Corte de preços da De Beers acende alerta sobre crise prolongada no mercado global de diamantes

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 24 de janeiro de 2026

A De Beers, conglomerado envolvido na mineração e comercialização de diamantes, anunciou na segunda-feira (18) a redução dos preços de suas pedras, um movimento raro e altamente simbólico para o setor. Trata-se do primeiro corte desde o fim de 2024 e ocorre em um momento de enfraquecimento estrutural da demanda global.

A decisão foi tomada após uma combinação de fatores negativos: desaceleração dos gastos com produtos de luxo na China, crescimento acelerado da popularidade dos diamantes sintéticos e os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre a Índia, maior polo global de lapidação e exportação de diamantes.

Antes de oficializar o corte, a De Beers já vinha tentando sustentar os preços por meio de vendas privadas, oferecendo descontos de aproximadamente 25% em determinadas categorias de gemas. Ainda assim, a pressão sobre o mercado se mostrou intensa o suficiente para exigir um ajuste formal.

Com cerca de 33% de participação no mercado global de comercialização de diamantes, a De Beers tradicionalmente evita reduzir preços, justamente porque qualquer movimento seu tende a reverberar por toda a cadeia do setor. Segundo a Bloomberg, a magnitude exata do corte anunciado nesta semana não foi detalhada, mas o gesto, por si só, já representa uma mudança relevante de postura.

A última redução oficial de preços havia ocorrido em dezembro de 2024. A nova decisão acontece em um momento particularmente delicado para a empresa, frequentemente creditada como a responsável por moldar a indústria moderna de diamantes ao longo do século XX.


A crise do luxo e o avanço das pedras sintéticas

O setor de diamantes atravessa uma das crises mais profundas e prolongadas de sua história recente. O enfraquecimento do consumo de bens de luxo na China, mercado-chave para joias de alto padrão, reduziu drasticamente a demanda. Ao mesmo tempo, diamantes sintéticos ganharam espaço, oferecendo preços mais acessíveis e menor estigma ambiental, alterando o comportamento do consumidor.

As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre a Índia agravaram ainda mais o cenário. O país asiático responde por cerca de 90% da lapidação, polimento e comercialização global de diamantes. Do outro lado da cadeia, os EUA seguem como o maior mercado consumidor final do mundo, o que amplifica os impactos das barreiras comerciais.


Botsuana sente o impacto fiscal

Os efeitos da crise já são sentidos de forma intensa em Botsuana, um dos maiores produtores e exportadores de diamantes do mundo, onde o mineral representa uma das principais fontes de receita pública.

O Ministério das Finanças do país alertou que a arrecadação mineral no ano fiscal de 2025-2026 pode cair para apenas 10,3 bilhões de pula (cerca de US$ 744 milhões), menos da metade da média histórica de 25,3 bilhões de pula. O governo já admite a possibilidade de um período prolongado de fraqueza nos preços, com consequências relevantes para o orçamento nacional.

“A recuperação da receita mineral deve ser prolongada”, afirmou o ministério em um documento de estratégia divulgado antes da apresentação do orçamento anual. Segundo o texto, a insuficiência de receitas pode persistir no médio e longo prazo, com risco de não haver recuperação significativa.

A projeção oficial indica que os diamantes brutos devem ser vendidos a US$ 99,3 por quilate no fim de 2025, bem abaixo dos US$ 128,8 registrados em 2024. Diante desse cenário, o governo planeja reforçar a disciplina fiscal, com expectativa de redução do déficit orçamentário para 3,3% do PIB em 2025/26, ante 4,2% no ano anterior.


Um choque no pior momento possível

No início do segundo semestre de 2025, o mercado de diamantes chegou a ensaiar uma recuperação. No entanto, em agosto, o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs tarifas de 50% sobre produtos indianos, atingindo diretamente o coração da cadeia global de diamantes.

O choque ocorreu em um momento especialmente sensível para a Anglo American, controladora da De Beers. A mineradora busca se desfazer do negócio de diamantes como parte de uma reestruturação ampla, iniciada após ter rejeitado, em 2024, uma oferta de aquisição de US$ 49 bilhões feita pela BHP Group.


Visão Bolso do Investidor

O corte de preços da De Beers não deve ser interpretado como um ajuste pontual, mas como um sinal claro de mudança estrutural no mercado global de diamantes. A combinação de menor apetite por luxo, disrupção tecnológica via diamantes sintéticos e tensões geopolíticas está corroendo um modelo de negócio que, por décadas, se sustentou na escassez controlada e no poder de precificação.

Para países altamente dependentes do setor, como Botsuana, o impacto vai além das empresas e atinge diretamente a sustentabilidade fiscal. Já para grupos como a Anglo American, a fragilidade do mercado reforça a lógica de desinvestimento e reorganização estratégica.

O episódio reforça uma lição importante para investidores: mesmo mercados historicamente associados a valor, tradição e status não estão imunes a mudanças tecnológicas, comportamentais e geopolíticas. Quando um player dominante como a De Beers cede no preço, o sinal é de que o ciclo mudou, e pode demorar a se recompor.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Bloomberg