Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 23 de janeiro de 2026

Executivos de alta liderança vivem hoje uma combinação curiosa de confiança e inquietação. Não se trata de improviso ou falta de preparo. Pelo contrário: há uma reflexão profunda sobre ciclos de capital, transições tecnológicas, resiliência operacional e criação de valor no longo prazo, agora sob um nível de escrutínio muito mais intenso do que aquele enfrentado por gerações anteriores.
Ainda assim, muitos reconhecem que o ambiente atual é mais difícil de interpretar. O “longo prazo” parece estar mudando de forma acelerada. Premissas que por décadas permaneceram em segundo plano, como energia, demografia, geopolítica e produtividade, estão se deslocando simultaneamente, criando um cenário de incerteza estrutural.
É nesse contexto que surge o livro A Century of Plenty, que revisita os últimos cem anos de progresso humano e propõe uma pergunta provocadora: apesar de todas as tensões atuais, seria possível repetir, ou até superar, o salto de prosperidade observado no século XX?
Uma pergunta deliberadamente ambiciosa
O ponto de partida do livro é uma questão direta e ousada: o que seria necessário para que todas as pessoas do planeta, até o ano de 2100, vivessem ao menos tão bem quanto alguém vive hoje na Suíça?
A referência não é cultural, mas econômica e social. O padrão suíço representa alta renda per capita, longevidade elevada, educação sólida, acesso a serviços públicos eficientes e um nível significativo de coesão social.
Para que isso acontecesse em escala global, o Produto Interno Bruto mundial precisaria ser aproximadamente 8,5 vezes maior do que é atualmente. O número, por si só, já desperta ceticismo imediato. A pergunta que se impõe é inevitável: haveria energia, alimentos, matérias-primas e capacidade de inovação suficientes para sustentar esse nível de crescimento?
O livro argumenta que sim, e constrói essa resposta de forma sistemática.
Energia: o maior desafio, mas não um limite absoluto
No campo energético, o avanço necessário é expressivo. O mundo precisaria consumir entre duas e três vezes mais energia total do que hoje, além de produzir cerca de 30 vezes mais eletricidade limpa.
Embora o desafio seja enorme, os autores defendem que ele é viável com investimento, escala e inovação tecnológica. A transição exigiria uma reconfiguração profunda da matriz energética global, mas não esbarra em limites físicos intransponíveis.
Recursos naturais: escassez aparente, não real
A disponibilidade de minerais e metais críticos também não seria um obstáculo estrutural. A Terra dispõe de reservas suficientes, o desafio está em localizá-las, extraí-las e processá-las de forma eficiente.
O livro destaca o exemplo do lítio. As reservas recuperáveis vêm crescendo a uma taxa três vezes superior à necessária para atender à demanda projetada, impulsionadas justamente pelo aumento dos preços e pelo incentivo econômico à exploração de novas fontes.
Alimentação: produtividade acima da expansão territorial
No setor agrícola, os números também surpreendem. Seria possível alimentar até 12 bilhões de pessoas com dietas ricas em proteína utilizando a mesma área de terra agrícola, ou até menos, desde que os ganhos de produtividade continuem avançando.
O ritmo de crescimento necessário é, inclusive, inferior ao observado desde a década de 1960, período marcado por avanços expressivos em tecnologia agrícola, genética e logística.
Produtividade: o verdadeiro motor do crescimento
No centro de toda a equação está a produtividade. Para viabilizar um mundo com padrão de vida suíço para todos, a produtividade global precisaria crescer cerca de 2,7% ao ano de forma sustentada.
Segundo os autores, a inovação ainda possui fôlego suficiente para isso. A inteligência artificial, combinada com outras tecnologias emergentes, poderia adicionar entre 0,5 e 3,4 pontos percentuais ao crescimento anual da produtividade até 2040 — um impacto superior ao observado em ondas tecnológicas anteriores.
Os ganhos já visíveis seriam suficientes para sustentar esse nível de prosperidade sem esgotar o planeta. A neutralidade total de carbono até 2050 é considerada improvável, mas, desde que os frutos do crescimento sejam direcionados à construção de um novo sistema energético limpo, o aquecimento global poderia ser contido em torno de 2 °C.
A conclusão é clara: as restrições decisivas não são físicas. Elas estão, sobretudo, nas decisões humanas.
Produtividade não cresce por acaso
O momento atual pode parecer único, mas é surpreendentemente familiar. Grandes transições — sejam geopolíticas, energéticas ou tecnológicas — quase nunca pareceram organizadas enquanto estavam acontecendo. Historicamente, foram períodos turbulentos.
Ainda assim, um padrão se manteve ao longo do tempo: o crescimento contínuo e composto da produtividade. Foi ele que elevou salários, ampliou oportunidades e permitiu que sociedades enfrentassem desigualdade e danos ambientais, em vez de paralisarem diante deles.
Esse ponto é especialmente relevante para líderes empresariais, porque a produtividade não surge espontaneamente. Ela avança quando organizações investem em ferramentas melhores, novos sistemas e formas mais eficientes de trabalhar — muitas vezes antes de os retornos se tornarem evidentes.
O papel subestimado das grandes empresas
O debate público costuma tratar o progresso como algo abstrato, impulsionado por governos ou forças de mercado difusas. O livro contesta essa visão e coloca as empresas — especialmente as grandes — no centro do processo.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 80% dos ganhos de produtividade da última década vieram de apenas 5% das empresas. Essas organizações não se limitaram a cortar custos; elas criaram novos modelos de negócios, escalaram inovação e investiram mesmo em ambientes incertos.
Um grupo relativamente pequeno de empresas responde por uma parcela desproporcional do investimento que, no fim das contas, eleva salários e padrões de vida. Em média, grandes empresas pagam de 25% a 50% mais do que as menores, e as 250 maiores companhias do mundo concentram cerca de dois terços dos gastos globais em P & D.
Essa concentração tem um efeito duplo. Quando essas empresas hesitam, o progresso desacelera. Quando decidem investir, o impacto é sistêmico. Decisões tomadas em conselhos de administração têm, muitas vezes, mais poder transformador do que se imagina.
Repensando o crescimento
Poucos temas geram tanto desconforto quanto o crescimento econômico. O avanço do último século trouxe externalidades reais: mudança climática, perda de biodiversidade e tensões sociais. Ignorar esses custos seria irresponsável.
No entanto, as evidências também desafiam a ideia de que o crescimento em si é o problema. Sociedades estagnadas têm dificuldade para financiar políticas sociais, lidar com o envelhecimento populacional ou investir em tecnologias mais limpas.
O crescimento liderado pela produtividade cria os recursos necessários para enfrentar esses desafios. A escolha não é entre crescer ou ser responsável, mas entre crescimento produtivo e estagnação.
Para conselhos de administração, essa distinção é crucial. Recuar pode parecer prudente no curto prazo, mas a história sugere que o subinvestimento durante as transições prolonga a instabilidade, em vez de reduzi-la.
Uma possibilidade — não uma previsão
O livro não afirma que, até 2100, o mundo alcançará um cenário de abundância. Ele sustenta que isso é uma possibilidade real, e que o resultado dependerá das escolhas feitas agora.
O problema é que vivemos uma crise de expectativa. Pesquisas mostram que, na maioria das economias avançadas, menos de uma em cada quatro pessoas acredita que a próxima geração viverá melhor do que a atual.
Quando a crença no progresso se enfraquece, o investimento desacelera, a tolerância ao risco diminui e a política se fecha em si mesma.
Líderes empresariais não são capazes de resolver isso sozinhos — mas também não são neutros.
A questão central para CEOs e conselhos não é se o mundo está mudando, mas se eles estão dispostos a liderar essa mudança ou permitir que uma narrativa de escassez limite o progresso no meio do caminho.
Visão Bolso do Investidor
O debate sobre crescimento global costuma ser dominado por extremos: otimismo ingênuo ou pessimismo estrutural. A principal contribuição dessa análise é mostrar que o crescimento necessário para elevar o padrão de vida global não esbarra em limites físicos imediatos, mas em decisões de investimento, inovação e liderança. Para investidores, o recado é claro: produtividade, tecnologia, energia e capital humano continuam sendo os vetores centrais da criação de valor no longo prazo — e ignorá-los em nome do medo pode ser o maior risco de todos.
Fontes:
- Infomoney
- Fortune
