Selic mantida: chegou o momento das small caps ganharem espaço?

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 29 de janeiro de 2026

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic inalterada na reunião desta quarta-feira (28) confirmou o cenário amplamente antecipado pelo mercado financeiro. Sem surpresa, a manutenção dos juros já foi absorvida por gestores e analistas, que agora direcionam a atenção para identificar ações ainda consideradas descontadas, mesmo após o Ibovespa renovar recordes recentes.

Segundo Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital, apesar de alguma reprecificação observada nos últimos meses, os múltiplos seguem abaixo das médias históricas. Ele destaca que o principal motor do mercado acionário no momento é o forte fluxo de capital estrangeiro, que tem favorecido especialmente as ações de maior capitalização.

Especialistas ouvidos pelo InfoMoney ressaltam que tentar acertar o momento exato da virada do ciclo de juros tende a ser menos relevante do que estruturar carteiras com empresas capazes de atravessar diferentes cenários econômicos. A estratégia passa por manter ativos que tragam estabilidade, ao mesmo tempo em que se buscam companhias de qualidade que ainda apresentem avaliações atrativas.

Construção ganha espaço, varejo segue sob cautela

Com a perspectiva de uma Selic mais baixa no horizonte, parte dos investidores tem direcionado o olhar para setores mais sensíveis ao custo do crédito e ao consumo. Analistas, no entanto, apontam que os setores cíclicos não podem mais ser tratados de forma homogênea, já que enfrentam realidades distintas.

Fabio Lemos, sócio da Fatorial Investimentos, avalia que faz sentido montar posições estratégicas no setor de construção civil, com foco específico no segmento de baixa renda. Segundo ele, empresas como Direcional e Cury operam com financiamento subsidiado pelo programa Minha Casa Minha Vida, o que reduz significativamente a dependência do patamar atual da Selic.

Em contrapartida, o varejo discricionário ainda inspira cautela. Lemos observa que o elevado endividamento das famílias e o alto custo financeiro continuam pressionando as margens das empresas do setor, o que sugere aguardar sinais mais claros de melhora econômica antes de movimentos mais agressivos.

Small caps entram no radar

O investimento em small caps também aparece como alternativa considerada por especialistas, diante do potencial de valorização no médio prazo. Rafael Espinoso, estrategista da Tivio Capital, explica que, historicamente, há uma rotação de carteiras nesses momentos: quando o Ibovespa avança de forma mais intensa, a etapa seguinte costuma favorecer empresas de menor capitalização. Nesse contexto, a Tivio defende um aumento do peso dessas companhias nas carteiras.

A estratégia, contudo, não envolve a compra indiscriminada de ações menores. A seleção deve priorizar qualidade e fundamentos. Ricardo Campos aponta a Randon como exemplo de empresa que, em sua avaliação, apresenta preço depreciado em função de um momento passado mais fraco e pode registrar melhora relevante de resultados ao longo do ano. Já Bruno Corano, CEO da Corano Capital, destaca a Marcopolo como uma small cap com potencial para os próximos 12 meses.

Âncoras de estabilidade na carteira

Para equilibrar o maior risco associado a small caps e setores cíclicos, os especialistas defendem a manutenção de uma parcela relevante do portfólio em empresas consideradas “âncoras de estabilidade”, caracterizadas por geração consistente de caixa e baixa alavancagem.

Rhuan Palma, especialista em investimentos, observa que é natural ocorrer alguma realização em papéis mais defensivos à medida que parte do capital migra para ativos de maior risco. Segundo ele, esse movimento não significa deterioração da qualidade dessas empresas, mas reflete a busca do mercado por assimetrias em outros segmentos.

No setor de commodities, Fabio Lemos e Bruno Corano convergem na avaliação positiva sobre a Prio, citada pela combinação entre crescimento orgânico da produção e pagamento de dividendos. Lemos também menciona a Vale, destacando sua forte geração de caixa, e a Petrobras, pelo perfil de dividendos e menor dependência do ciclo doméstico.

No segmento financeiro e de utilities, os especialistas apontam oportunidades tanto de proteção quanto de ganho real. Lemos destaca o Itaú como um ativo capaz de atravessar diferentes cenários de juros, enquanto Campos menciona o Nubank como alternativa para quem busca crescimento. Entre empresas defensivas, Campos chama atenção para Orizon e Eneva, que apresentam receitas previsíveis. Corano cita a Copel entre as elétricas, enquanto Lemos lembra da BB Seguridade, que tende a se beneficiar de juros elevados por meio do resultado financeiro.

Visão Bolso do Investidor

A manutenção da Selic reforça a discussão sobre rotação de portfólio e equilíbrio entre risco e estabilidade. Para investidores, o cenário exige atenção à qualidade dos ativos, à diversificação setorial e à capacidade das empresas de sustentarem resultados em diferentes fases do ciclo econômico. A leitura do mercado sugere que oportunidades podem surgir tanto em companhias mais sensíveis ao crescimento quanto em negócios defensivos, desde que alinhadas a uma estratégia consistente de longo prazo.


Fontes:

  • InfoMoney