Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 20 de janeiro de 2026

As stablecoins — criptoativos atrelados a moedas fiduciárias, como o dólar — deixaram de ser um nicho especulativo dentro do mercado cripto e passaram a ocupar um papel central na infraestrutura financeira global. Essa é a principal conclusão de um estudo recente publicado pela TRM Labs.
De acordo com o levantamento, esses ativos movimentaram cerca de US$ 4 trilhões entre janeiro e julho de 2025, um crescimento de 83% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume já representa aproximadamente 30% de toda a atividade on-chain global, evidenciando que o uso das stablecoins extrapolou o universo de investimentos e passou a atender demandas operacionais da economia real.
Nesse cenário, o Brasil desponta como um dos principais protagonistas. O país passou a integrar o top 5 global de adoção de stablecoins, ao lado de mercados como Índia, Estados Unidos, Paquistão e Filipinas, combinando economias desenvolvidas e emergentes que enfrentam desafios distintos, mas convergentes na busca por eficiência financeira.
Da especulação ao uso cotidiano
Diferentemente de ciclos anteriores, impulsionados sobretudo pela especulação em torno do Bitcoin e de outros criptoativos voláteis, o crescimento atual das stablecoins é sustentado por casos de uso práticos. Pagamentos internacionais, remessas, proteção contra inflação e acesso a moedas fortes estão no centro dessa nova onda de adoção.
Segundo Caio Barbosa, fundador e co-CEO da Lumx, empresa brasileira especializada em infraestrutura blockchain, o aspecto mais relevante do movimento não está apenas no volume financeiro, mas no motivo pelo qual esses ativos estão sendo utilizados. Para ele, a adoção reflete uma demanda concreta por soluções eficientes de pagamento, preservação de valor e acesso a dólares, especialmente em mercados emergentes.
O relatório aponta que a adoção liderada pelo varejo cresceu 125%, indicando que o uso das stablecoins se espalhou entre pessoas físicas, pequenas empresas e plataformas digitais. Mesmo em países com controles cambiais rígidos ou restrições formais ao uso de criptoativos, a população tem recorrido a essas soluções para driblar ineficiências do sistema financeiro tradicional.
Outro ponto destacado pelo estudo é a desmontagem do argumento de que o setor seria predominantemente associado a atividades ilícitas. Segundo os dados, 99% da atividade com stablecoins é considerada lícita, resultado de maior monitoramento, rastreabilidade e integração com sistemas de compliance. Com isso, agentes mal-intencionados migraram para outros instrumentos, enquanto empresas e instituições passaram a adotar stablecoins como ferramenta legítima de gestão financeira.
Hoje, tesourarias corporativas — de grandes, médias e pequenas empresas — utilizam stablecoins para operar fora do horário bancário, movimentar recursos com liquidez contínua e reduzir custos relacionados a câmbio e transferências internacionais. Na prática, esses ativos funcionam como uma camada operacional invisível, mas essencial, para o funcionamento de negócios digitais e transfronteiriços.
Pressão regulatória e o papel do Brasil em 2026
A aceleração da adoção global colocou reguladores sob pressão. Enquanto a União Europeia avança com o marco regulatório MiCA (Markets in Crypto-Assets) e os Estados Unidos discutem propostas como o Clarity Act, o Brasil já definiu um cronograma concreto para suas novas regras.
O Banco Central do Brasil publicou resoluções que entram em vigor a partir de fevereiro, consolidando o papel das Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAV). Essas entidades serão responsáveis por atividades como intermediação, custódia e negociação, trazendo maior previsibilidade jurídica e segurança institucional ao setor.
A expectativa do mercado é de que 2026 combine dois vetores relevantes: um ambiente internacional de juros mais baixos, especialmente nos Estados Unidos, e uma integração cada vez maior entre ativos digitais e o sistema financeiro tradicional. Nesse contexto, a disputa deixa de ser entre “cripto versus bancos” e passa a girar em torno de quem consegue oferecer liquidez, segurança e eficiência em escala global.
Para especialistas do setor, as stablecoins já representam o principal caso de uso concreto da tecnologia blockchain, e a curva de adoção ainda está longe de atingir um platô.
Visão Bolso do Investidor
O avanço das stablecoins mostra que a revolução financeira não está acontecendo apenas nos ativos mais voláteis, mas na infraestrutura silenciosa que sustenta pagamentos, remessas e proteção patrimonial. Para o investidor e para o empresário, entender esse movimento é fundamental: trata-se menos de uma aposta especulativa e mais de uma mudança estrutural na forma como o dinheiro circula globalmente. O protagonismo do Brasil nesse cenário reforça que mercados emergentes não apenas consomem inovação financeira, mas ajudam a moldar seus casos de uso mais relevantes.
Fontes:
- InfoMoney
