China passa a operar em “duas velocidades” e muda a lógica do mercado acionário

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 26 de janeiro de 2026

O mercado de ações da China está sendo redesenhado por uma divisão cada vez mais clara dentro da própria economia do país. De um lado, empresas ligadas à manufatura avançada, infraestrutura e tecnologia seguem se beneficiando de um forte ciclo de exportações industriais. Do outro, companhias dependentes do consumo doméstico continuam pressionadas pela desaceleração interna e pela crise prolongada no setor imobiliário.

Esse verdadeiro “conto de duas economias” tem levado investidores globais a reposicionar capital de forma seletiva, priorizando empresas voltadas ao mercado externo em detrimento de uma aposta ampla na recuperação do consumo chinês.

Exportações sustentam o crescimento industrial

A segunda maior economia do mundo aprofundou essa cisão ao longo do último ano. Novas forças industriais ajudaram a manter exportações surpreendentemente robustas, que resistiram inclusive às tarifas impostas durante o governo de Donald Trump. Ao mesmo tempo, o consumo doméstico segue fraco, pressionado pelo ajuste estrutural do mercado imobiliário.

Para bancos internacionais como Morgan Stanley e JPMorgan Asset Management, esse cenário tem sustentado uma visão mais construtiva sobre ações chinesas ligadas à manufatura pesada, equipamentos industriais e infraestrutura elétrica, especialmente aquelas expostas à demanda global por inteligência artificial.

Claramente existem duas Chinas muito diferentes neste momento”, escreveu William Bratton, chefe de pesquisa em ações à vista para Ásia-Pacífico do BNP Paribas Exane. Segundo ele, há uma preferência clara por setores de materiais, industriais e tecnologia, em detrimento de empresas voltadas ao consumo, algo que se reflete tanto nos dados econômicos quanto nas tendências de lucros.

Empresas ligadas à IA lideram ganhos

Grande parte da força recente do mercado acionário chinês vem de companhias envolvidas na cadeia global de infraestrutura de IA, incluindo fabricantes de equipamentos elétricos, componentes industriais e metais estratégicos.

A China XD Electric, fornecedora relevante em projetos de transmissão de energia em ultra-alta tensão, acumula alta de 75% no ano. Já a TBEA, fabricante de componentes elétricos, registra valorização próxima de 28% no mesmo período.

O Morgan Stanley reforçou recentemente essa tese ao destacar um grupo de ações com exposição tanto à recuperação doméstica gradual quanto ao crescimento externo. Entre os nomes citados pelo banco estão Sany Heavy Industry, Jiangsu Hengli Hydraulic, Han’s Laser Technology Industry Group e Wuxi Lead Intelligent Equipment.

“O setor de máquinas para construção está entrando em um ciclo de melhora, com a recuperação doméstica em curso ao lado da demanda externa”, escreveram analistas do banco, liderados por Sheng Zhong, apontando um “bom momento de crescimento” para as exportações.

Consumo segue como ponto fraco

Na direção oposta, empresas mais dependentes do consumidor chinês continuam apresentando desempenho inferior. As ações da Fuyao Glass Industry Group recuam 5,4% no ano, enquanto os papéis da montadora Great Wall Motor acumulam queda de 4,6%.

Segundo Chaoping Zhu, estrategista de mercados globais do JPMorgan Asset Management, gestores institucionais seguem cautelosos em relação a uma recuperação consistente da demanda doméstica.

“Conversas recentes com investidores indicam que os gestores preferem focar no potencial de crescimento de lucros do tema ‘going global’”, escreveu Zhu, referindo-se à estratégia de empresas chinesas que expandem operações e vendas no exterior.

Política industrial reforça a tendência

Autoridades chinesas têm reiterado a manufatura avançada e a tecnologia como novos motores estruturais de crescimento, atribuindo ao mercado acionário um papel central no financiamento de capital e na alocação de riqueza das famílias.

Ainda assim, analistas alertam que o cenário não está livre de riscos. O avanço das exportações industriais chinesas pode provocar reação política em outros países, preocupados com a entrada de produtos mais baratos em seus mercados.

Por outro lado, como Pequim estabeleceu a retomada do consumo como prioridade máxima de política econômica em 2026, alguns especialistas argumentam que as valuations do setor de consumo já podem embutir pessimismo excessivo, criando oportunidades pontuais para investidores mais contrários.

Lucros confirmam a economia em duas velocidades

Por enquanto, os dados de lucros reforçam a divisão. As projeções de resultado para o CSI 300 Industrials subiram 10% nos últimos seis meses, enquanto o índice equivalente de empresas ligadas ao consumo avançou apenas 5%, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Acho que a outperformance do setor industrial vai continuar, porque é ali que está acontecendo boa parte do crescimento estrutural”, afirmou Min Lan Tan, chefe do escritório do CIO para Ásia-Pacífico do UBS Group AG. “Ninguém pode se dar ao luxo de ficar para trás na corrida da IA, e isso deve seguir impulsionando o segmento industrial.

Visão Bolso do Investidor

A China deixou de ser uma tese homogênea para investidores globais. O país opera, cada vez mais, em duas velocidades distintas: uma economia industrial, integrada às cadeias globais de tecnologia e infraestrutura, e outra doméstica, ainda fragilizada pelo ajuste imobiliário e pela cautela do consumidor. Para o investidor, isso significa que a exposição ao mercado chinês exige seleção criteriosa, foco setorial e compreensão clara de onde está — e onde não está — o crescimento estrutural.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Bloomberg