Após susto com Master e Will Bank, CDBs devem voltar ao radar dos investidores, avaliam analistas

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 22 de janeiro de 2026

A liquidação de três instituições financeiras em um intervalo inferior a dois meses — Banco Master, Reag e Will Bank — provocou um abalo temporário na confiança de investidores que vinham ampliando a exposição a CDBs de bancos de menor porte. A demora do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para iniciar os pagamentos relacionados ao Master, além de dificuldades operacionais enfrentadas por parte dos investidores na análise de documentos, ampliou a sensação de desconforto no curto prazo.

Apesar da reação inicial mais defensiva e de ajustes pontuais nas taxas oferecidas, analistas do mercado financeiro avaliam que os episódios têm caráter isolado e não devem provocar uma mudança estrutural no mercado de CDBs. A expectativa predominante é de normalização gradual do apetite por esses ativos nos próximos meses, ainda que com um investidor mais atento aos riscos envolvidos.

Segundo Camilla Dolle, head de renda fixa do Research da XP Investimentos, eventos dessa natureza tendem a provocar uma revisão comportamental temporária. “Quando há acontecimentos desse tipo, o investidor passa a olhar com mais cuidado para o risco de quebra das instituições. Pode haver mudança de comportamento, mas é cedo para afirmar que isso leve a uma alteração estrutural na captação dos bancos menores”, afirma.

Ela lembra que episódios anteriores de choque de confiança — como o caso Americanas — também geraram aversão ao risco no curto prazo, mas o mercado voltou a se estabilizar ao longo do tempo. “É possível que surjam ajustes regulatórios, aprimoramentos de mercado e um entendimento mais profundo por parte dos investidores, o que tende a limitar impactos permanentes”, avalia. Ainda assim, o retorno dos recursos pagos pelo FGC pode vir acompanhado de maior cautela inicial.

CDBs seguem como instrumento de diversificação

Mesmo após os episódios recentes, os CDBs de bancos de menor porte continuam sendo considerados instrumentos válidos de diversificação dentro da renda fixa. Camilla Dolle alerta para o risco de generalizações. “Existem muitos bancos menores, sólidos, com balanços consistentes. Por isso, é fundamental que o investidor converse com seu assessor, avalie o perfil de risco e entenda que taxas mais elevadas carregam riscos maiores”, diz.

Segundo ela, a principal lição deixada pelo processo é que todo título de crédito — bancário ou privado — envolve risco. “Diversificar é essencial para reduzir impactos caso ocorra algum problema específico com uma instituição”, reforça.

O tema afeta diretamente milhões de brasileiros. Dados da Anbima mostram que, entre 2024 e novembro de 2025, o número de contas de investidores de varejo em CDBs saltou de 45,4 milhões para 58,3 milhões. No segmento de alta renda, as contas praticamente dobraram, passando de 4,7 milhões para 8,8 milhões no mesmo período.

Em valores, o montante investido em CDBs pelo varejo tradicional avançou de R$ 430 bilhões em janeiro de 2024 para R$ 610,4 bilhões em novembro de 2025. No varejo de alta renda, o volume subiu de R$ 354,7 bilhões para R$ 521,7 bilhões — números que evidenciam a relevância do produto no mercado brasileiro.

Crise pontual, não sistêmica

Para Leandro Vilain, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), o que ocorreu foi uma crise específica de um conglomerado financeiro. “Não houve surpresa relevante na liquidação do Will Bank. Não existe crise de confiança no sistema financeiro. O sistema segue funcionando normalmente”, afirma.

Segundo Vilain, nem mesmo um aumento significativo do custo de captação dos bancos menores se materializou. “Desde novembro, após a liquidação do Master, o custo médio dos bancos caiu. O Master pagava taxas muito elevadas, entre 130% e 140% do CDI. Com a saída desse player, as taxas voltaram a patamares mais normais”, explica.

Mesmo o impacto financeiro para o FGC — estimado em cerca de R$ 40,6 bilhões no caso do Master e R$ 6,3 bilhões no Will Bank — não é visto como preocupante. “O fundo pode recompor os recursos e antecipar contribuições dos bancos em até 60 parcelas. Isso tende a ocorrer rapidamente”, diz.

No médio prazo, porém, o executivo defende ajustes no modelo de supervisão. “Será preciso entender melhor como os bancos utilizam os recursos captados. Captar caro para emprestar caro é uma coisa; alocar recursos em ativos de risco elevado, como precatórios, é outra”, pontua. Para o investidor, a principal mudança deve ser a busca por mais informações antes da aplicação. “Não existe CDB do FGC. Existe CDB de banco. Essa percepção precisa mudar”, conclui.

Por que os bancos quebram?

Segundo Ricardo Rocha, coordenador de pós-graduação em Finanças do Insper, bancos normalmente quebram por três motivos principais: choques abruptos de juros que elevam a inadimplência, insuficiência de capital ou problemas de fraude e gestão temerária.

“No caso do Master, parece ter havido uma combinação de assunção excessiva de risco e possíveis irregularidades. Isso não caracteriza um problema generalizado do sistema”, explica. Ele lembra que, em momentos de estresse, investidores tendem a enxergar todas as instituições como iguais, o que nem sempre corresponde à realidade.

Hoje, o sistema financeiro brasileiro é mais robusto do que em episódios históricos, como a onda de quebras dos anos 1980, quando não existia FGC. “O fundo reduziu muito o risco sistêmico, mas isso não elimina o desconforto operacional e tributário de quem passa por uma liquidação antes do vencimento do título”, afirma.

Rocha avalia que o maior impacto dos casos recentes será educativo. “O investidor vai pensar duas vezes antes de aplicar em um banco pouco conhecido. Vai buscar informações, entender o modelo de negócio, em vez de olhar apenas a taxa e a garantia”, diz.

Crédito segue aquecido

Para Patrícia Palomo, planejadora financeira CFP pela Planejar, não há motivo para esperar uma retração estrutural nos investimentos em CDBs. “O caso do Will Bank é muito específico e está diretamente ligado ao controlador. Não indica um aumento generalizado de risco no sistema”, afirma.

Ela lembra que o crédito segue em expansão no Brasil, impulsionado por políticas públicas, e que o setor financeiro opera sob intensa fiscalização do Banco Central do Brasil, além de contar com mecanismos de proteção como o FGC.

Segundo Palomo, o investidor deve continuar analisando bancos menores com critério: avaliando estratégia, acionistas, nível de alavancagem e qualidade da gestão. “Pode haver algum ajuste de taxas no curto prazo, mas é fundamental entender que taxa elevada é reflexo direto de risco elevado. Não existe retorno alto sem risco correspondente”, conclui.


Visão Bolso do Investidor

Os episódios envolvendo Master e Will Bank não apontam para fragilidade sistêmica, mas reforçam uma lição clássica: retorno e risco caminham juntos. O FGC protege o capital até determinado limite, mas não elimina o custo operacional, tributário e emocional de um processo de liquidação. Para o investidor, o aprendizado é claro: diversificação, análise da instituição emissora e compreensão do risco são tão importantes quanto a taxa oferecida.


Fontes:

  • InfoMoney