Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 10 de fevereiro de 2026

A Raízen intensificou o processo de venda de ativos na Argentina após perder o grau de investimento e ver sua situação financeira se deteriorar nos últimos meses. A companhia negocia a alienação de uma refinaria e de centenas de postos de combustíveis no país vizinho, em meio ao aumento do endividamento e à pressão crescente sobre sua liquidez.
Segundo informações de mercado, a compradora mais avançada nas tratativas é a trading global de energia Mercuria Energy Group. O negócio pode superar US$ 1 bilhão, embora ainda não haja contrato assinado e as negociações sigam em caráter reservado.
Os ativos incluem a refinaria Dock Sud, localizada em Buenos Aires, com capacidade de processamento de aproximadamente 101 mil barris por dia, considerada a terceira maior do país. Também fazem parte do pacote cerca de 700 postos de combustíveis, responsáveis por quase um quinto das vendas de gasolina e diesel no mercado argentino.
A decisão de venda ocorre em um momento delicado para a Raízen. As agências Fitch Ratings e S&P Global Ratings rebaixaram a classificação de crédito da empresa para nível especulativo, citando preocupações com a crescente alavancagem financeira e risco de liquidez. Após o corte do rating, títulos da companhia sofreram forte desvalorização no mercado secundário, com perdas expressivas nos preços.
O aumento da dívida está relacionado a um ciclo recente de investimentos pesados, especialmente em projetos de biocombustíveis baseados em resíduos agrícolas, cuja demanda ficou abaixo das expectativas iniciais. A combinação de capex elevado, retorno mais lento e condições financeiras mais restritivas pressionou o balanço da companhia.
Para a Mercuria, a eventual aquisição representaria expansão estratégica no setor de refino sul-americano. A trading já possui operações no país e enxerga oportunidade em um ambiente regulatório mais flexível, após medidas de desregulamentação adotadas pelo governo do presidente Javier Milei, que eliminou controles sobre preços de petróleo e combustíveis.
A Raízen, controlada por Shell e Cosan, havia incorporado esses ativos em 2018 durante um movimento de expansão internacional. Agora, a venda sinaliza uma mudança de foco, com prioridade na redução do endividamento e no fortalecimento do caixa.
Até o momento, nenhuma das empresas envolvidas comentou oficialmente as negociações.
Visão do Bolso do Investidor
A perda do grau de investimento é um divisor de águas para qualquer companhia. O rebaixamento encarece o custo da dívida, reduz o acesso a capital e costuma forçar decisões estratégicas mais duras, como venda de ativos ou reestruturações.
No caso da Raízen, a venda na Argentina parece menos uma escolha de crescimento e mais uma medida defensiva de desalavancagem. Para o investidor, isso acende dois pontos de atenção: a capacidade da empresa de gerar caixa nos próximos anos e o risco de novos desinvestimentos para equilibrar o balanço.
Empresas intensivas em capital, como as do setor de energia, dependem fortemente de disciplina financeira. Quando a alavancagem sobe demais, o mercado rapidamente precifica o risco. Acompanhar indicadores como dívida líquida, geração de caixa operacional e custo médio da dívida passa a ser fundamental antes de qualquer decisão de investimento.
Fontes:
- InfoMoney
