Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 23 de janeiro de 2026

Auditorias independentes emitiram alertas relevantes sobre a falta de documentação que comprove o chamado “valor justo” de um fundo de investimento que adquiriu parte da participação de dois irmãos do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, no resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no Paraná.
Segundo relatórios de auditoria, houve ausência de documentos e de demonstrações contábeis capazes de comprovar adequadamente o patrimônio do fundo. Nas demonstrações financeiras mais recentes, referentes ao período de dezembro de 2024 a maio de 2025, o fundo declara um patrimônio líquido de R$ 34,6 milhões. No entanto, os auditores afirmam não ter conseguido validar esses números.
Diante dessa limitação, os profissionais emitiram uma chamada “abstenção de opinião”, modalidade utilizada quando não é possível confirmar a veracidade das informações apresentadas, seja por falta de dados suficientes ou por dificuldades no acesso às informações necessárias.
Em um dos relatórios, a auditoria registra que não teve acesso ao laudo de avaliação do empreendimento ao “valor justo”. Como consequência, afirma o documento, não foi possível concluir de forma satisfatória sobre a adequação do saldo apresentado nas demonstrações financeiras, nem sobre eventuais distorções que poderiam impactar os resultados divulgados.
As mesmas ressalvas e a emissão de abstenção de opinião aparecem de forma recorrente em balanços referentes aos períodos de dezembro de 2023 a maio de 2024, dezembro de 2022 a maio de 2023 e dezembro de 2021 a maio de 2022, indicando um histórico contínuo de limitações na verificação dos dados contábeis do fundo.
Situação incomum em auditorias
A abstenção de opinião é considerada uma situação incomum em auditorias independentes e só não é mais grave do que a chamada opinião adversa, emitida quando os auditores têm convicção de que informações relevantes estão incorretas ou distorcidas.
O fundo em questão foi criado em 2021 e era administrado pela Reag, gestora que passou a ser investigada por supostas fraudes envolvendo o Banco Master no âmbito da Operação Compliance Zero. Posteriormente, a Reag teve sua liquidação decretada pelo Banco Central do Brasil.
Viagens oficiais e custos com segurança
O resort Tayayá também aparece em registros relacionados a despesas públicas. Dados do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região indicam o pagamento de diárias para equipes de segurança que prestam apoio a ministros do STF durante viagens à região.
Os registros apontam 128 dias de deslocamentos entre 2022 e 2025, incluindo feriados, finais de semana prolongados e períodos de recesso do Judiciário. O custo total dessas diárias somou R$ 460 mil. Segundo o TRT-2, as viagens ocorreram a pedido do STF para garantir a segurança de autoridades da Corte, mas o tribunal não informa qual ministro foi atendido em cada ocasião.
Resort no centro de crise institucional
Situado à beira de uma represa e classificado como um destino de luxo, o resort Tayayá passou a ocupar posição central em uma crise política e institucional relacionada à atuação de Toffoli nas investigações envolvendo o Banco Master, cuja liquidação extrajudicial foi decretada pelo Banco Central em novembro de 2025.
O ministro é relator do inquérito que investiga o banco e atinge diretamente Daniel Vorcaro, controlador da instituição.
Reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo e pelo Estado de S.Paulo revelaram que o cunhado de Vorcaro, o pastor e empresário Fabiano Zettel — alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal na semana passada — estaria por trás de uma rede de fundos de investimento geridos pela Reag.
Segundo essas reportagens, por meio de um desses fundos, Zettel adquiriu, em 2021, parte da participação de dois irmãos de Dias Toffoli no resort Tayayá. À época da transação, essa participação foi avaliada em R$ 6,6 milhões.
Com a operação, a Maridt, empresa pertencente aos irmãos do ministro, passou a ter o fundo ligado a Zettel como principal sócio. Naquele período, um dos irmãos de Toffoli exercia a função de administrador do resort.
Visão Bolso do Investidor
O caso evidencia a importância da transparência e da governança na estruturação de fundos de investimento, especialmente quando envolvem ativos ilíquidos, como empreendimentos imobiliários e resorts de luxo.
A recorrência de abstenções de opinião em auditorias independentes é um sinal de alerta relevante para investidores, reguladores e o próprio mercado. Sem documentação adequada, laudos de avaliação consistentes e demonstrações contábeis verificáveis, torna-se impossível aferir corretamente riscos, patrimônio e valor econômico real dos ativos.
Além do aspecto financeiro, o episódio amplia o debate sobre conflitos de interesse, imparcialidade institucional e credibilidade das investigações em curso, especialmente quando há interseção entre agentes públicos, fundos privados e instituições financeiras sob apuração.
Para o investidor, o caso reforça uma lição essencial: ativos sofisticados e estruturas complexas exigem diligência redobrada, leitura crítica dos relatórios e atenção aos pareceres de auditoria — muitas vezes, é nesses detalhes técnicos que os maiores riscos ficam evidentes.
Fontes:
- InfoMoney
- Agência O Globo
