Gestor abandona clientes, passa a operar com capital próprio e acumula retorno próximo de 8.000%

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 07 de janeiro de 2026

Desde que decidiu abandonar a gestão de recursos de terceiros e passar a operar exclusivamente com o próprio capital, há cerca de uma década, Michael Platt transformou uma série de apostas altamente alavancadas em uma das histórias mais expressivas da indústria global de hedge funds. A estratégia adotada o levou a figurar entre os bilionários mais ricos do setor.

A BlueCrest Capital Management, gestora privada de Platt, registrou ganho de 73% em 2025, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto, que pediu anonimato por se tratar de informações não públicas. Parte relevante desses resultados foi obtida nos primeiros meses do ano, período marcado por forte turbulência nos mercados após anúncios de tarifas feitos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Com esse desempenho, os retornos acumulados da BlueCrest desde 2016 alcançaram uma estimativa de 7.858%, conforme cálculo baseado em dados divulgados pela Bloomberg sobre os retornos anuais da gestora. A estimativa considera juros compostos e parte da premissa de que nenhum capital foi retirado da empresa ao longo do período.

O volume exato de capital investido pela BlueCrest para Platt e seus sócios não é divulgado publicamente. Um documento judicial de 2022, no entanto, descreveu a empresa como responsável por aproximadamente US$ 3,9 bilhões em capital próprio, alavancados para gerar cerca de US$ 15 bilhões em poder de negociação. Diferentemente dos hedge funds tradicionais, que calculam retornos sobre o total de ativos sob gestão, os ganhos da BlueCrest são medidos sobre o capital efetivamente investido e já consideram taxas e despesas.

O histórico da gestora oferece um exemplo raro de como fundos podem se comportar quando eliminam as restrições impostas por capital externo. No caso de Platt, a devolução de cerca de US$ 7 bilhões a clientes permitiu o uso intensivo do balanço, a manutenção de posições concentradas em momentos de volatilidade e a eliminação das pressões de curto prazo relacionadas a resgates e obrigações de divulgação.

A construção de uma trajetória fora do padrão

A fortuna pessoal de Platt, estimada em US$ 12,8 bilhões pelo Bloomberg Billionaires Index antes da divulgação dos resultados mais recentes, cresceu rapidamente após sucessivos retornos de dois dígitos, incluindo um ganho de 153% em 2022. Nos anos anteriores à mudança para a gestão de capital próprio, diversos fundos da BlueCrest haviam registrado prejuízos ou desempenhos modestos.

Segundo Bruno Schneller, sócio-gestor do multifamily office Erlen Capital Management, a ausência de restrições impostas por investidores externos foi determinante. De acordo com ele, livre de limites de liquidez, alavancagem e controle de drawdown exigidos por clientes, a BlueCrest conseguiu explorar distorções macroeconômicas com um nível de tamanho e paciência que poucas instituições toleram. Para Schneller, a experiência mostra que retornos elevados em estratégias macro costumam surgir em ambientes de governança interna rigorosa, mas sem prestação de contas direta a clientes.

Embora a estratégia exata de negociação da BlueCrest seja conhecida apenas por um grupo restrito de executivos, a gestora é reconhecida por sua atuação em juros e mercados emergentes, além de tentativas de expansão para o segmento de commodities. Assim como grandes hedge funds multiestratégia, a empresa distribui capital entre diferentes equipes de traders, mantendo controles rígidos de risco e baixa tolerância a perdas.

A BlueCrest opera a partir de Londres, Nova York e Cingapura, e recentemente obteve autorização regulatória completa para atuar em Dubai.

Origem e transformação da BlueCrest

Filho de uma professora e de um administrador universitário, Platt ingressou no mercado de hedge funds no ano 2000, quando fundou a BlueCrest ao lado do também trader William Reeves. Antes disso, passou quase uma década no JPMorgan, onde iniciou a carreira negociando swaps de juros na mesa de derivativos e chegou ao cargo de diretor de operações proprietárias.

Sob sua liderança, a BlueCrest se tornou um dos maiores hedge funds da Europa, alcançando mais de US$ 37 bilhões sob gestão em seu pico. Ao longo de 15 anos administrando recursos de clientes, a empresa gerou mais de US$ 22 bilhões em lucros de trading, posicionando-se entre os hedge funds mais bem-sucedidos do mundo em termos de lucro acumulado desde o lançamento.

Entretanto, alguns anos de retornos medianos levaram a resgates de investidores e ampliaram preocupações sobre um fundo interno voltado a funcionários, visto por alguns como potencial conflito de interesses. Em dezembro de 2015, a gestora anunciou que devolveria praticamente todo o capital de clientes, cerca de US$ 7 bilhões dos US$ 8 bilhões sob gestão à época, e passaria a operar com altos níveis de alavancagem utilizando apenas capital próprio.

Visão Bolso do Investidor

A trajetória da BlueCrest sob gestão exclusiva de capital próprio ilustra como restrições de liquidez, governança externa e pressão por resultados de curto prazo influenciam o desempenho de fundos de investimento. Para investidores, o caso reforça a diferença estrutural entre estratégias proprietárias e fundos abertos ao público, além de evidenciar os riscos e oportunidades associados ao uso intenso de alavancagem. Embora resultados como os de Platt sejam raros, eles ajudam a compreender os limites, e as possibilidades, da gestão ativa em mercados altamente voláteis.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Bloomberg