Após vitória de Milei, EUA recuam e pedem que mercado privado lidere ajuda à Argentina

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 31/10/2025


Introdução

Após meses de tensão nos mercados e negociações bilionárias entre os Estados Unidos e a Argentina, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou nesta quinta-feira (30) que chegou a hora dos investidores privados assumirem o papel de financiadores da economia argentina. Segundo ele, o apoio dos EUA cumpriu seu objetivo inicial e, a partir de 2026, caberá aos mercados internacionais prover crédito e liquidez ao governo de Javier Milei.
A fala marca uma mudança importante no tom da política norte-americana, sinalizando que Washington deve reduzir o envolvimento financeiro direto com Buenos Aires e deixar o protagonismo para o setor privado.


Desenvolvimento

Em publicação feita no X (antigo Twitter), Bessent afirmou que “os mercados devem atender fácil e entusiasticamente às necessidades de financiamento da República para 2026”, em referência aos US$ 9 bilhões que a Argentina deve pagar a investidores no próximo ano. Ele acrescentou que pretende visitar o país novamente em breve, após a vitória de Milei nas eleições legislativas de meio de mandato — resultado que consolidou o avanço do partido La Libertad Avanza e reduziu a incerteza política.

A declaração sugere que o plano de resgate americano, negociado com bancos de Wall Street no mês passado, foi colocado em segundo plano. O Tesouro havia considerado uma linha de crédito de US$ 20 bilhões, mas o projeto não avançou após o pleito.
Bessent comemorou o resultado e provocou opositores democratas no Congresso americano, afirmando que “a ponte econômica argentina agora gerou lucro para o povo americano”. Ele também ironizou as críticas de senadoras como Elizabeth Warren e Amy Klobuchar, que haviam chamado o pacote de ajuda de “resgate ideológico” ao aliado de Donald Trump.

Até o momento, o Tesouro dos EUA não comentou oficialmente sobre o acordo, e não há menção à linha de swap de US$ 20 bilhões no site do governo americano. A única confirmação veio do Banco Central argentino, por meio de uma nota curta que reconhece o acordo, mas sem detalhar termos ou garantias.

Analistas avaliam que a iniciativa dos EUA foi interpretada mais como um gesto político e de confiança, e não como um resgate financeiro imediato.
“O mercado sempre viu essa linha como um ‘vou ajudar você se você se ajudar’. Agora que Milei venceu e consolidou poder, os investidores enxergam menos risco e maior autonomia para o país”, afirmou Alberto Bernal, estrategista da XP Investimentos.

De fato, o mercado reagiu de forma positiva. Os títulos soberanos argentinos tiveram forte valorização após as eleições e acumulam alta semanal recorde, com os papéis de vencimento em 2035 sendo negociados acima de 69 centavos por dólar, uma melhora de mais de 12 centavos desde o início da semana.

Bessent, que havia atuado em setembro para estabilizar o peso argentino durante uma forte onda de vendas após uma derrota de Milei em eleições regionais, agora parece satisfeito com o desfecho. “O plano cumpriu seu papel”, disse uma fonte próxima ao Tesouro à Bloomberg, indicando que a prioridade de Washington passa a ser o acordo comercial EUA–China, e não novos pacotes de ajuda à América do Sul.

O próprio Milei reagiu à publicação, agradecendo publicamente o secretário americano:

“Esperamos ansiosamente sua chegada e o recebemos de braços abertos. MAGA!”, escreveu o presidente argentino no X, em tom alinhado ao discurso trumpista.


Análise do Bolso do Investidor

A mensagem de Scott Bessent marca um ponto de virada na política financeira entre EUA e Argentina. O recado é claro: o apoio político de Washington permanece, mas o apoio econômico direto será substituído pelo financiamento de mercado. Isso significa que, a partir de 2026, a Argentina dependerá de emissões de dívida soberana e investimentos privados, e não mais de linhas de crédito externas excepcionais.

Para investidores internacionais, o movimento sinaliza maior autonomia fiscal argentina, mas também maior exposição ao risco. O desempenho dos títulos argentinos indica confiança no governo Milei e expectativa de reformas pró-mercado, mas o desafio será sustentar a credibilidade em meio à inflação persistente e à escassez de reservas.
O cenário abre oportunidades de curto prazo para quem busca ganhos com dívida de alto rendimento, embora o risco político e cambial ainda exija cautela.


Fechamento

Com o apoio americano em compasso de espera e a responsabilidade agora nas mãos dos investidores privados, a Argentina entra em uma nova fase de sua política econômica.
A vitória eleitoral de Milei e a postura pragmática dos EUA reacendem o otimismo no mercado, mas também impõem um teste: o país precisará provar que consegue se financiar sozinho.
O resultado desse novo ciclo definirá se o entusiasmo dos investidores será passageiro ou o início de uma verdadeira reconstrução da confiança internacional na economia argentina.


Fontes: Bloomberg; XP Investimentos; Tesouro dos EUA; Banco Central da República Argentina