Fitch rebaixa nota da Braskem e eleva risco de reestruturação da dívida em 2026

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 30 de dezembro de 2025

A Fitch Ratings rebaixou os ratings de crédito da Braskem diante das incertezas sobre a capacidade da companhia de honrar compromissos financeiros relevantes nos próximos meses, especialmente os pagamentos de juros previstos para janeiro de 2026. Segundo a agência, o cenário atual aumenta de forma significativa a probabilidade de uma reestruturação da dívida no curto prazo.

A classificação de inadimplência do emissor (IDR) de longo prazo, tanto em moeda local quanto em moeda estrangeira, foi reduzida de ‘CCC+’ para ‘CC’, refletindo um risco elevado de default. O rebaixamento também atingiu títulos emitidos por subsidiárias financeiras da companhia no exterior.

No caso da Braskem America Finance Company, o rating sênior sem garantia caiu de ‘CCC+’/’RR4’ para ‘CC’, mantendo o nível de recuperação estimado em ‘RR4’. Já os títulos da Braskem Netherlands Finance B.V. tiveram classificação reduzida de **‘CCC+’/’RR4’ para ‘CC’/’RR4’. Além disso, ratings subordinados, de escala nacional e outros instrumentos sêniores sem garantia também sofreram revisões negativas.

Concentração de pagamentos pressiona liquidez

Um dos principais fatores apontados pela Fitch é a forte concentração de pagamentos de cupons prevista para janeiro de 2026. De acordo com a agência, a Braskem enfrenta obrigações que somam aproximadamente US$ 130 milhões apenas nesse mês.

Esses compromissos incluem os cupons de títulos com diferentes vencimentos: papéis de 2028, com pagamento marcado para 10 de janeiro; notas de 2031, com vencimento em 12 de janeiro; títulos perpétuos de 2081, com pagamento em 23 de janeiro; além dos cupons das notas com vencimento em 2030 e 2050, ambos previstos para o dia 31 de janeiro.

Para a Fitch, essa concentração eleva de forma material o risco de inadimplência no curto prazo, sobretudo diante da visibilidade limitada sobre a estratégia financeira da companhia para lidar com esses desembolsos.

Caixa elevado, mas dependência de crédito preocupa

Apesar de a Braskem ter informado uma posição de caixa de US$ 1,3 bilhão em setembro de 2025, a agência destaca que a empresa utilizou integralmente, em outubro, sua linha de crédito standby no valor de US$ 1,0 bilhão. Esse movimento reforça, na avaliação da Fitch, a dependência da companhia em relação à liquidez do balanço e às linhas bancárias disponíveis.

Segundo a agência, essa dinâmica indica flexibilidade financeira reduzida, especialmente em um contexto de elevado risco operacional e recuperação ainda incerta do fluxo de caixa. A combinação entre alta alavancagem, pressão sobre margens e necessidade constante de financiamento externo limita a capacidade da empresa de atravessar períodos de estresse sem recorrer a medidas extraordinárias.

“A concentração dos pagamentos de cupom aumenta materialmente o risco de inadimplência no curto prazo, e a Fitch tem visibilidade limitada sobre a capacidade e a disposição da Braskem de cumprir integralmente e pontualmente suas obrigações futuras, na ausência de um plano de financiamento crível e executável”, afirmou à agência em comunicado.

Pressão estrutural no setor petroquímico

Outro ponto de atenção destacado pela Fitch é o ambiente desafiador para o setor petroquímico. A agência ressalta que os spreads petroquímicos seguem pressionados, o que compromete a geração de caixa operacional da Braskem e dificulta uma recuperação mais robusta dos resultados.

Nesse cenário, a Fitch avalia que a empresa precisa manter acesso contínuo a financiamento, seja por meio do sistema bancário ou dos mercados de capitais, para evitar uma reestruturação mais profunda da dívida. A perda desse acesso poderia acelerar eventos de crédito adversos.

A agência também observa que a contratação recente de consultores financeiros pode ser interpretada como um sinal de que a companhia estuda alternativas relacionadas à sua estrutura de capital. Essas medidas podem incluir renegociação de dívidas ou outras ações que, dependendo do formato, podem ser desfavoráveis aos detentores de títulos.

Incertezas sobre controle e governança

Por fim, a Fitch afirmou que continuará monitorando a estrutura de governança, o financiamento e o controle acionário da Braskem caso avance a proposta de aquisição das ações da empresa por um fundo assessorado pela IG4 Capital.

Segundo a agência, eventuais mudanças no controle ou na estratégia financeira da companhia poderão ter impacto relevante sobre o perfil de crédito e sobre futuras decisões de rating.


Visão Bolso do Investidor

O rebaixamento da Braskem para a faixa “CC” coloca a companhia em um patamar de risco elevado, no qual o mercado passa a precificar não apenas dificuldades operacionais, mas também a possibilidade concreta de renegociação de dívidas. Para o investidor, o caso reforça a importância de avaliar não apenas o tamanho do caixa divulgado, mas também a qualidade da liquidez, o cronograma de vencimentos e a dependência de crédito externo. Em setores cíclicos e pressionados, como o petroquímico, a gestão do endividamento se torna tão relevante quanto a eficiência operacional.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Reuters