Brasil atrai mineradoras de criptomoedas ao aproveitar energia excedente e parcerias renováveis

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 11/10/2025

O Brasil começa a emergir como destino promissor para fazendas de mineração de criptomoedas, aproveitando seu excedente de energia limpa e a oportunidade de criar sinergias entre setores elétrico e digital. Embora a atividade ainda seja incipiente no país, sua escalabilidade e flexibilidade tornam-na interessante para resolver um problema já crônico no setor energético nacional.

Com ampla capacidade de geração renovável — especialmente solar e eólica — o país acumula casos em que usinas chegam a desperdiçar até 70% da energia produzida, por limitações na transmissão ou ausência de demanda imediata. Nesse contexto, mineradoras veem no Brasil um ambiente em que sua operação pode consumir esse excedente em horários de baixa carga, sem pressionar a rede nos períodos de pico.

A Tether, instituição global de criptoativos, já anunciou intenção de usar a recém-adquirida Adecoagro para minerar bitcoin com fontes renováveis — aproveitando o modelo agrícola-energético brasileiro. Paralelamente, a empresa energética Renova confirmou estar projetando um investimento de US$ 200 milhões para criar infraestrutura de mineração no Estado da Bahia. O projeto contempla data centers de 100 megawatts, suportados por um parque eólico existente.

Segundo executivos envolvidos nas negociações, o Brasil oferece vantagens estruturais para essa operação: já conta com infraestrutura renovável madura, acordos com geradoras em curso e possibilita que mineradoras escalem suas operações conforme a oferta energética local. A Enegix, mineradora com operações no Cazaquistão, indicou que pretende desenvolver unidades “móveis” conectadas diretamente a usinas no Nordeste brasileiro.

A empresa Penguin, sediada no Paraguai, também mostra interesse em atuar no Brasil, embora ainda não tenha divulgado maiores detalhes do plano. A gigante de equipamentos Bitmain, por sua vez, demonstra cautela, mantendo diálogo sobre possibilidade de ampliação para o país.

Geradoras locais enxergam na mineração criptográfica uma saída para monetizar energia que não está sendo aproveitada. Empresas como Casa dos Ventos (em parceria com a TotalEnergies) e Atlas Renewable Energy já manifestaram interesse em integrar operações de mineração em seus portfólios. Da mesma forma, subsidiárias da Engie e a Auren Energia estariam estudando modelos em que atuariam como provedoras de serviços para mineradoras.

Na Bahia, a estatal Eletrobras experimenta integrar equipamentos ASIC (voltados à mineração) em uma microrrede híbrida, composta por turbinas eólicas, painéis solares e sistemas de armazenamento. O projeto piloto busca entender viabilidade técnica e comercial da mineração integrada à geração distribuída.

Entretanto, desafios importantes permanecem. Há preocupações com o uso intensivo de água em sistemas de refrigeração usados pelas fazendas de mineração — questão delicada especialmente em regiões que sofrem estiagens. A infraestrutura de transmissão também é um gargalo: a oferta energética muitas vezes supera a capacidade de escoamento. Além disso, o país carece de regulamentação específica e clara para atividades de mineração de criptomoedas.

Se esses obstáculos forem superados, a movimentação de mineradoras no Brasil pode impulsionar desenvolvimento tecnológico local, gerar demanda por equipamentos e estimular novos modelos de consumo energético. Resta saber — e acompanhar — como essas iniciativas evoluirão nos próximos meses.


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