Groenlândia entra no radar do mercado: quem ganha e quem perde com a escalada de Trump

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 21 de janeiro de 2026

O que inicialmente parecia apenas mais uma provocação diplomática do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a ser tratado como um fator concreto de risco — e de oportunidade — pelos mercados globais. A ofensiva americana para ampliar o controle sobre a Groenlândia, região estratégica sob soberania da Dinamarca, já começa a provocar reprecificações em ações, setores e moedas ao redor do mundo.

Para especialistas ouvidos pelo InfoMoney, o movimento não deve ser interpretado como blefe. A avaliação predominante é de que a estratégia dos EUA envolve interesses geopolíticos, militares e econômicos de longo prazo, com potencial para alterar fluxos de investimento globais.

Segundo Ramiro Gomes Ferreira, sócio e cofundador do Clube do Valor, os mercados subestimam o grau de seriedade das ações recentes do governo americano. “A prisão de Nicolás Maduro em uma operação relâmpago mostrou que o mercado precisa tratar as investidas sobre a Groenlândia como um cenário possível. Não é apenas diplomacia: trata-se de controle territorial e de recursos estratégicos”, afirma.

Na mesma linha, Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, avalia que o discurso já se traduziu em ações concretas. “Trump fala sobre a Groenlândia há bastante tempo e está levando essa pauta adiante, com consequências reais para o mercado.”

Já Leonardo Netto, private banker da Guardian Capital, destaca que o impacto já é visível nos preços dos ativos, especialmente após ameaças de tarifas contra países europeus como forma de pressão. “A administração americana vincula explicitamente a Groenlândia à segurança nacional, diante do avanço de Rússia e China no Ártico. Isso vai além de retórica.”


Setores e ativos que podem se beneficiar

Caso os Estados Unidos avancem no objetivo de reduzir a dependência global da China em terras raras — metais essenciais para semicondutores, inteligência artificial, baterias e defesa — e ampliem sua presença militar no Ártico, alguns setores despontam como potenciais vencedores.

O primeiro grupo envolve mineradoras americanas e canadenses, consideradas as apostas mais diretas nessa tese. Leonardo Netto cita empresas como MP Materials, além de companhias ligadas à extração e processamento de minerais críticos, e o VanEck Rare Earth/Strategic Metals ETF (REMX), focado em terras raras.

“O avanço americano enfraquece a tese de hegemonia chinesa no refino desses materiais. Isso gera uma reprecificação de mineradoras expostas a esse mercado, diante da expectativa de investimentos estatais e incentivos estratégicos”, explica Netto.

Outro setor beneficiado é o de defesa e logística militar. A escalada de tensões já levou países como Reino Unido, França, Alemanha e a própria Dinamarca a anunciarem reforços na segurança do Ártico. Nesse cenário, cresce a demanda por radares, sensores, sistemas de vigilância e satélites.

Para Enrico Cozzolino, CEO da CZZ Capital, empresas como Northrop Grumman e Lockheed Martin, além do iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (ITA), tendem a se beneficiar do novo ambiente geopolítico.

No Brasil, Cozzolino vê impactos indiretos positivos. Segundo ele, tensões globais costumam fortalecer o dólar, o que favorece as exportadoras brasileiras de commodities. “O Brasil aparece como uma alternativa menos controversa para o fornecimento de minerais estratégicos, além de se beneficiar via minério de ferro e petróleo”, avalia.


Quem pode perder com a escalada

Do lado negativo, o consenso é que empresas europeias, especialmente as ligadas à Dinamarca, estão entre as mais expostas ao risco. Companhias como Maersk e Novo Nordisk podem sofrer com volatilidade adicional.

“A ameaça de retaliações tarifárias cria um ambiente de incerteza elevada. O mercado costuma penalizar ativos de países envolvidos em disputas comerciais diretas”, afirma Ramiro Gomes Ferreira.

Leonardo Netto pondera que a Novo Nordisk possui fundamentos defensivos, como forte poder de precificação, o que pode protegê-la parcialmente de tarifas setoriais. Ainda assim, ele alerta que o risco-país e possíveis medidas direcionadas a medicamentos europeus podem gerar oscilações nos múltiplos no curto prazo, mesmo sem comprometer a tese estrutural da companhia.

Além da Europa, também perdem força investimentos baseados na premissa de que a China continuará sendo a única fornecedora viável de minerais críticos. Segundo Ramiro, empresas excessivamente dependentes dessa cadeia podem enfrentar sanções, restrições comerciais ou bloqueios em um novo eixo geopolítico liderado pelos Estados Unidos.


Visão Bolso do Investidor

A disputa em torno da Groenlândia revela como temas geopolíticos voltaram a ocupar papel central na precificação de ativos globais. O interesse americano na região não é apenas territorial, mas envolve segurança, energia, minerais estratégicos e reposicionamento das cadeias produtivas globais. Para o investidor, isso reforça a importância de acompanhar riscos políticos como variáveis econômicas reais, capazes de criar vencedores e perdedores em setores específicos, muito além das fronteiras nacionais.


Fontes:

  • Infomoney