Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 19 de janeiro de 2026

Poucas marcas carregam uma ligação tão profunda com o automobilismo quanto a Ford. Após mais de duas décadas fora da principal categoria do esporte a motor, a montadora americana confirmou seu retorno à Fórmula 1, movimento que vai além de uma decisão comercial e assume contornos históricos, estratégicos e até familiares.
Fundada em 1903, a Ford nasceu diretamente ligada às corridas. Antes mesmo de criar a empresa que se tornaria uma das mais icônicas do mundo, Henry Ford venceu uma prova automobilística com o carro “Sweepstakes”, dois anos antes. O prêmio em dinheiro, somado à visibilidade e ao interesse de investidores, foi decisivo para a criação da montadora. Mais de um século depois, a relação entre a Ford e as pistas segue como uma constante.
Apesar de ser a terceira fabricante de motores mais vitoriosa da história da Fórmula 1 — com 176 triunfos em grandes prêmios, atrás apenas de Ferrari e Mercedes — a empresa está ausente do grid desde 2004. Naquele ano, fornecia motores à Jaguar Racing, equipe que foi posteriormente adquirida pela Red Bull Racing.
Agora, a Ford retorna justamente ao lado da Red Bull, em uma parceria voltada ao novo regulamento técnico da Fórmula 1, que entra em vigor em 2026. A colaboração envolve o desenvolvimento conjunto de motores híbridos, adaptados a uma categoria que passará a priorizar maior eficiência energética, uso ampliado de eletricidade e combustíveis sustentáveis.
Para Will Ford, gerente-geral da Ford Performance, o retorno à F1 carrega uma identidade distinta das demais montadoras do grid. Segundo ele, enquanto muitas marcas presentes na categoria são associadas ao luxo, a Ford mantém um posicionamento diferente. “Somos uma marca americana icônica, mas também a marca do homem comum”, afirmou.
Esse posicionamento encontra respaldo em pesquisas de percepção de marca. Em levantamento recente da revista Time, realizado com cerca de 10 mil pessoas para identificar as empresas mais icônicas dos Estados Unidos, a Ford ficou em primeiro lugar, superando nomes como Nike, Apple e Walt Disney.
A identificação com o público, segundo Will Ford, foi um fator decisivo na escolha da Red Bull como parceira. Ele destacou o perfil desafiador da equipe austríaca, alinhado à cultura da montadora americana e ao espírito competitivo que marcou sua trajetória histórica.
A estreia da Ford na Fórmula 1 ocorreu em 1967, também como fornecedora de motores. Na ocasião, a empresa desenvolveu, em parceria com a Cosworth, um propulsor revolucionário com dupla árvore de comando e quatro válvulas por cilindro. Esse motor se tornaria um dos mais bem-sucedidos da história da categoria, acumulando 155 vitórias, 12 títulos de pilotos e 10 campeonatos de construtores entre 1967 e 1983.
Mesmo após o auge desse ciclo, a Ford seguiu presente na Fórmula 1 por anos. O motor que levou Michael Schumacher ao seu primeiro título mundial, em 1994, era um Ford. No entanto, a partir da segunda metade dos anos 1990, os resultados começaram a diminuir. A última vitória de um carro equipado com motor Ford aconteceu em abril de 2003, quando Giancarlo Fisichella venceu o Grande Prêmio do Brasil pela Jordan.
O retorno da empresa ocorre em um contexto de profunda transformação técnica da Fórmula 1. A partir de 2026, os carros serão menores, mais leves e significativamente mais eletrificados. Os novos motores híbridos terão maior participação elétrica e utilizarão combustíveis sustentáveis, alinhando-se às tendências da indústria automotiva global.
Esse cenário despertou o interesse da Ford não apenas pelo marketing esportivo, mas pela possibilidade de transferência direta de tecnologia para seus veículos de produção. Will Ford destacou que, embora a empresa siga comprometida com motores V8 de alto desempenho, a evolução da tecnologia híbrida permite oferecer soluções igualmente potentes, sem comprometer performance.
Segundo ele, a Fórmula 1 representa o ambiente mais extremo possível para testar e desenvolver sistemas híbridos de alta performance. “Tudo o que aprendermos nessa parceria com a Red Bull acabará chegando aos nossos carros de rua”, afirmou.
Essa visão é compartilhada por Bill Ford, presidente do conselho da companhia, bisneto de Henry Ford e pai de Will. Para ele, áreas como motores e aerodinâmica concentram grande potencial de aprendizado. Bill ressaltou que, em todas as categorias em que a Ford compete — do off-road ao stock car — sempre há lições que retornam ao consumidor final, ainda que nem todas sejam diretamente transferíveis entre modalidades.
A aliança entre Ford e Red Bull, no entanto, tem sido observada de perto pelo mercado. A equipe austríaca passará a produzir internamente seus motores, que equiparão tanto a Red Bull Racing quanto a Racing Bulls a partir de 2026. Paralelamente, a entrada da Cadillac, marca da General Motors, na Fórmula 1 reacende uma rivalidade histórica entre montadoras americanas, agora também nas pistas.
Dan Towriss, CEO da futura equipe Cadillac de F1, chegou a classificar a parceria Ford–Red Bull como um acordo de marketing de impacto limitado. A resposta da Ford foi direta. Bill Ford afirmou que, ao contrário, o envolvimento técnico é profundo, destacando que a Cadillac, até o momento, corre com motores Ferrari e não possui um propulsor próprio na categoria.
O compromisso da Ford com o projeto vai além da exposição de marca. Engenheiros da montadora atuam diretamente no campus de desenvolvimento de motores da Red Bull, em Milton Keynes, no Reino Unido, enquanto equipes nos Estados Unidos oferecem suporte técnico adicional. A empresa participa do desenvolvimento de softwares, ferramentas de engenharia e processos de fabricação, incluindo o uso intensivo de impressão 3D para acelerar a produção de componentes durante a fase de testes.
Visão Bolso do Investidor
O retorno da Ford à Fórmula 1 ilustra como grandes corporações utilizam o esporte como plataforma estratégica de inovação, posicionamento de marca e desenvolvimento tecnológico. Mais do que marketing, a F1 se consolida como um laboratório de alta performance para soluções que, no médio e longo prazo, impactam diretamente produtos, margens e competitividade industrial. Para investidores, movimentos como esse reforçam a importância de observar o automobilismo não apenas como espetáculo, mas como parte do ecossistema global de pesquisa, desenvolvimento e transição tecnológica.
Fontes:
- Infomoney
- The New York Times
