Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 02 de fevereiro de 2026

O bitcoin iniciou fevereiro pressionado após encerrar janeiro em queda acentuada, acumulando a quarta baixa mensal consecutiva, a pior sequência desde o período de 2018–2019, quando a criptomoeda atravessou um longo mercado de baixa. Ao final do mês passado, o ativo era negociado em torno de US$ 78,5 mil, com recuo superior a 10% apenas em janeiro.
A intensificação das perdas ocorreu nos últimos dias do mês, quando o mercado passou a reavaliar expectativas sobre juros e liquidez global após a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve. A leitura predominante foi de que o movimento pode sinalizar uma política monetária menos tolerante a estímulos prolongados, pressionando ativos sensíveis à liquidez.
Segundo análises divulgadas pela Coinbase, a reação negativa não ficou restrita às criptomoedas. Ativos tradicionalmente vistos como proteção também sofreram volatilidade, mas com uma diferença relevante de comportamento em relação ao bitcoin.
Ouro sobe, corrige, e o bitcoin não cumpre papel defensivo
Parte do desconforto dos investidores veio da comparação direta com o ouro. O metal precioso vinha acumulando ganhos consistentes no início do ano, impulsionado por tensões geopolíticas e busca por proteção. No fim de janeiro, no entanto, o ouro também passou por uma realização forte, com queda próxima de 11% em um único pregão.
Ainda assim, o bitcoin não conseguiu se firmar como alternativa defensiva no curto prazo. Não acompanhou a alta do ouro e sofreu quedas adicionais justamente durante a correção do metal, reforçando a percepção de que, em momentos de estresse, a criptomoeda ainda se comporta como ativo de risco.
Para Karim Nabil, analista da gestora suíça 21Shares, o movimento reflete diferenças estruturais na forma como os investidores enxergam cada ativo.
“O processo de busca por proteção está aparecendo primeiro no ouro, não no bitcoin. O choque dominante agora é geopolítico e fiscal, e não apenas monetário. Em crises, o capital historicamente corre para o ouro”, afirmou em entrevista ao InfoMoney.
Segundo ele, o ouro ainda carrega uma percepção de segurança construída ao longo de séculos, enquanto o bitcoin segue sendo tratado como um ativo mais líquido e, portanto, mais suscetível a vendas em momentos de estresse.
Bitcoin ainda é tratado como ativo de risco
A avaliação é compartilhada por outros analistas do setor. Para Yoandris Rives Rodríguez, gerente regional da B2BINPAY na América Latina, o principal desafio do bitcoin hoje não está apenas no preço, mas na forma como o mercado o classifica.
“O bitcoin ainda é visto como ativo de risco. Ouro e prata são considerados portos seguros. Enquanto essa percepção não mudar, a criptomoeda tende a reagir junto com ativos especulativos, não como proteção”, afirma.
Segundo Rodríguez, apesar dos avanços regulatórios e do maior interesse institucional, a virada de chave depende de um ambiente macroeconômico mais favorável, com juros mais baixos e maior liquidez global.
Bitcoin e ouro realmente se movem juntos?
Após a alta do ouro no início do ano, ganhou força a tese de que o movimento poderia antecipar uma recuperação do bitcoin. Essa relação, no entanto, é questionada por análises estatísticas.
David Duong, chefe global de research da Coinbase, afirma que não há evidência consistente de que o ouro funcione como indicador antecedente confiável para o bitcoin.
“Quando testamos diferentes janelas de tempo, a correlação não se sustenta de forma estável. Em alguns períodos os ativos até se movem juntos, mas isso não é suficiente para virar estratégia previsível”, destacou.
A investidora Cathie Wood reforçou esse ponto em publicação recente. Segundo ela, desde 2020 a correlação entre o preço do bitcoin e do ouro gira em torno de 0,14, considerada estatisticamente baixa.
O que pode destravar uma recuperação
Apesar da sequência negativa, analistas evitam um diagnóstico estruturalmente pessimista. Avaliações institucionais indicam que os fundamentos de longo prazo do bitcoin permanecem intactos, mas o desempenho no curto prazo segue altamente dependente do cenário macroeconômico.
Entre os fatores que podem ajudar a destravar uma recuperação estão:
- melhora das condições globais de liquidez,
- redução do custo de oportunidade com eventual queda dos juros,
- avanços regulatórios nos Estados Unidos,
- retomada do apetite por risco nos mercados financeiros.
Em relatório recente, a gestora ChinaAMC, que administra mais de US$ 275 bilhões, destacou que o bitcoin continua sensível a choques de liquidez, mas tende a se beneficiar quando políticas monetárias mais acomodatícias voltarem ao centro do debate.
A incerteza agora está na postura futura do Federal Reserve sob a liderança de Warsh: se manterá uma linha mais restritiva ou se ajustará o discurso diante de um eventual enfraquecimento econômico.
Visão Bolso do Investidor
O momento atual reforça que o bitcoin ainda não se consolidou como porto seguro em cenários de estresse global. No curto prazo, o ativo segue negociado como risco, altamente sensível a juros, liquidez e fluxo. Para o investidor, isso exige clareza de horizonte: quem opera ciclos curtos precisa lidar com volatilidade elevada; quem pensa no longo prazo deve aceitar que a tese estrutural pode conviver com períodos prolongados de correção. A maturidade do mercado cripto ainda está em construção, e o comportamento recente deixa isso evidente.
Fontes:
- InfoMoney
