Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 07 de janeiro de 2026

O Bradesco (BBDC4), um dos maiores bancos privados do país, atravessa um processo de recuperação operacional que vem surpreendendo positivamente o mercado financeiro. Segundo Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital, a condução do CEO Marcelo Noronha, que assumiu o comando da instituição em novembro de 2023, tem sido determinante para a retomada da trajetória de crescimento e eficiência, movimento que deve se estender ao longo de 2026.
Desde a mudança na liderança, o banco passou a apresentar melhora contínua em seus resultados financeiros, com destaque para o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE). Após um período de estagnação, o indicador voltou a se aproximar de 15%, atingindo 14,6% no terceiro trimestre de 2025. A recuperação do ROE é vista como um sinal relevante de que o processo de turnaround vem ganhando consistência.
Apesar do avanço, o desempenho do Bradesco segue condicionado ao ambiente macroeconômico, que influencia diretamente a atividade de crédito, o nível de inadimplência e a rentabilidade do sistema financeiro. A avaliação é que, mantidas as diretrizes atuais, o banco tende a seguir ampliando ganhos de eficiência operacional, aprimorando o controle de riscos e avançando na digitalização, fatores que podem sustentar uma evolução adicional dos retornos ao longo dos próximos trimestres.
Turnaround, eficiência operacional e digitalização
De acordo com o gestor, o Bradesco tem direcionado esforços relevantes para ganhos de eficiência, especialmente no segmento corporativo, uma de suas principais frentes de atuação. A digitalização aparece como pilar central dessa estratégia, com investimentos em automação de processos, redução de custos e melhoria da experiência dos clientes.
Entre as medidas adotadas está a diminuição de custos operacionais por meio da redução do número de agências físicas. Parte dessas unidades vem sendo transformada em pontos de atendimento mais enxutos, adequados ao crescimento do atendimento digital. Essa mudança contribui para a redução de despesas fixas e acompanha uma tendência estrutural do setor bancário, em que os canais digitais ganham protagonismo.
Outro ponto destacado é o aprimoramento do controle da inadimplência, sobretudo nas carteiras de crédito consideradas mais arriscadas, como aquelas voltadas a pequenas e médias empresas — segmento no qual o Bradesco possui maior exposição. Uma gestão de risco mais rigorosa tem permitido ao banco alcançar um retorno ajustado ao risco mais saudável, aspecto considerado fundamental em um cenário marcado por juros elevados e incertezas econômicas.
Sensibilidade macroeconômica e perspectivas para as ações
A forte sensibilidade do Bradesco ao ciclo macroeconômico brasileiro é um fator central na análise das perspectivas para 2026. O banco é particularmente impactado por mudanças na política monetária e pela evolução da inadimplência, especialmente em um ambiente de taxa Selic elevada, atualmente em torno de 15%.
Essa característica faz com que o Bradesco seja visto como o banco mais sensível às condições econômicas domésticas entre os grandes players do setor. Em cenários favoráveis, com queda dos juros e melhora da atividade econômica, a instituição tende a capturar benefícios de forma mais intensa, refletindo em resultados financeiros mais robustos e potencial valorização das ações. Em contrapartida, em ambientes adversos, essa mesma sensibilidade pode resultar em maior volatilidade e desafios operacionais.
No que diz respeito ao valuation, as ações do Bradesco são negociadas a múltiplos considerados atrativos. O preço sobre valor patrimonial gira em torno de 1,2 vez, enquanto o múltiplo preço sobre lucro varia entre 7 e 7,5 vezes, a depender da metodologia utilizada. Esses números indicam que, mesmo diante das incertezas macroeconômicas, o papel ainda apresenta uma relação risco-retorno interessante para investidores com horizonte de longo prazo.
A expectativa é que o retorno sobre o capital do banco possa avançar para níveis próximos de 20% nos próximos trimestres ou semestres. No entanto, o momento exato dessa evolução permanece incerto e dependerá da continuidade do turnaround, da trajetória da economia brasileira e da capacidade do banco de manter disciplina na gestão de custos e riscos.
Visão Bolso do Investidor
O caso do Bradesco ilustra como mudanças de gestão, foco em eficiência e disciplina na alocação de capital podem alterar a percepção do mercado sobre grandes instituições financeiras. Para o investidor, acompanhar a evolução do ROE, o controle da inadimplência e a sensibilidade ao ciclo de juros será essencial para avaliar se o turnaround se consolida em 2026. Em um cenário de possível inflexão monetária ao longo do ano, bancos mais expostos ao ciclo doméstico tendem a apresentar maior volatilidade, mas também maior potencial de captura de valor caso o ambiente econômico se torne mais favorável.
Fontes:
- Infomoney
