Com a Selic mantida, como investir em Tesouro Direto, debêntures, CRIs e CRAs agora?

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 29 de janeiro de 2026

A demanda por aluguel de ações na B3 segue elevada em alguns papéis, refletindo o interesse de investidores em montar posições vendidas, prática conhecida como short selling. Em relatório recente, a XP analisou os principais dados de vendas a descoberto das ações negociadas na bolsa brasileira e elencou os ativos com maior procura para esse tipo de operação.

A estratégia de short selling consiste em tomar uma ação emprestada, vendê-la no mercado e, posteriormente, recomprá-la a um preço inferior, com o objetivo de devolvê-la ao credor e capturar a diferença como lucro. Para avaliar o comportamento do mercado, a XP utilizou três parâmetros principais: short interest, days to cover (DTC) e taxa de aluguel.

O short interest representa a razão entre o total de ações alugadas que ainda não foram recompradas para encerramento das posições e a quantidade de ações disponíveis para negociação. De forma geral, um nível acima de 10% é considerado elevado. Já o days to cover indica o número estimado de dias necessários para que os vendedores a descoberto consigam recomprar as ações alugadas, levando em conta a liquidez do papel. Assim como o short interest, um DTC acima de 10 costuma ser interpretado como alto.

Segundo os analistas da XP, esses indicadoresA decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, anunciada nesta quarta-feira (28), confirmou o cenário já amplamente precificado pelo mercado financeiro. Apesar de esperada, a decisão traz implicações relevantes para o investidor brasileiro, especialmente no campo da renda fixa. Os juros seguem elevados, mas a forma de extrair retorno desse ambiente começa a exigir uma estratégia mais refinada.

A expectativa predominante entre os agentes do mercado é de que um ciclo de cortes na taxa básica se inicie nos próximos meses. Ainda assim, mesmo com essa perspectiva, os juros devem permanecer acima de dois dígitos por algum tempo. Nesse contexto, o cenário deixa de ser apenas o de aproveitar um CDI elevado e passa a demandar uma alocação mais cuidadosa entre diferentes instrumentos de renda fixa.

Nos títulos públicos, os prêmios seguem elevados em comparação com a média histórica. Já no crédito privado, o excesso de demanda por debêntures, CRIs e CRAs reduziu significativamente os spreads, o prêmio pago em relação ao CDI ou ao Tesouro IPCA+, tornando a relação risco-retorno menos favorável para quem olha apenas a rentabilidade nominal.

Tesouro Direto

A manutenção da Selic não reduziu a atratividade dos títulos públicos. Para analistas, o cenário atual prolongou uma janela de oportunidade que poucos esperavam que durasse tanto tempo.

O principal destaque segue sendo o Tesouro IPCA+. Segundo Camilla Dolle, head de renda fixa da XP, o mercado ainda oferece oportunidades relevantes ao investidor. De acordo com ela, há mais de um ano as NTN-Bs vêm pagando juros reais entre IPCA +7% e IPCA +8%, patamar considerado elevado e que se manteve por mais tempo do que o esperado.

Com esses títulos ainda atrativos, o investidor pode optar tanto por carregar um juro real elevado até o vencimento quanto por buscar ganhos com a marcação a mercado, caso haja fechamento da curva de juros. Na avaliação de Dolle, o ano reserva diversos eventos capazes de gerar oportunidades de ganho de capital antes do vencimento dos papéis. A recomendação da XP é manter duration entre cinco e seis anos nos títulos indexados à inflação.

Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, reforça que as NTN-Bs longas estão entre os ativos de renda fixa mais descontados no momento, especialmente quando comparadas à Bolsa. Ele destaca que, historicamente, há forte correlação entre esses papéis e o mercado acionário, mas a renda variável carece de gatilhos mais claros para ganhos expressivos no curto prazo, por ser menos sensível ao atual estágio do ciclo de juros.

Os títulos prefixados, embora mais voláteis, também entram no radar. Para Lima, eles podem oferecer oportunidades de ganho via marcação a mercado, já que a curva de juros tende a fechar à medida que se aproxima o início dos cortes. Os papéis com vencimentos entre dois e três anos são apontados como os de maior potencial de retorno no curto prazo.

Já o Tesouro Selic segue sendo avaliado como uma alternativa sólida. Apesar de não oferecer ganhos expressivos com marcação a mercado, ele combina retorno elevado com baixo risco e, segundo Camilla Dolle, deve ser cada vez mais utilizado como reserva de emergência ou para aproveitar oportunidades futuras.

Cautela no crédito privado

Se o sinal é positivo nos títulos públicos, no crédito privado o cenário exige mais atenção. Debêntures, CRIs, CRAs e FIDCs continuam no radar, mas o alerta não está relacionado a uma deterioração generalizada do risco de crédito e, sim, ao preço que se paga por esse risco.

Com a Selic elevada, houve forte entrada de recursos no crédito privado nos últimos meses. Esse movimento reduziu os spreads e dificultou a identificação de ativos que ofereçam remuneração adequada ao risco assumido. Para Marcelo Soares, sócio da One Investimentos, a assimetria do risco tornou-se menos favorável. Segundo ele, o potencial de ganho do crédito privado diminuiu, enquanto o risco permanece elevado, especialmente em empresas ainda bastante alavancadas.

Daniel Pegorini, CEO da Valora, compartilha da mesma visão. Ele avalia que o ambiente de elevada liquidez pode gerar distorções de preços e destaca a importância de o investidor ser seletivo, analisando se a qualidade de crédito justifica os prêmios mais comprimidos observados atualmente.

Nesse contexto, a preferência dos especialistas recai sobre empresas inseridas em setores defensivos, como energia e saneamento básico. Pegorini aponta que há oportunidades em debêntures incentivadas e fundos de infraestrutura, que permitem exposição a juros reais atrativos ao mesmo tempo em que ajudam a mitigar riscos de crédito, desde que haja uma seleção criteriosa dos emissores.

Para investidores que buscam retornos mais elevados, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) aparecem como alternativa. Pegorini observa que, embora seja uma classe de maior risco, o aumento dos juros elevou a taxa de desconto dos recebíveis, criando uma relação mais favorável entre risco e retorno.

Por outro lado, setores mais dependentes de crédito barato e consumo aquecido, como varejo e construção, continuam exigindo cautela. Marcelo Soares recomenda evitar empresas muito alavancadas que dependem da rolagem constante de dívidas em um ambiente em que os juros seguem elevados.

Uma tendência clara apontada pelos especialistas é a migração gradual de indexadores dentro do crédito privado. Apesar de o CDI ainda oferecer bons retornos no curto prazo, a visão de médio prazo favorece maior exposição a papéis indexados à inflação. Para Soares, este já é um momento adequado para considerar ativos atrelados ao IPCA+, especialmente no meio da curva, de forma a capturar o benefício do juro real quando os cortes de juros efetivamente começarem.

Visão Bolso do Investidor

A manutenção da Selic em patamar elevado mantém a renda fixa atrativa, mas muda o foco da estratégia. Para o investidor, o momento exige mais seletividade, compreensão dos indexadores e atenção à relação entre risco e retorno. Enquanto os títulos públicos ainda oferecem prêmios históricos, o crédito privado pede cautela redobrada diante da compressão dos spreads. A combinação entre diversificação, análise de fundamentos e escolha adequada de prazos tende a ser determinante para atravessar a transição do ciclo de juros com consistência.


Fontes:

  • InfoMoney