China rompe marca histórica de US$ 1 trilhão em superávit comercial e intensifica tensões globais

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 9 de dezembro de 2025

O superávit comercial de bens da China ultrapassou pela primeira vez a marca de 1 trilhão de dólares neste ano, evidenciando a posição dominante que o país consolidou ao longo das últimas décadas em setores que vão de veículos elétricos e semicondutores a produtos de baixo custo amplamente consumidos no mundo. Nos primeiros onze meses do ano, as exportações aumentaram 5,4% em relação ao mesmo período de 2024, alcançando 3,4 trilhões de dólares, enquanto as importações recuaram 0,6%, somando 2,3 trilhões de dólares. O saldo final de 1,08 trilhão de dólares, divulgado nesta segunda-feira pela Administração Geral de Aduanas, representa o maior superávit comercial registrado na história econômica mundial.

Esse marco reflete décadas de políticas industriais e um avanço contínuo que levou a China, ainda agrária e pobre no fim dos anos 1970, à posição de segunda maior economia global. A ascensão começou com a fabricação de produtos simples nas décadas de 1980 e 1990, o que rendeu ao país a alcunha de “chão de fábrica do mundo”. Mas o movimento evoluiu rapidamente, com investimentos pesados que transformaram a China em protagonista nas cadeias globais de suprimentos, abrangendo tecnologia, transporte, medicina e bens de consumo.

De manufatura básica à liderança em tecnologia de ponta

Nos últimos anos, empresas chinesas passaram a dominar setores estratégicos como painéis solares, veículos elétricos e componentes essenciais da indústria de semicondutores. Esse avanço consolidou o peso industrial do país, que há muito é motivo de disputas comerciais com economias desenvolvidas. Em 2024, a China havia registrado um superávit recorde de 993 bilhões de dólares, e a superação da marca de 1 trilhão reforça a magnitude da sua presença no comércio global e tende a intensificar pressões geopolíticas.

Jens Eskelund, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, afirmou que o desequilíbrio comercial é tão expressivo que se tornou “óbvio que não são apenas os Estados Unidos ou a Europa, mas o mundo todo que terá que financiar essa lacuna”. Apesar de tarifas altas impostas pelos americanos, que chegaram a ultrapassar cem por cento durante a nova gestão de Donald Trump, as exportações chinesas continuaram a crescer.

As vendas para os Estados Unidos caíram 29% em novembro, mas a China compensou redirecionando seus embarques. Neste ano, as exportações para a África cresceram 26%, para o Sudeste Asiático 14% e para a América Latina 7,1%. A União Europeia também se destacou, com alta de quinze por cento nos embarques no mesmo período.

Tensões aumentam enquanto economias tentam diversificar cadeias de suprimentos

A expansão chinesa ocorre apesar de esforços das principais economias globais para reduzir dependências estratégicas. Economistas do Morgan Stanley estimam que a participação da China nas exportações globais de bens pode chegar a 16,5% até o fim da década, impulsionada pelo avanço em manufatura avançada e pela capacidade do país de antecipar tendências e mobilizar recursos rapidamente.

Essa trajetória tem elevado preocupações na Europa, onde setores tradicionais como automóveis e tecnologia vêm perdendo competitividade. O presidente francês, Emmanuel Macron, alertou que o bloco poderá adotar medidas mais duras caso Pequim não contenha sua vantagem industrial. Segundo ele, a China está “atingindo o coração do modelo industrial europeu”. A queda de cerca de dez por cento do yuan em relação ao euro neste ano também preocupa fabricantes europeus.

Além dos embates com os Estados Unidos e a União Europeia, países da América Latina, Sudeste Asiático e Oriente Médio têm registrado reclamações crescentes sobre desequilíbrios comerciais. Jens Eskelund observa que o volume de exportações chinesas é ainda mais impressionante quando comparado ao fluxo em contêineres: para cada contêiner enviado da Europa para a China, quatro retornam na direção oposta. Em termos de volume, essa fatia chega a representar cerca de 37% de tudo o que é exportado globalmente.

A avaliação geral é de que a preocupação internacional tende a aumentar, especialmente caso o ritmo atual de expansão chinesa continue sem freios.

Visão Bolso do Investidor

O superávit recorde da China reforça seu papel central nas cadeias globais de produção, mas também evidencia os riscos crescentes de fragmentação econômica e tensões comerciais. Para investidores, compreender esse movimento é essencial. Uma China dominante pode influenciar preços globais, atrair novas barreiras comerciais e afetar diretamente setores como tecnologia, energia, automóveis e commodities. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico chinês cria oportunidades em mercados emergentes ligados à transição energética e à expansão industrial. Em um cenário geopolítico cada vez mais sensível, acompanhar a evolução das exportações chinesas e suas repercussões é crucial para avaliar riscos, diversificação e estratégias de longo prazo.

Fontes: Estadão Conteúdo