Como os EUA tentam recuperar terreno na disputa global por terras raras após anos de dependência da China

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 25 de novembro de 2025

A dependência dos Estados Unidos em relação à China para o fornecimento de terras raras — insumos essenciais para equipamentos militares, carros elétricos e eletrônicos avançados — voltou ao centro do debate global. Depois de anos de alertas sobre a vulnerabilidade estratégica das cadeias de suprimentos, as novas restrições chinesas à exportação desses materiais reacenderam a urgência por soluções estruturais em Washington.

O tema ganhou contornos ainda mais sensíveis após Pequim anunciar que, a partir de 1º de dezembro, qualquer empresa no mundo que exporte materiais derivados de terras raras oriundos da China precisará de autorização do governo chinês. O temor era de que a nova regra pudesse paralisar parte da indústria ocidental, especialmente setores como automotivo e tecnologia de ponta. Um acordo firmado entre Donald Trump e Xi Jinping reduziu a tensão imediata e adiou por cerca de um ano a aplicação mais rígida dessas medidas, mas não resolveu os problemas de fundo.

Uma fragilidade construída ao longo de décadas

Segundo especialistas, os EUA convivem com essa dependência há muito tempo — e de forma consciente. Peter Harrell, pesquisador da Universidade de Georgetown e ex-conselheiro de segurança da cadeia de suprimentos nas administrações Trump e Biden, lembra que Washington já demonstrava preocupação desde 2011, quando a China cortou exportações ao Japão durante uma crise diplomática, deixando claro o poder geopolítico desses minerais.

O incidente levou o Japão a reduzir sua dependência de 90% para 60%. Mas, nos EUA, avanços estruturais foram lentos. Projetos-piloto foram financiados ao longo dos anos, alianças internacionais foram formadas e documentos estratégicos foram publicados, mas a conclusão dos especialistas é unânime: as respostas foram tímidas diante do desafio.

Emily Kilcrease, ex-funcionária do Tesouro dos EUA e pesquisadora do Center for a New American Security, atribui o atraso à crença excessiva de que o mercado resolveria o problema por conta própria. Mas, segundo ela, foi justamente o mercado — com seus custos e competição desigual — que permitiu que a China consolidasse domínio praticamente absoluto do segmento, com subsídios generosos e padrões ambientais mais flexíveis.

Hoje, a China responde por cerca de 70% da mineração global e quase 90% da capacidade de processamento, segundo dados do Serviço Geológico dos EUA. Apesar de movimentar cerca de US$ 50 bilhões por ano, essa indústria é a base de cadeias globais que valem trilhões — de defesa a eletrônicos de consumo.

O movimento chinês que mudou o jogo

As restrições anunciadas este ano atingiram em cheio a indústria ocidental em um momento de forte demanda global por motores de veículos elétricos, semicondutores e data centers. Para especialistas, a medida deixa claro que a China está disposta a usar sua posição estratégica de forma mais assertiva — e isso obrigou os EUA a tratar o tema como prioridade nacional.

Em resposta, Washington lançou iniciativas robustas. A mais expressiva é o acordo de US$ 8,5 bilhões firmado com a Austrália para fortalecer cadeias de suprimento de terras raras, com participação direta do Departamento de Defesa e garantias de compra. O pacto tenta evitar que produtores aliados sejam empurrados para fora do mercado caso a China reduza preços de forma agressiva.

Ainda assim, o acordo cobre apenas parte do problema. As terras raras são um grupo de 17 elementos — e a nova política foca apenas dois deles, neodímio e praseodímio. Além disso, embora a Austrália tenha grandes reservas, sua capacidade produtiva ainda é pequena em comparação com a chinesa.

Intervenção estatal ganha protagonismo

Para Kilcrease, os esforços recentes mostram mudança no pensamento econômico americano: depois de anos confiando quase exclusivamente no setor privado, Washington agora reconhece que políticas industriais mais fortes são necessárias.

Ela destaca também que a articulação política mudou — com decisões sendo discutidas diretamente entre o presidente, Tesouro e Departamento de Comércio, em vez de longos processos técnicos. A lógica agora é agir rápido para evitar vulnerabilidades estratégicas.

Indústria tenta acelerar soluções próprias

No setor privado, empresas buscam alternativas que reduzam a dependência da mineração tradicional — como a reciclagem. Ahmad Ghahreman, CEO da Cyclic Materials, explica que sua companhia foca em extrair ímãs e metais de produtos descartados, como bicicletas elétricas e motores industriais. Uma instalação no Arizona deve processar 25 mil toneladas de materiais por ano, reduzindo a pressão sobre a cadeia de suprimentos.

Ele ressalta, porém, que reciclagem e mineração precisam coexistir: “Só a reciclagem não sustenta a demanda. Precisamos de novas minas, e rápido.”

Atualmente, 99% dos elementos pesados de terras raras ainda vêm da China — elementos cruciais para motores de alta performance utilizados tanto em veículos elétricos quanto em aplicações militares.

O futuro das cadeias de suprimento

Especialistas argumentam que os EUA terão de manter foco constante e investimentos elevados durante anos para recuperar competitividade. Mesmo com acordos internacionais e iniciativas privadas, o risco de uma nova crise permanece.

Para Harrell, o desafio é garantir que o esforço atual não seja abandonado assim que outra preocupação geopolítica surgir. Já para Ghahreman, a velocidade será o fator decisivo:

“Se os EUA quiserem reduzir a dependência da China, precisarão agir mais rápido do que qualquer país jamais fez nesse setor. Estamos no início — e o tempo está contra nós.”


Visão Bolso do Investidor

A disputa pelas terras raras ilustra um ponto crítico para investidores globais: cadeias de suprimentos estratégicas são, cada vez mais, uma questão de segurança nacional. A dependência dos EUA da China cria volatilidade para setores como defesa, tecnologia, energia renovável e veículos elétricos — e a resposta americana tende a gerar oportunidades em mineração, reciclagem e políticas industriais mais agressivas.

A leitura para investidores é clara: o reposicionamento estratégico dos EUA pode abrir espaço para empresas ligadas a materiais críticos, infraestrutura de mineração e tecnologia de reciclagem nos próximos anos.


Fontes:

  • Fortune
  • Infomoney