Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 26 de dezembro de 2025

O endividamento das famílias brasileiras voltou a subir e atingiu 49,3% da renda em outubro, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira (26). O número reflete um cenário de crédito cada vez mais amplo, porém mais caro, em um ambiente de juros elevados, renda pressionada e forte expansão do crédito consignado privado.
Ao mesmo tempo em que o estoque total de crédito no país alcançou o patamar recorde de R$ 7 trilhões, o custo do dinheiro para o consumidor subiu de forma relevante. A taxa média de juros para pessoas físicas chegou a 59,4% ao ano, o nível mais alto desde 2017, reforçando o desafio para famílias que recorrem ao crédito para equilibrar o orçamento.
Crédito cresce, mas com custo elevado
Segundo o especialista em crédito e riscos Jorge Azevedo, o avanço do endividamento não é, por si só, um problema estrutural, desde que o crédito seja direcionado de forma produtiva. Ele destaca que a relação entre crédito e PIB no Brasil ainda está distante de economias mais maduras.
“Essa relação tende a aumentar. No Brasil, estamos próximos de 60%, enquanto em países como os Estados Unidos chega a 180%. O problema não é o crédito em si, mas o uso de crédito ruim, que não gera renda”, afirma.
Azevedo ressalta que o financiamento voltado à geração de renda, como a compra de um veículo para trabalho, pode ser saudável. Já o endividamento voltado ao consumo corrente, em um cenário de juros altos, aumenta o risco de inadimplência.
Consignado privado dispara com novas regras
O principal motor dessa expansão recente é o crédito consignado para trabalhadores do setor privado, incluindo empregados com carteira assinada (CLT), microempreendedores individuais (MEIs) e trabalhadores de aplicativo, impulsionado pelo programa Crédito do Trabalhador, lançado em março deste ano.
Um levantamento do Banco Daycoval mostra que o volume mensal dessas concessões saltou 257% em 2025. Antes do programa, a média mensal de crédito liberado girava em torno de R$ 1,6 bilhão. Atualmente, esse valor supera R$ 6 bilhões por mês.
No entanto, a facilidade veio acompanhada de um custo cada vez maior. Em apenas 12 meses, os juros dessa modalidade subiram 18%. Em novembro de 2024, a taxa média era de 39,1% ao ano. Após a reformulação do programa, chegou a 44%, e a projeção do Banco Central indica que os juros do consignado privado devem atingir 57,1% em novembro de 2025.
“Em um ambiente de juros elevados e salários que não acompanham a inflação, a tendência é de aumento da inadimplência”, alerta Azevedo.
Juros altos travam consumo, mas 2026 traz estímulo pontual
O cenário para 2026 aponta para um verdadeiro cabo de guerra econômico. De um lado, a expectativa do mercado é de que a Selic permaneça em 15% ao ano até pelo menos março, o que tende a manter o consumo contido no início do ano.
De outro, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que entra em vigor em janeiro, deve gerar um choque positivo de renda para parte das famílias.
Segundo estudo do Banco Daycoval, os beneficiados pela isenção tendem a direcionar seus recursos principalmente para:
- Crédito habitacional (26%)
- Crédito consignado (24%)
- Cartão de crédito (19%)
Para o economista Antonio Ricciardi, do Daycoval, a maior parte desse ganho de renda não deve ser usada para reduzir dívidas.
“A tendência é que esse dinheiro seja direcionado ao consumo. Com o novo consignado, o aumento de renda deve impulsionar ainda mais essa modalidade, já que a base salarial terá crescido”, avalia.
Visão Bolso do Investidor
O avanço do endividamento em um cenário de juros historicamente elevados acende um alerta importante para o planejamento financeiro das famílias. Embora a ampliação do acesso ao crédito possa sustentar o consumo no curto prazo, ela aumenta a fragilidade financeira quando não vem acompanhada de crescimento real da renda.
Para o investidor e para o cidadão comum, o momento exige cautela: juros altos tornam o crédito caro, reduzem a margem de erro e ampliam o risco de inadimplência. Em 2026, o alívio tributário pode ajudar no orçamento, mas não substitui a necessidade de organização financeira, uso consciente do crédito e construção de reservas.
Mais do que nunca, entender o custo do dinheiro e diferenciar crédito produtivo de crédito de sobrevivência será decisivo para atravessar um ciclo econômico ainda marcado por incertezas.
Fontes:
- InfoMoney
