Inteligência artificial, bolha e risco sistêmico: por que o boom tecnológico não deve virar uma nova crise global

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 22 de janeiro de 2026

O debate sobre uma possível bolha em inteligência artificial voltou a ganhar força nos mercados globais, à medida que os investimentos bilionários em tecnologia avançam em ritmo acelerado. Para Artur Wichmann, CIO da XP Inc., no entanto, a comparação direta com crises históricas como a de 1929 ou a de 2008 exige mais cautela do que alarme.

Segundo o executivo, a principal diferença do atual ciclo tecnológico em relação a grandes colapsos do passado está na forma de financiamento. “O avanço da inteligência artificial não está sendo impulsionado por endividamento excessivo, mas majoritariamente por capital próprio das empresas”, afirmou.

Na avaliação de Wichmann, os episódios que se transformam em crises profundas e prolongadas compartilham um elemento central: a contaminação do sistema de crédito. “Toda vez que uma recessão atinge o mercado de crédito, ela vira uma depressão”, disse, ao traçar paralelos com a Grande Depressão e a crise financeira global de 2008.

Nesse contexto, mesmo que parte relevante dos investimentos em IA se revele equivocada ou gere destruição de valor, o impacto tende a permanecer restrito aos acionistas das empresas envolvidas, sem provocar um colapso sistêmico da economia.


Bolha não é sinônimo de crise

Wichmann também fez uma crítica ao uso indiscriminado do termo “bolha” para classificar ciclos de forte valorização. Para ele, o conceito só se torna macroeconomicamente perigoso quando envolve alavancagem excessiva e risco sistêmico.

“Se o investimento vai a zero, mas foi feito com capital próprio, o prejuízo fica com o investidor. O sistema financeiro segue funcionando”, afirmou. Segundo o CIO, o verdadeiro risco surge quando perdas se espalham pelo sistema bancário, comprometendo crédito, liquidez e confiança — algo que, até o momento, não caracteriza o ciclo atual da inteligência artificial.

As análises foram apresentadas durante uma live da XP Asset no YouTube, que contou também com a participação de Fernando Genta, economista-chefe da gestora, e de Thales Maion, economista da área internacional.


Do “tipping point” de Keynes à nova microeconomia da tecnologia

A reflexão conduzida por Wichmann parte de um conceito clássico de John Maynard Keynes: o chamado tipping point — o ponto de não retorno em que a economia deixa um estado de equilíbrio e entra em um regime instável, como ocorreu durante a espiral deflacionária de 1929.

A provocação colocada na discussão foi direta: a inteligência artificial poderia levar a economia global a um ponto semelhante? A resposta foi cautelosa. O risco existe, mas o desenho do ciclo atual é substancialmente diferente justamente por não estar alicerçado em endividamento.

A análise, então, migra para o plano microeconômico. Segundo o CIO, as grandes empresas de tecnologia, que por anos direcionaram volumes expressivos de caixa para dividendos e recompras de ações, passaram a redirecionar recursos para investimentos massivos em infraestrutura, data centers e desenvolvimento de soluções em inteligência artificial.

A lógica econômica, segundo ele, é simples: “Se o retorno for maior que o custo de capital, cria valor. Se for menor, destrói valor”. A grande incógnita de trilhões de dólares é justamente qual será o retorno efetivo desses investimentos ao longo do tempo.


Mercado começa a olhar além das big techs

Os dados de mercado ajudam a ilustrar essa transição. Nos últimos anos, índices como o Nasdaq e as gigantes de tecnologia superaram com folga os demais benchmarks globais. Mais recentemente, porém, o Russell 2000 — que representa empresas menores e mais ligadas à economia real — passou a apresentar desempenho superior.

Esse movimento pode refletir diferentes leituras: desde uma correção natural de valuations nas big techs, passando por uma reaceleração cíclica da economia, até a difusão dos ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial para além do grupo conhecido como “Magnificent Seven”.

Para os analistas da XP Asset, esse comportamento sugere que o mercado começa a apostar que os benefícios da IA não ficarão restritos a poucas plataformas dominantes, mas se espalharão por um conjunto mais amplo de empresas, elevando eficiência, margens e lucros em diversos setores da economia.


Visão Bolso do Investidor

O ciclo atual da inteligência artificial traz riscos, mas não carrega, até o momento, os elementos clássicos de uma crise sistêmica. A ausência de alavancagem excessiva e a predominância de investimentos financiados com capital próprio reduzem o potencial de contágio para o sistema financeiro. Para o investidor, o desafio está menos em prever um colapso global e mais em distinguir quais empresas conseguirão transformar o enorme volume de investimentos em retornos sustentáveis ao longo do tempo. Em ciclos tecnológicos, destruição e criação de valor caminham juntas — o risco está concentrado no acionista, não no sistema.


Fontes:

  • InfoMoney