Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 18 de janeiro de 2026

Mesmo após deixar o cargo de CEO da Berkshire Hathaway no fim de 2025, Warren Buffett segue como uma das vozes mais influentes do capitalismo global. Aos 95 anos, o investidor participou do especial “Warren Buffett: A Life and Legacy”, exibido pela CNBC, no qual abordou temas que vão desde sucessão corporativa e governança até experiências pessoais que moldaram sua visão sobre risco, disciplina e tomada de decisão.
Ao longo da entrevista, Buffett falou de forma direta e reflexiva sobre o futuro da Berkshire Hathaway, o papel de seu sucessor, os limites da previsibilidade econômica e as armadilhas psicológicas que afetam investidores, temas recorrentes em sua trajetória, mas revisitados agora sob a ótica de quem encerrou um dos ciclos mais longos da história corporativa moderna.
Sucessão tratada como decisão empresarial, não política
Buffett voltou a destacar que a sucessão na Berkshire nunca foi encarada como um processo político ou simbólico, mas como uma decisão objetiva de negócios. Segundo ele, a escolha de Greg Abel como novo CEO foi natural e rápida, fruto de anos de observação e convivência profissional.
Na entrevista, o investidor reforçou que identificar líderes capazes não depende de currículos sofisticados ou modelos acadêmicos complexos. Para Buffett, o que realmente importa é caráter, entendimento prático do negócio, capacidade de alocação de capital e habilidade de tomar decisões racionais sob pressão. Ele afirmou que essas qualidades sempre estiveram presentes em Abel e que o consenso no conselho de administração foi praticamente imediato.
O investidor também reiterou que a Berkshire foi construída para funcionar sem depender de uma figura central, destacando que estruturas descentralizadas, autonomia operacional e alinhamento de incentivos sempre fizeram parte do DNA da companhia.
O futuro da Berkshire em um mundo que muda constantemente
Ao falar sobre o futuro da Berkshire Hathaway, Buffett adotou um tom realista, mas otimista. Ele reconheceu que, ao longo das próximas décadas, parte das empresas atualmente no portfólio podem desaparecer, não por erros estratégicos, mas por mudanças profundas na economia, na tecnologia e nos hábitos de consumo.
Ainda assim, Buffett afirmou que esse processo é natural e não representa uma ameaça existencial à Berkshire. Pelo contrário: novas empresas, setores e oportunidades surgirão, e a holding continuará a se adaptar à medida que a economia americana evoluir. Segundo ele, a flexibilidade do modelo da Berkshire, com grande liquidez, baixo endividamento e liberdade para investir em diferentes setores, permite que a empresa acompanhe o país “para onde quer que ele vá”.
Essa visão reforça um dos princípios centrais da filosofia de Buffett: empresas duráveis não são aquelas que evitam mudanças, mas as que conseguem atravessá-las com disciplina e paciência.
Conselhos corporativos e uma crítica velada à governança moderna
Um dos trechos mais comentados da entrevista foi quando Buffett descreveu a atuação em conselhos de administração como “o melhor emprego do mundo”. De forma irônica, ele destacou que diretores frequentemente recebem remunerações elevadas para funções que, na prática, envolvem pouco risco pessoal e baixo esforço operacional cotidiano.
Buffett mencionou ambientes sempre cordiais, alto grau de deferência, transporte executivo e pouca pressão real sobre conselheiros. Embora o tom tenha sido leve, o comentário carrega uma crítica implícita às distorções da governança corporativa moderna, especialmente quando a remuneração não está claramente alinhada à responsabilidade efetiva.
A observação dialoga com debates recorrentes no mercado sobre accountability, independência dos conselhos e incentivos mal calibrados em grandes corporações.
A lição das corridas de cavalo e o entendimento sobre risco
Buffett também resgatou episódios da adolescência que ajudaram a moldar sua visão sobre risco e comportamento humano. Ele relembrou a época em que frequentava corridas de cavalo acreditando que poderia desenvolver uma estratégia vencedora.
A experiência, porém, terminou rapidamente em perdas financeiras e em uma constatação que se tornaria central em sua filosofia: “Você pode ganhar uma corrida, mas não pode ganhar as corridas”. Ao tentar recuperar prejuízos apostando mais, Buffett vivenciou o erro clássico de escalada emocional, comum tanto em jogos quanto em investimentos.
Esse aprendizado o levou a evitar situações em que as probabilidades são estruturalmente desfavoráveis ao investidor, um princípio que explica sua aversão à especulação, alavancagem excessiva e apostas baseadas em previsões de curto prazo.
Por que Buffett se afastou do debate político
Outro ponto relevante da entrevista foi o distanciamento deliberado de Buffett do debate político. Ele explicou que, em um ambiente cada vez mais polarizado, declarações públicas de figuras conhecidas tendem a gerar reações desproporcionais, muitas vezes direcionadas a pessoas que não têm qualquer relação com essas opiniões.
Buffett citou o risco de funcionários de empresas do grupo, como seguradoras e varejistas, sofrerem hostilidade de clientes por posições políticas que ele, pessoalmente, expressasse. Além disso, destacou que sua imagem sempre esteve fortemente associada à Berkshire, o que poderia fazer com que opiniões individuais fossem interpretadas como posicionamento institucional.
Segundo Buffett, preservar os funcionários e as empresas desse tipo de exposição passou a ser mais importante do que participar do debate público.
Visão Bolso do Investidor
A entrevista deixa claro que o maior legado de Warren Buffett não está apenas nos retornos extraordinários entregues pela Berkshire, mas na forma como ele enxerga negócios, risco e comportamento humano. Sucessão planejada, foco em longevidade, aversão a jogos de probabilidades desfavoráveis e respeito aos limites da previsibilidade econômica são lições especialmente relevantes em um mercado cada vez mais guiado por narrativas de curto prazo. Para o investidor, a mensagem é clara: disciplina e estrutura vencem brilho momentâneo.
Fontes:
- Infomoney
