Avanço da IA reacende debate: estamos entrando na era do desemprego causado por robôs?

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 26 de novembro de 2025

No ano passado, durante um evento de imprensa, o diretor de tecnologia da Amazon Robotics, Tye Brady, afirmou à Fortune que a ideia de uma disputa entre humanos e robôs dentro dos centros de distribuição da Amazon era um “mito”. Segundo ele, as máquinas desenvolvidas pela empresa têm como propósito ampliar a capacidade humana, uma visão de robôs colaborativos que trabalham ao lado de funcionários, e não em substituição a eles.

Cerca de seis meses depois, Brady voltou ao tema durante entrevista na conferência Fortune Brainstorm AI, em Londres, onde apresentou o Vulcan, o primeiro robô da Amazon com “sentido do tato”. O sistema é capaz de executar grande parte das tarefas mais comuns nos armazéns, como separação e armazenamento, atividades hoje desempenhadas majoritariamente por trabalhadores humanos. Por enquanto, o Vulcan atua apenas em algumas unidades e lida com itens localizados nas prateleiras superiores e inferiores das estruturas móveis de quatro níveis; o restante continua sob responsabilidade dos funcionários.

Durante essa conversa, Brady foi questionado sobre o futuro da força de trabalho da empresa. Se um armazém hipotético com 1.000 funcionários poderia operar com menos trabalhadores à medida que a automação avançasse, ele foi categórico: “Não”. Segundo ele, mais robôs significariam mais pedidos processados, mais vendas por funcionário e mais situações excepcionais que exigiriam intervenção humana — incluindo funções de supervisão e reparo das próprias máquinas, que tendem a ser melhor remuneradas.

Apesar dessa visão, reportagens recentes trouxeram dúvidas. Uma investigação do The New York Times, baseada em memorandos internos, citou planos da Amazon para automatizar cerca de 75% das operações, o que poderia resultar na eliminação da necessidade futura de contratar aproximadamente 600 mil trabalhadores. A empresa contestou a interpretação, afirmando que os documentos refletiam apenas a visão de uma equipe interna.

A repercussão foi imediata e intensa nas redes sociais, alimentando temores sobre a substituição de empregos humanos por sistemas automatizados. De fato, descobrir se haverá postos de trabalho suficientes no futuro, em um contexto de expansão acelerada da IA e da robótica, tornou-se uma preocupação central entre trabalhadores, economistas e líderes empresariais.

Estatísticas mostram que os armazéns da Amazon empregam hoje menos pessoas por instalação do que em qualquer outro momento dos últimos 16 anos, segundo análise do Wall Street Journal. Em paralelo, a empresa anunciou recentemente uma grande rodada de cortes: cerca de 14 mil funcionários corporativos, aproximadamente 4% de sua força de escritório, foram demitidos. O objetivo oficial da reestruturação é reduzir burocracia, eliminar camadas e redirecionar recursos, mas o movimento foi amplamente interpretado como consequência direta dos avanços da IA.

Essa percepção ganhou força após o próprio CEO Andy Jassy afirmar, em junho, que o uso crescente de IA interna tende a reduzir a força de trabalho corporativa com o tempo. Relatórios de imprensa também sugerem que uma nova rodada significativa de demissões deve ocorrer em janeiro, após o pico de vendas do fim de ano.

Paralelamente, a Amazon investe dezenas de bilhões de dólares em data centers e infraestrutura de computação para IA, tanto para uso interno quanto para atender clientes corporativos. Apesar disso, especialistas afirmam que é simplificação excessiva atribuir exclusivamente à IA as demissões recentes, uma vez que a substituição completa de trabalhadores humanos ainda não ocorreu em larga escala.

Ainda assim, está claro que o trabalho está passando por uma transformação profunda, e os impactos se estendem tanto a funções operacionais quanto corporativas. Embora o avanço tecnológico seja empolgante para alguns, também gera insegurança em muitos trabalhadores que temem pela estabilidade de seus cargos.

Vale lembrar que as condições históricas de trabalho em armazéns da Amazon já eram motivo de críticas, como relatos de atividades repetitivas, exaustivas e perigosas, além de ambientes de alta pressão. Em alguns momentos, diretrizes operacionais colocaram produtividade e atendimento ao cliente acima do bem-estar dos funcionários, segundo relatos de trabalhadores entrevistados ao longo dos anos.

A automação trouxe efeitos mistos: eliminou longas caminhadas diárias exigidas dos funcionários, mas também aumentou metas e ritmos de trabalho em algumas funções, elevando o risco de lesões musculoesqueléticas. Para muitos, resta a dúvida: a automação aliviará cargas e abrirá novas oportunidades ou reduzirá drasticamente as vagas disponíveis?

Em resposta aos desafios, a Amazon anunciou em outubro um programa de US$ 2,5 bilhões voltado à educação e requalificação de trabalhadores, com o objetivo de preparar ao menos 50 milhões de pessoas para o “futuro do trabalho”.

A discussão, no entanto, vai muito além da Amazon. Todas as empresas enfrentam o dilema de como melhorar eficiência e atendimento ao cliente sem descartar por completo sua força de trabalho. Existe também um risco macroeconômico: se a automação avançar rápido demais e expulsar grande parcela dos trabalhadores, a queda de renda e consumo poderá superar os ganhos de produtividade.

No final, trabalhadores humanos não são apenas força de trabalho, são também consumidores, e a economia depende de sua capacidade de continuar comprando bens e serviços.


Visão Bolso do Investidor

O debate sobre a automação e seus impactos no mercado de trabalho é central para entender a dinâmica econômica dos próximos anos. A expansão da IA e da robótica tende a elevar a produtividade e reduzir custos operacionais, mas também pode criar pressões significativas sobre o emprego, principalmente em funções repetitivas e operacionais. Para investidores, é importante acompanhar como as empresas equilibram eficiência e sustentabilidade social, bem como quais setores se beneficiam mais da automação e quais podem sofrer ajustes. Do ponto de vista macroeconômico, o ritmo de adoção tecnológica será determinante para evitar desequilíbrios entre produção e capacidade de consumo, preservando o crescimento econômico de longo prazo.


Fontes:

  • Infomoney
  • Furtune