Ações da BYD caem quase 40% e vendas desaceleram enquanto concorrência e fim de subsídios pressionam o mercado de carros elétricos

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 24 de fevereiro de 2026

A fabricante chinesa de veículos elétricos BYD Company, que superou a Tesla, Inc. e se tornou a maior produtora global do segmento, começou a enfrentar um cenário mais desafiador. Apesar da expansão internacional e do rápido crescimento dos últimos anos, investidores passaram a demonstrar cautela com a empresa após queda nas vendas e deterioração das expectativas de lucro.

As ações da companhia acumulam recuo de aproximadamente 40% em relação ao pico registrado em maio do ano passado. O movimento acompanha uma liquidação mais ampla das montadoras chinesas de veículos elétricos, que divulgaram números fracos de vendas no início do ano.

Segundo especialistas do setor, a própria velocidade do crescimento criou um problema estrutural: margens pressionadas, concorrência intensa e um mercado doméstico que começa a se aproximar da saturação.

Queda nas vendas e mercado doméstico mais limitado

Depois de um avanço de 28% em 2025, as entregas de veículos elétricos da BYD em janeiro recuaram cerca de 33% na comparação anual. No mesmo período, as vendas totais de veículos elétricos na China caíram quase 20%, de acordo com a associação da indústria automotiva local.

O crescimento anterior foi impulsionado principalmente por grandes centros urbanos, onde a infraestrutura de recarga é mais desenvolvida. Fora dessas regiões, a adoção ainda é limitada, o que reduz o universo de novos compradores.

Analistas avaliam que a empresa agora enfrenta um novo desafio: transformar compradores ocasionais em clientes recorrentes, criando fidelidade à marca — algo típico das montadoras tradicionais, mas ainda pouco consolidado no setor elétrico.

Fim gradual dos subsídios agrava o cenário

Outro fator relevante é a redução do apoio estatal. Durante anos, o governo chinês isentou os consumidores do imposto de 10% sobre a compra de carros novos. Em 2026, a cobrança foi retomada parcialmente, e a expectativa é de retorno integral após 2027.

A retirada gradual desses incentivos ocorre justamente no momento em que a concorrência aumenta. Em 2025 havia quase 400 modelos de veículos elétricos à venda na China, mais que o dobro de 2019, e mais de 100 deles foram lançados apenas nos últimos dois anos.

Esse excesso de oferta desencadeou uma guerra de preços conhecida no país como “involução”: as empresas reduzem margens e adicionam recursos apenas para permanecer competitivas, mesmo prejudicando a rentabilidade.

Excesso de capacidade e pressão nas margens

A rápida expansão levou as montadoras a construírem fábricas gigantescas. No entanto, a produção não diminui na mesma velocidade quando a demanda desacelera. Estimativas indicam que cerca de 40% da capacidade industrial automotiva chinesa esteja ociosa.

Esse desequilíbrio contribui para a proliferação de novos modelos e para a compressão das margens de lucro. Muitas empresas passaram inclusive a terceirizar a produção em fábricas existentes, aumentando ainda mais a oferta.

Especialistas acreditam que a indústria passará por consolidação: de centenas de fabricantes atualmente, apenas algumas deverão permanecer no longo prazo.

Impacto global e ameaça às montadoras tradicionais

Mesmo sob pressão, as montadoras chinesas continuam sendo uma ameaça aos fabricantes ocidentais. Enquanto empresas americanas reduzem investimentos em veículos elétricos e voltam a priorizar motores a combustão, a China segue avançando na eletrificação.

Tarifas elevadas ainda impedem a entrada massiva dos carros chineses nos Estados Unidos, mas analistas consideram que a expansão internacional é apenas questão de tempo. A BYD já cresce na Europa e na América Latina, abrindo novos mercados fora da China.


Visão Bolso do Investidor

O caso da BYD mostra um ponto importante para investidores: crescimento acelerado nem sempre significa retorno consistente. Empresas de setores em transformação, como veículos elétricos, podem liderar vendas e, ainda assim, sofrer no mercado acionário quando surgem excesso de oferta, queda de margens e aumento de concorrência. Em ciclos tecnológicos, a consolidação costuma ocorrer apenas depois de um período de euforia seguido por pressão financeira nas companhias.


Fontes:

  • InfoMoney
  • The New York Times