Ouro recua após rali histórico e mercado debate se queda é correção ou mudança de ciclo

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 03 de fevereiro de 2026

A forte queda recente do ouro interrompeu um rali que havia levado o metal precioso a patamares recordes e reacendeu o debate entre investidores sobre o futuro do ativo. Em poucos pregões, os preços devolveram parte relevante dos ganhos acumulados, entrando em um período de elevada volatilidade que se estendeu até o início de fevereiro.

O movimento ocorreu após uma combinação de fatores técnicos e macroeconômicos. O mercado já operava em níveis considerados esticados, quando a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve levou a uma reprecificação das expectativas sobre juros. A mudança fortaleceu o dólar e pressionou ativos sensíveis ao custo do dinheiro, como os metais preciosos. Ao mesmo tempo, a elevação das margens exigidas pela CME para contratos futuros acelerou a desmontagem de posições alavancadas, ampliando a intensidade da correção.

Com isso, a principal dúvida passou a ser se o recuo representa apenas um ajuste pontual dentro de uma tendência maior ou se sinaliza o fim do ciclo de alta do ouro.

Tese estrutural permanece, avaliam bancos

A leitura predominante entre grandes instituições financeiras é de que, até o momento, a correção não altera a tese estrutural do ouro como instrumento de diversificação frente ao dólar e aos ativos financeiros tradicionais.

O UBS avalia que mercados altistas do ouro raramente se encerram por conta de uma correção isolada, mesmo quando ela ocorre de forma abrupta. Historicamente, os ciclos prolongados de baixa do metal estiveram associados a mudanças claras de regime, como juros reais elevados por longos períodos, dólar estruturalmente forte, melhora consistente do ambiente geopolítico e restauração plena da credibilidade dos bancos centrais.

Segundo o banco, essas condições ainda não estão presentes. Na avaliação do UBS, o ouro se encontra em uma fase intermediária a avançada do ciclo, em que novas máximas costumam conviver com correções relevantes, sem que isso interrompa a tendência de longo prazo.

O JPMorgan compartilha dessa visão. Para o banco, a queda recente reflete principalmente um excesso de otimismo e posicionamento no curto prazo, e não uma deterioração dos fundamentos. A instituição ressalta que o ouro segue inserido em um movimento estrutural de realocação de portfólios em direção a ativos reais, em um ambiente de maior incerteza macroeconômica e fiscal.

Na avaliação do JPMorgan, embora o avanço dos preços torne o mercado mais sensível a correções, ainda não há sinais de que o rali estrutural esteja próximo de um colapso.

Volatilidade deve continuar no curto prazo

Apesar da manutenção da tese de longo prazo, analistas concordam que a volatilidade tende a permanecer elevada nos próximos meses. Ajustes técnicos, redução de liquidez e a desalavancagem de posições seguem influenciando o comportamento do metal no curto prazo.

O CIO Group aponta que o pano de fundo geopolítico contribui para esse cenário, indicando que choques de preço mais frequentes e movimentos abruptos devem fazer parte do novo padrão dos mercados globais.

Ainda assim, a expectativa predominante é de retomada da trajetória de alta, sustentada por fatores como compras recorrentes de bancos centrais, fluxo para ETFs lastreados em ouro e a perspectiva de juros reais mais baixos ao longo do tempo.

O UBS projeta um período de consolidação, com o ouro encontrando suporte na faixa entre US$ 4.500 e US$ 4.800 por onça, antes de voltar a subir em direção a aproximadamente US$ 6.200 ao longo de 2026. O JPMorgan adota uma visão ainda mais construtiva e trabalha com preços próximos de US$ 6.300 por onça até o fim do próximo ano.

Como o investidor deve interpretar o movimento

Para os analistas, a principal conclusão é que a correção recente não altera o papel do ouro dentro das carteiras, mas muda a expectativa sobre o ritmo do movimento até novos patamares.

O UBS reforça que o metal não deve ser encarado como um ativo de curto prazo ou de “momentum”, mas como uma proteção estratégica dentro do portfólio. Já o Bradesco BBI avalia que o recuo abre uma janela de oportunidade. Segundo o banco, apesar da volatilidade elevada no curto prazo, a visão segue construtiva, apoiada na manutenção das tensões geopolíticas e no ambiente de desvalorização cambial em diversas economias.

Prata inspira mais cautela

A correção da prata foi ainda mais intensa do que a do ouro, refletindo um mercado que vinha de uma valorização muito acentuada. Antes do recuo, o metal acumulava alta próxima de 250% em base anual.

Diferentemente do ouro, a prata não conta com compras estruturais de bancos centrais, tornando seus preços mais dependentes de fluxos financeiros e da demanda industrial. Para o UBS, os preços atuais já se aproximam de suas estimativas de longo prazo, em torno de US$ 85 por onça, o que limita a atratividade no curto prazo. O JPMorgan também adota postura mais prudente, apontando que a prata tende a manter um piso mais elevado do que em ciclos anteriores, mas com menor assimetria positiva em relação ao ouro.

Visão Bolso do Investidor

A queda recente do ouro representa, até o momento, uma correção dentro de um ciclo ainda sustentado por fatores estruturais. O ambiente de incerteza geopolítica, a busca por diversificação e a perspectiva de juros reais mais baixos seguem favorecendo o metal no longo prazo. Para o investidor, o desafio passa a ser lidar com maior volatilidade no caminho, entendendo que movimentos de ajuste fazem parte de ciclos prolongados de valorização, sem necessariamente indicar uma reversão definitiva de tendência.


Fontes:

  • Infomoney