Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 03 de dezembro de 2025

A Argentina iniciou os preparativos para retornar ao mercado internacional de títulos após anos de exclusão decorrentes de sucessivos calotes. Autoridades ligadas ao Ministério da Economia avaliam que o país está mais próximo do que nunca de recuperar o acesso ao crédito externo e trabalham com a expectativa de realizar uma nova emissão já no início de 2026, caso as condições continuem favoráveis. Fontes envolvidas nas discussões afirmam que o otimismo atual representa uma reviravolta notável em relação ao clima de instabilidade observado apenas dois meses atrás.
Em setembro, a combinação de incerteza política e receio de retrocessos no programa fiscal do presidente Javier Milei desencadeou forte tensão nos mercados. O peso argentino perdeu valor rapidamente e os rendimentos dos títulos em dólar ultrapassaram dezessete por cento, níveis que forçaram o governo Trump a oferecer apoio financeiro emergencial para conter a pressão vendedora. O temor, à época, era de que a oposição no Congresso neutralizasse o plano de ajuste defendido por Milei.
A situação mudou após as eleições legislativas de outubro. O partido do presidente ampliou sua presença no Congresso, surpreendendo analistas e diminuindo o risco de bloqueio político. A percepção de maior estabilidade se refletiu nos mercados: os rendimentos dos títulos recuaram para perto de dez por cento, patamar que Luis Caputo, ministro da Economia, considera aceitável para uma nova emissão de dívida soberana.
O país está fora do mercado internacional desde o calote declarado no auge da pandemia, marcando o terceiro episódio de inadimplência neste século. Recuperar o acesso aos investidores globais é uma das prioridades da equipe econômica. Uma emissão bem-sucedida no próximo ano permitiria reforçar reservas cambiais e cumprir obrigações externas relevantes, incluindo cerca de quatro vírgula cinco bilhões de dólares que vencem em janeiro e outro volume similar previsto para julho.
Para gestores especializados em mercados emergentes, o momento para a Argentina voltar a captar está se aproximando. Gorky Urquieta, da Neuberger Berman, afirmou que rendimentos abaixo de dez por cento representam um “número mágico” para a volta do país aos mercados. A equipe argentina, paralelamente, discute com bancos internacionais diferentes formatos para reduzir spreads e facilitar a aceitação da oferta.
Entre as alternativas em estudo estão operações de recompra que funcionariam como incentivo financeiro aos investidores durante eventuais trocas de dívida, uso de “repos” com garantias baseadas em títulos de importadores para levantar até cinco bilhões de dólares destinados aos compromissos de janeiro, além de estruturações semelhantes às operações ambientais adotadas pelo Equador, mas voltadas para iniciativas educacionais.
Em evento realizado em Buenos Aires, Caputo reforçou que o governo está mais confiante do que nunca na perspectiva de retorno ao mercado internacional. Ele também informou que a Argentina recebeu propostas de bancos que somam entre seis e sete bilhões de dólares e avalia quanto captar para evitar que as reservas sejam pressionadas pelas amortizações de curto prazo.
Apesar de a Argentina já poder lançar títulos imediatamente, o governo prefere aguardar uma janela mais favorável, na expectativa de uma compressão adicional de cem a cento e cinquenta pontos-base na curva de juros. A equipe econômica acredita que reformas trabalhistas e tributárias, cuja tramitação no novo Congresso começa em dez de dezembro, podem ajudar a melhorar o apetite dos investidores. Se aprovadas, essas medidas devem fortalecer a percepção de disciplina fiscal e aumentar as chances de custos mais próximos de sete a oito por cento, faixa que grandes empresas argentinas já conseguem acessar.
O mercado vem dando sinais claros de que a demanda por ativos argentinos ressurgiu. Desde a eleição de outubro, empresas e governos locais colocaram mais de quatro bilhões de dólares em novos títulos, número muito superior aos cento e trinta milhões emitidos nos três meses anteriores. A Vista Energy, empresa de petróleo e gás, pretende realizar captação nesta semana. Diversas províncias, como Santa Fe e Chubut, também iniciaram conversas com investidores para futuras emissões. Caso a Argentina consiga amortizar integralmente os títulos com vencimento em 2029 e 2030, até emissores mais arriscados, como a província de Chaco, podem voltar ao radar.
Os planos de Caputo para emitir nova dívida eram vistos com ceticismo no início de 2024, quando parte dos títulos argentinos rendia cerca de vinte por cento ao ano. Hoje, mesmo com um ambiente mais favorável, analistas alertam que o país ainda enfrenta entraves importantes. Entre os desafios está a necessidade de recompor reservas internacionais, o que exigiria maior compra de dólares, um movimento considerado improvável por causa do regime cambial defendido por Milei.
Em relatório recente, Ivan Stambulsky e Jason Keene, do Barclays, avaliaram que, mesmo com operações de recompra em andamento, renegociação dos títulos de 2029 e 2030 e eventual retomada do acesso ao mercado, a Argentina ainda precisará adquirir dólares de forma significativa para garantir liquidez sustentável. Segundo os analistas, esse esforço não deve ocorrer enquanto o atual modelo cambial permanecer intocado.
O histórico recente ajuda a contextualizar a cautela. No último retorno da Argentina aos mercados internacionais, o país protagonizou uma das maiores operações da história para um emergente, vendendo dezesseis vírgula cinco bilhões de dólares em títulos em apenas um dia, com demanda que superou sessenta e oito bilhões de dólares. Outras doze operações se seguiram, incluindo um controverso título de cem anos. A trajetória culminou em novo calote, reforçando o desafio do país em equilibrar financiamento externo e sustentabilidade fiscal de longo prazo.
Visão Bolso do Investidor
A movimentação da Argentina ilustra como fatores políticos, credibilidade fiscal e percepção de risco influenciam diretamente a capacidade de financiamento de um país. Para o investidor brasileiro, acompanhar esse processo ajuda a entender ciclos de mercados emergentes, avaliar oportunidades em renda fixa internacional e interpretar assimetrias de risco em economias com histórico de volatilidade.
Fontes:
- Bloomberg
- InfoMoney
