Analistas projetam novos recordes para a Bolsa em 2026, apesar das incertezas sobre Selic e eleições

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 05 de janeiro de 2026

A expectativa de um afrouxamento monetário no Brasil no início de 2026, combinada com a perspectiva de novos cortes de juros nos Estados Unidos, pode dar novo impulso ao Ibovespa nos primeiros meses do ano. Após uma sequência de recordes históricos registrados entre o fim de outubro e o começo de dezembro, analistas ouvidos pela Broadcast avaliam que o principal índice da B3 pode avançar em direção ao patamar inédito de 200 mil pontos, possivelmente ainda na primeira metade de 2026, caso o ambiente eleitoral contribua para esse movimento.

O cenário político, no entanto, tende a provocar uma trajetória marcada por oscilações. Em dezembro, por exemplo, um ruído político inesperado levou o Ibovespa a recuar cerca de 8 mil pontos em um único dia, a partir do nível máximo de 165 mil pontos. O movimento refletiu temores do mercado de que não haveria um candidato da direita com competitividade suficiente na disputa presidencial de 2026.

Entre as preocupações citadas está a possibilidade de a candidatura do senador Flávio Bolsonaro se prolongar além do Carnaval. Na avaliação de analistas, isso poderia enfraquecer a percepção de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, venha a se consolidar como o candidato liberal competitivo. Esse cenário é visto como aquele que teria maior capacidade de enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, em caso de vitória, implementar um ajuste fiscal a partir de 2027 — combinação considerada a mais favorável para uma escalada final do Ibovespa no próximo ano.

Além das incertezas políticas, que prometem manter elevada a volatilidade em 2026, os especialistas destacam a atratividade das precificações do mercado acionário brasileiro. Cálculos indicam que o múltiplo preço sobre lucro (P/L) do Ibovespa está em torno de 9 vezes, abaixo da média observada em outros mercados emergentes, que gira em torno de 12 vezes o lucro estimado. Esse indicador sugere que o índice segue negociado a níveis historicamente baixos.

Mesmo assim, riscos fiscais e políticos podem interferir na continuidade do movimento de alta, apesar da precificação atual. Para Matheus Amaral, especialista em renda variável do Banco Inter, a normalização desses ruídos abriria espaço para uma reprecificação mais elevada. Segundo ele, não seria exagero projetar o índice a 170 mil, 180 mil ou 190 mil pontos, chegando até aos 200 mil pontos, um nível considerado justo do ponto de vista de valuation.

Na mesma linha, a Monte Bravo mantém uma visão construtiva. De acordo com o estrategista-chefe Alexandre Mathias, um ambiente global favorável e a expectativa de queda da Selic a partir de janeiro sustentam a projeção de o Ibovespa buscar 180 mil pontos no primeiro semestre de 2026 e alcançar 225 mil pontos ao final do ano, caso um ajuste fiscal crível prevaleça após as eleições.

O Bank of America também projeta o Ibovespa em 180 mil pontos em 2026, com viés de alta de cerca de 9% em relação à máxima registrada em 2025. A instituição avalia que o enfraquecimento global do dólar tende a favorecer mercados emergentes como o Brasil. Segundo o banco, embora a valorização superior a 30% do índice em 2025 tenha sido impulsionada por fatores globais, a partir de abril ou maio as eleições brasileiras devem ganhar protagonismo como fator de precificação, aumentando a volatilidade dos ativos locais.

No cenário otimista traçado pelo Bank of America, que considera a sinalização futura de um plano fiscal crível, o Ibovespa poderia alcançar 210 mil pontos. Já em um cenário pessimista, o índice poderia recuar para 130 mil pontos, o que representaria uma queda potencial de 18%.

Fator Fed, fator Copom

Outro elemento que sustenta as projeções é a expectativa de juros globais mais baixos, especialmente nos Estados Unidos. Apesar do sinal de cautela emitido no início de dezembro pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), ligado ao Federal Reserve, analistas avaliam que o viés ainda é favorável a cortes de juros, conforme indicado nas declarações do presidente Jerome Powell, cujo mandato se encerra em maio de 2026.

Para Nícolas Merola, analista da EQI Research, o tom do Fed surpreendeu parcialmente, mas ainda há espaço para reduções adicionais. Segundo ele, uma taxa de juros americana mais próxima de 3% tende a ser definida sob uma nova liderança do Fed, possivelmente com perfil mais moderado, no fim do primeiro semestre de 2026.

Enquanto isso, em 10 de dezembro, o Fed cortou os juros pela terceira vez, em 0,25 ponto porcentual, levando a taxa para o intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano. No mesmo dia, o Banco Central do Brasil manteve a Selic em 15% ao ano. Pela quarta reunião consecutiva, o Copom optou por não alterar a taxa básica, adotando um comunicado e uma ata de tom conservador, o que dividiu o mercado quanto ao momento de início do ciclo de cortes. A expectativa inicial apontava para janeiro de 2026, mas, sem sinalização clara em dezembro, a atenção se voltou para março, no fim do primeiro trimestre.

Para Alvaro Bandeira, coordenador de Economia da Apimec Brasil, apesar do discurso mais duro do Banco Central, o mercado brasileiro segue com preços atraentes. Ele destaca que os múltiplos e o valor patrimonial das empresas continuam competitivos, inclusive em comparação com mercados desenvolvidos.

Mesmo sem uma indicação clara do próximo passo do Copom, Matheus Amaral avalia que a trajetória da Selic e o nível a que a taxa poderá chegar ao longo de 2026 serão o principal fator macroeconômico a influenciar o desempenho da Bolsa em um ano marcado por elevada volatilidade eleitoral.

Visão Bolso do Investidor

As projeções para novos recordes do Ibovespa em 2026 refletem a combinação entre expectativas de juros mais baixos, precificações ainda atrativas e um ambiente global potencialmente favorável a mercados emergentes. Ao mesmo tempo, o cenário eleitoral e os riscos fiscais seguem como fatores centrais de volatilidade. Para o investidor, compreender como política monetária, política fiscal e eleições interagem será essencial para avaliar oportunidades e riscos em um ano que tende a ser marcado por movimentos intensos e mudanças rápidas de humor do mercado.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Estadão Conteúdo