Investidores assumem mais risco e impulsionam alta de bonds de menor qualidade nos EUA

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 25 de janeiro de 2026

Os títulos de dívida corporativa mais arriscados dos Estados Unidos estão entre os ativos com melhor desempenho no início de 2026. Papéis classificados na categoria CCC, o nível mais baixo ainda negociado no mercado americano, já acumulam retorno de 1,15% no ano, superando praticamente todas as demais classes de renda fixa no país.

O movimento indica que, ao menos por ora, o risco de inadimplência corporativa ocupa posição secundária nas preocupações dos investidores, que têm priorizado a busca por rendimento em um ambiente de juros elevados e spreads comprimidos em ativos considerados mais seguros.

Segundo dados do índice Bloomberg, enquanto os títulos CCC avançaram 1,15% até o fechamento da última quinta-feira, os Treasuries americanos registraram queda aproximada de 0,2% no mesmo período. Mesmo dentro do universo de alto rendimento, os bonds de pior qualidade superaram outros segmentos.

Busca por valor e efeito das avaliações

Parte da demanda por esses títulos é explicada pela percepção de que eles estão baratos em termos relativos. De acordo com análise do Barclays, os bonds classificados como CCC negociam com spreads atrativos quando comparados historicamente aos títulos imediatamente acima na escala de risco, na faixa B.

Esse desempenho positivo em 2026 ocorre após um ano em que os CCC ficaram atrás de outros papéis de alto rendimento. Em 2025, os títulos dessa categoria subiram 8,3%, enquanto os bonds BB, por exemplo, avançaram 8,9%.

“Acreditamos que o desempenho superior se deve principalmente às avaliações de mercado”, afirmou Sean Feeley, gestor de portfólio de high yield da Barings.

Peso desproporcional no mercado de high yield

Apesar de representarem cerca de 12% do valor de mercado do índice de títulos de alto rendimento, os bonds CCC respondem por aproximadamente 25% dos spreads do índice, segundo o Barclays. Isso faz com que o comportamento dessa fatia tenha impacto relevante sobre o desempenho total do segmento.

“Se você não investir em nenhuma CCC, ficará para trás”, afirmou Michael Levitin, gestor de portfólio da MidOcean Partners, ressaltando o papel estratégico desses ativos na composição de retornos.

Juros elevados reforçam apetite por crédito corporativo

O bom desempenho ocorre em meio a um cenário de maior volatilidade nos mercados globais de títulos. Os rendimentos subiram em diversas regiões do mundo nesta semana, pressionados por fatores políticos e fiscais.

Nos Estados Unidos, declarações do presidente Donald Trump sobre a Groenlândia aumentaram tensões geopolíticas. No Japão, promessas de cortes de impostos feitas pela primeira-ministra Sanae Takaichi provocaram forte queda nos títulos do governo local.

Mesmo antes desses eventos, os Treasuries já vinham sob pressão. O rendimento dos títulos americanos de 10 anos subiu cerca de 0,25 ponto percentual desde o fim de novembro, refletindo preocupações de que o Federal Reserve demore mais para iniciar cortes de juros, diante de um mercado de trabalho ainda resiliente.

Esse patamar mais elevado de juros tem incentivado investidores institucionais — como fundos de pensão e seguradoras — a aumentar exposição a crédito corporativo, uma vez que muitos desses gestores avaliam investimentos com base no rendimento absoluto oferecido.

Compressão de spreads e forte emissão no mercado primário

A demanda não se restringe aos títulos mais arriscados. Os spreads dos bonds corporativos americanos de grau de investimento caíram para 71 pontos-base, o menor nível desde 1998.

No mercado primário, as empresas já emitiram US$ 170 bilhões em títulos corporativos com grau de investimento em 2026, um crescimento de aproximadamente 13% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Ainda assim, o apetite por risco tem se mostrado mais intenso no segmento de alto rendimento. Apenas em janeiro, ocorreram seis emissões de títulos CCC, totalizando US$ 3,5 bilhões, o equivalente a 15% de toda a oferta de high yield no mês. Em janeiro de 2025, haviam sido apenas duas emissões, somando US$ 630 milhões (cerca de 3% do total).

“As pessoas querem rendimento, precisam do papel e têm dinheiro em caixa”, resumiu Levitin.

Seleção de crédito se torna crucial

Apesar do entusiasmo, analistas alertam para a forte dispersão dentro do universo de títulos CCC. Segundo Corry Short, estrategista do Barclays, o mercado está dividido entre papéis negociados a valuations elevados e outros precificados com grande desconto por risco de inadimplência.

“Dada a dispersão atual no segmento de CCCs, é essencial analisar os dados com mais rigor. A seleção de crédito se torna fundamental”, afirmou.

Os investidores, de forma geral, estão diferenciando empresas com crescimento mais robusto daquelas com perspectivas limitadas. Segundo Scott Hague, chefe global de financiamento alavancado e crédito privado da TD Securities, companhias com crescimento mais sólido acabam vendo seus spreads se comprimirem a níveis normalmente associados a títulos de risco mais baixo.

Visão Bolso do Investidor

O movimento revela um mercado disposto a assumir risco adicional em troca de retorno, especialmente em um contexto de juros elevados e spreads historicamente apertados nos ativos mais seguros. No entanto, o desempenho dos títulos CCC não elimina o risco estrutural do segmento. A fase atual exige disciplina na análise de crédito, diferenciação entre emissores e atenção redobrada ao cenário macroeconômico, especialmente à trajetória dos juros e à saúde do mercado de trabalho nos EUA.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Bloomberg