 |
| Banestes ON | BEES3 | Bancos | 4,76 |
| Banestes PN | BEES4 | Bancos | 4,72 |
| Bradesco ON | BBDC3 | Bancos | 10,98 |
| Bradesco PN | BBDC4 | Bancos | 10,64 |
| Itaú Unibanco ON | ITUB3 | Bancos | 10,13 |
| Itaú Unibanco PN | ITUB4 | Bancos | 8,86 |
| Mitre ON | MTRE3 | Incorporações | 14,50 |
| Vulcabrás ON | VULC3 | Calçados | 30,15 |
Fonte: Elos Ayta – empresas que pagaram dividendos todos os meses entre dezembro de 2024 e novembro de 2025.
Apesar dos números chamarem atenção, especialistas alertam que receber dividendos mensalmente não é simples e exige planejamento.
Por que dividendos mensais são raros?
Segundo Rodrigo Santoro, head de ações da Bradesco Asset Management, a maioria das empresas brasileiras paga dividendos de forma trimestral ou semestral, concentrando os maiores valores após a divulgação do balanço anual, geralmente no início do ano.
“São poucas as companhias que conseguem manter pagamentos mensais relevantes e recorrentes. Nos bancos, por exemplo, os valores mensais tendem a ser pequenos ao longo do ano e aumentam após o fechamento do resultado anual”, explica Santoro.
Por isso, montar uma renda mensal direta apenas com dividendos exige uma carteira bem diversificada, com empresas que pagam em datas diferentes. Ainda assim, o especialista destaca que pensar em renda mês a mês pode ser um erro estratégico.
“O ideal é receber os dividendos, aplicar esse valor em renda fixa de curto prazo e ir utilizando ao longo do tempo”, afirma.
Dividend yield médio e efeito dos juros
Atualmente, o dividend yield médio do mercado brasileiro gira em torno de 6% ao ano, segundo Santoro. Para 2026, a expectativa é de um retorno médio próximo de 6,5%, após um ano atípico em 2025, quando várias empresas anteciparam distribuições.
Essa antecipação ocorreu como reação à nova regra de tributação de dividendos, que passará a cobrar 10% de imposto sobre valores mensais acima de R$ 50 mil, válida a partir de 2026.
Em 2025, muitas companhias ampliaram os pagamentos utilizando lucros retidos e reservas, buscando antecipar distribuições ainda isentas. A XP Investimentos estima que os valores adicionais anunciados no fim deste ano possam variar entre R$ 42 bilhões e R$ 85 bilhões.
Perfil das boas pagadoras de dividendos
Analistas destacam que empresas que distribuem dividendos de forma consistente tendem a apresentar características semelhantes:
- Negócios maduros
- Boa geração de caixa
- Menor nível de endividamento
- Baixa necessidade de reinvestimentos
Segundo Bruna Sene, analista de Renda Variável da Rico Investimentos, esse perfil reduz o risco de surpresas negativas na carteira.
“Além da renda, existe o efeito dos juros compostos quando o investidor reinveste os dividendos. Ao longo do tempo, isso pode ser extremamente relevante”, explica.
Ela também ressalta que o retorno total do investimento combina dividendos e valorização da ação. Em um cenário de queda de juros, como o mercado começa a precificar, empresas de qualidade e boas pagadoras tendem a se beneficiar tanto pelo fluxo de capital quanto pela reprecificação dos papéis.
Ainda assim, Bruna lembra que dividendos não são garantia:
“Não existe ‘cupom fixo’ em ações. O pagamento pode variar conforme o desempenho da empresa.”
Atenção à nova tributação
A nova regra de tributação prevê imposto apenas sobre dividendos que excedam R$ 50 mil por mês, com retenção na fonte até a declaração anual. Caso o investidor já tenha pago imposto superior a 10% no ano, não haverá cobrança adicional.
Ficam fora dessa conta investimentos isentos, como LCI, LCA, CRIs, CRAs e fundos imobiliários.
Fundos imobiliários como alternativa mensal
Os fundos imobiliários (FIIs) seguem como uma das alternativas mais conhecidas para quem busca renda mensal. Segundo Marcos Baroni, head de Fundos Imobiliários da Suno Research, o dividend yield médio dos fundos do IFIX varia entre 10% e 12% ao ano, o que equivale a um pagamento mensal entre 0,8% e 1,0%.
Baroni destaca que:
- Fundos de “tijolo” apresentam yield próximo de 9% ao ano
- Fundos de CRIs podem alcançar cerca de 12% ao ano
Além disso, o investidor deve considerar o retorno total, que inclui a valorização ou desvalorização das cotas ao longo do tempo.
Visão Bolso do Investidor
Buscar dividendos mensais é uma estratégia válida, mas exige realismo. No mercado de ações, a previsibilidade absoluta não existe. O caminho mais eficiente passa por diversificação, planejamento de fluxo de caixa e foco no retorno total — não apenas na frequência do pagamento. Combinar ações, renda fixa de curto prazo e fundos imobiliários tende a ser uma abordagem mais equilibrada para quem busca renda recorrente sem abrir mão de crescimento patrimonial.
Fontes:
- InfoMoney
