Acordo Mercosul–União Europeia tende a impulsionar agro brasileiro mais sustentável, avaliam especialistas

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 09 de janeiro de 2026

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, confirmado nesta sexta-feira pela maioria dos países europeus, tem potencial para beneficiar o agronegócio brasileiro por meio da redução ou eliminação de tarifas. No entanto, os ganhos não devem ser distribuídos de forma homogênea entre os diferentes segmentos do setor, concentrando-se principalmente em empresas que já operam com elevados padrões de sustentabilidade, rastreabilidade e eficiência, segundo especialistas.

De acordo com o consultor de Estratégia e M&A da StoneX, José Luiz Mendes, o acordo não favorece o agronegócio brasileiro como um bloco único. Na avaliação dele, os principais beneficiados serão aqueles agentes que já atuam em conformidade com padrões internacionais e conseguem atender às exigências ambientais, de rastreabilidade e de qualidade impostas pelo mercado europeu.

Mendes destacou que a sustentabilidade continuará sendo um eixo central para a competitividade do setor. Segundo ele, o acordo amplia o acesso do Brasil a um dos mercados mais relevantes do mundo, mas deixa claro que, daqui para frente, competitividade no agro não estará apenas associada a produzir mais ou a custos mais baixos, e sim à combinação entre eficiência produtiva, governança e estratégia empresarial.

A União Europeia é reconhecida por suas exigências ambientais rigorosas. No entanto, o bloco tem adiado a implementação da lei antidesmatamento, que proíbe a importação de produtos como carne bovina, cacau, café, óleo de palma e soja provenientes de áreas desmatadas após 2020. A entrada em vigor da legislação foi postergada de 2025 para o fim de 2026, o que frustrou empresas brasileiras que haviam investido antecipadamente para cumprir as regras e capturar eventuais prêmios de mercado, conforme análise anterior do Rabobank.

O Brasil ocupa posição de destaque no comércio agrícola global, sendo o maior exportador mundial de produtos como soja, açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e carne de frango, além de ter relevância expressiva em diversas outras cadeias do agronegócio.

Segundo Mendes, estudos indicam que o acordo Mercosul–UE pode gerar, no longo prazo, um aumento próximo de 2% na produção do agronegócio brasileiro. Esses ganhos tenderiam a se concentrar em cadeias como pecuária, aves, suínos, óleos e gorduras vegetais. Ele ressaltou, contudo, que os efeitos são graduais, distribuídos ao longo de vários anos, e dependem fortemente da capacidade de execução das empresas.

Gustavo Menon, especialista em Relações Internacionais e Direito Internacional da American Global Tech University (AGTU), concorda com essa avaliação, mas alertou que o acordo também incorpora temas considerados estratégicos, como compromissos ambientais, regras para compras públicas e preferências setoriais específicas. Segundo ele, essa estrutura reflete uma tendência crescente de alinhar comércio internacional e sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, Menon observa que esse enfoque impõe desafios adicionais aos países do Mercosul, que precisarão equilibrar competitividade, adequação regulatória e compromissos ambientais para manter acesso aos mercados europeus.

Setores mais beneficiados
O potencial de ampliação dos negócios é considerado relevante, já que grande parte das exportações agrícolas do Mercosul para a União Europeia contará com algum grau de liberalização tarifária, incluindo uma parcela significativa com tarifa zero. Essa avaliação é compartilhada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), citada em análises da StoneX.

Entre os setores apontados como mais beneficiados estão café solúvel, suco de laranja, frutas frescas, pescados, crustáceos e moluscos. Segundo Mendes, nesses casos, a retirada de tarifas tende a se traduzir diretamente em ganho de margem, aumento de competitividade e maior previsibilidade de acesso ao mercado europeu, onde o Brasil já figura como fornecedor relevante.

As indústrias de carne bovina, aves, suínos, açúcar e etanol também podem se beneficiar, embora de forma mais limitada. Isso porque o acordo prevê cotas para alguns produtos, como determinados cortes bovinos e o etanol, em vez de isenção tarifária irrestrita. Nesse contexto, Mendes avalia que empresas maiores, mais organizadas e com sistemas robustos de rastreabilidade e controle ambiental tendem a capturar a maior parte desses ganhos.

Atualmente, produtos como soja em grão, farelo de soja e milho já não enfrentam barreiras tarifárias para entrar na União Europeia, assim como o café verde, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). Ainda assim, a entidade avalia que o acordo pode trazer benefícios adicionais, como maior previsibilidade, redução de custos operacionais e priorização de produtos brasileiros no mercado europeu, reforçando a competitividade do país.

A Anec também destacou que, quando a lei antidesmatamento europeia entrar em vigor, as importações do bloco seguirão condicionadas não apenas às exigências ambientais, mas também a fatores como preços internacionais, sazonalidade da oferta e logística.

Visão Bolso do Investidor

O acordo Mercosul–União Europeia reforça uma mudança estrutural no comércio internacional do agronegócio, em que acesso a mercados passa a depender cada vez mais de padrões ambientais, governança e rastreabilidade. Para investidores, o cenário favorece empresas que já investiram em eficiência operacional e sustentabilidade, enquanto eleva o risco para produtores menos preparados para atender a exigências regulatórias. No médio e longo prazo, a capacidade de adaptação a esse novo padrão tende a ser determinante para a competitividade do agro brasileiro nos mercados globais.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Reuters