Apostas esportivas já renderam R$ 6,8 bilhões em impostos — mas governo quer aumentar a taxação

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 30 de outubro de 2025

O mercado de apostas esportivas no Brasil vive um momento de contradição. Enquanto as bets registram arrecadação recorde e o setor se consolida no país, o governo e o sistema financeiro ampliam o cerco às operações ilegais e estudam novos aumentos de impostos.

Segundo dados da Receita Federal, o governo arrecadou R$ 6,8 bilhões em tributos ligados ao setor em 2025 — um salto de cerca de 17.000% em relação ao ano anterior, quando a cifra foi de apenas R$ 38 milhões.
Desse total, R$ 4 bilhões vieram diretamente de impostos sobre operações e licenças, e o restante de repasses obrigatórios ao esporte e programas sociais.

Ainda assim, o debate sobre elevar a tributação volta a crescer em Brasília, acendendo o alerta em um setor que já movimenta bilhões e gera milhares de empregos.

Bancos e governo apertam o cerco contra ilegalidade

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) anunciou que as instituições financeiras passarão a adotar protocolos mais rígidos para identificar e bloquear contas ligadas a bets ilegais.
A medida faz parte de um esforço conjunto do Banco Central e do Ministério da Fazenda para restringir o uso do sistema bancário por operadores não licenciados.

Desde janeiro, a legislação exige que empresas de apostas tenham licença provisória ou definitiva emitida pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Ainda assim, o mercado ilegal responde por cerca de 40% das apostas no país, segundo estimativas do setor.

Além de fraudar os cofres públicos ao não recolher impostos, o mercado ilegal coloca os apostadores em risco, sem proteção de dados e sem regras claras”, afirma Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias.

Arrecadação recorde e impacto no esporte

O setor legalizado já mostra força econômica. No primeiro semestre de 2025, as casas de apostas destinaram R$ 773,9 milhões ao esporte brasileiro, beneficiando o Ministério do Esporte, o Comitê Olímpico e o Comitê Paralímpico Brasileiro.

O setor impactou positivamente o país com geração de empregos, investimentos no esporte e bilhões em tributos”, afirma Alex Rose, CEO da empresa internacional de tecnologia InPlaySoft.

O crescimento também transformou o futebol nacional. Todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro possuem contratos com empresas de apostas — e em 90% dos casos essas companhias são patrocinadoras principais.
O maior contrato do país é o do Flamengo com a Betano, avaliado em cerca de R$ 268 milhões anuais.

Governo quer elevar alíquota de 12% para até 24%

Apesar dos números expressivos, o governo federal discute aumento da tributação sobre o setor.
A lei aprovada no fim de 2023 fixou alíquota de 12% sobre o faturamento das casas de apostas.
Em junho, a Fazenda propôs elevar o percentual para 18%, mas a proposta foi retirada da MP 1.303 após resistência no Congresso.

Pouco depois, o líder do governo, Lindbergh Farias (PT-RJ), apresentou nova proposta — desta vez sugerindo 24% de imposto sobre as operações.

A elevação da taxação poderia destruir o setor das apostas esportivas no Brasil. Seria um sinal de insegurança jurídica e de desconhecimento sobre a dinâmica do mercado”, alerta Cavalcanti Freire.

De acordo com levantamento da LCA Consultores, o país deixou de arrecadar entre R$ 1,8 bilhão e R$ 2,7 bilhões apenas no segundo trimestre de 2025 devido à atuação de sites ilegais.
O estudo revela ainda que 78% dos apostadores têm dificuldade para identificar plataformas regulares, e quase metade já depositou dinheiro em sites falsos.

Combate à clandestinidade e papel dos bancos

Para especialistas, o foco deveria ser no combate à ilegalidade, e não no aumento de impostos.

Se o objetivo é aumentar a arrecadação, a medida mais eficiente seria eliminar o mercado ilegal. Isso poderia dobrar a receita do setor e proteger o consumidor”, defende Marcos Sabiá, CEO da Galerabet.

Empresas de tecnologia financeira também passaram a atuar na linha de frente do combate.

Sem meios financeiros, as operações clandestinas perdem força. A regulamentação foi um marco, e permitir que esse avanço seja comprometido seria um retrocesso”, afirma João Fraga, CEO da fintech Paag.

Visão do Bolso do Investidor

O setor de apostas esportivas tornou-se um importante gerador de receita e investimento no país, mas o avanço de novas propostas de taxação pode comprometer sua competitividade.
O movimento do governo de elevar alíquotas sem atacar o mercado ilegal reforça a percepção de que a prioridade é arrecadatória, e não de eficiência regulatória.

Para investidores e empresas, o cenário sugere aumento do risco jurídico e regulatório — o que pode afastar novos players e favorecer novamente a clandestinidade, reduzindo o potencial arrecadatório que o setor demonstra ter.

Conclusão

O governo conseguiu arrecadar bilhões com a regulamentação das apostas, mas o desafio agora é equilibrar arrecadação, competitividade e segurança.
Entre um Estado que busca mais receita e um mercado que pede previsibilidade, o futuro das bets no Brasil dependerá da capacidade de o país consolidar um modelo sustentável e transparente.



Fontes:

  • InfoMoney