Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 06 de fevereiro de 2026

A possibilidade de início do ciclo de cortes da Selic voltou ao centro das discussões no mercado financeiro. Com a taxa básica atualmente em 15% ao ano, o maior nível em cerca de duas décadas, parte dos analistas já projeta um recuo para a faixa entre 11,5% e 12% até o fim do ano, o que pode alterar de forma relevante a alocação de recursos entre diferentes classes de ativos.
O tema esteve presente entre gestores premiados na Premiação Outliers InfoMoney, realizada em São Paulo no fim de janeiro, que avaliaram como a eventual flexibilização monetária pode criar oportunidades em crédito, ações, renda fixa e fundos imobiliários.
Crédito estruturado tende a destravar operações
No segmento de crédito estruturado, a expectativa é de retomada do ritmo de negócios à medida que o custo do dinheiro diminui. Aroldo Medeiros, CEO da Artesanal Investimentos, avalia que a redução dos juros favorece a reativação de operações que ficaram represadas nos últimos anos.
Segundo ele, a queda da Selic não apenas estimula novas emissões, como também amplia a demanda por soluções de financiamento mais sofisticadas, especialmente nos fundos de direitos creditórios. Esse movimento, em sua visão, começa antes mesmo do corte efetivo, já que o mercado costuma antecipar a mudança de cenário.
Ações ganham fôlego, mas seletividade segue essencial
No mercado acionário, o início de um ciclo de cortes de juros costuma ser historicamente positivo. A diminuição do custo de capital tende a beneficiar empresas mais eficientes, com balanços organizados e menor dependência de dívida.
César Paiva, sócio-fundador da Real Investor, destaca que esse ambiente favorece principalmente companhias com estruturas financeiras sólidas. Ainda assim, ele reforça que o momento exige cautela.
Mesmo com o cenário mais construtivo, empresas excessivamente alavancadas continuam representando risco relevante. Em um país de juros estruturalmente elevados como o Brasil, a disciplina financeira segue sendo um diferencial importante, o que leva muitos gestores a priorizar negócios com baixo endividamento ou posição de caixa confortável.
Juro real elevado cria oportunidades raras na renda fixa
Enquanto parte do mercado já olha para a Bolsa, a renda fixa ainda oferece retornos considerados historicamente elevados. Para gestores com horizonte de longo prazo, o nível atual dos juros reais representa uma oportunidade pouco comum.
Marcio Verri, CEO da Kinea Investimentos, observa que títulos de prazos mais longos pagando inflação mais prêmios elevados dificilmente aparecem com frequência. Para ele, travar essas taxas por vários anos pode ser uma estratégia eficiente de proteção e rentabilidade.
Além disso, produtos pós-fixados continuam entregando ganhos reais relevantes enquanto a Selic permanece alta, criando um ambiente favorável tanto para quem busca renda quanto para quem deseja equilibrar o risco no portfólio.
Fundos imobiliários voltam ao radar com a curva de juros
Nos ativos reais, a expectativa de queda dos juros também começa a mudar o posicionamento dos investidores. Guilherme Bueno Neto, sócio-fundador da RBR Asset, afirma que a curva de juros já passou a precificar um cenário mais benigno, o que devolve competitividade aos fundos imobiliários.
Na avaliação dele, os FIIs de “tijolo”, com imóveis físicos e receitas atreladas à economia real, tendem a se beneficiar de um ambiente de emprego mais forte, aluguéis em alta e crédito mais barato. Esse conjunto de fatores pode favorecer a recuperação das cotas, mesmo em um ano que ainda deve apresentar ruídos políticos.
Diversificação e disciplina continuam sendo a base da estratégia
Apesar das oportunidades em diferentes frentes, o consenso entre os gestores é que tentar antecipar cada movimento da Selic raramente traz vantagens consistentes.
Ian Cao, CIO da Gama Investimentos, ressalta que a construção de portfólio deve ser equilibrada, combinando ativos pós e pré-fixados sem depender de apostas direcionais sobre a curva de juros. Para ele, as decisões precisam estar mais ligadas à qualidade dos ativos do que a previsões macroeconômicas.
Visão Bolso do Investidor
O debate sobre quando a Selic começará a cair é importante, mas não deve ser o único fator a guiar decisões de investimento. O mercado normalmente antecipa os cortes antes que eles ocorram, o que reduz a eficácia de estratégias baseadas apenas em timing.
A leitura dos gestores reforça que diversificação, disciplina e foco no longo prazo tendem a ser mais eficazes do que tentativas de prever o próximo passo do Banco Central. Em vez de buscar o movimento perfeito, construir uma carteira equilibrada entre renda fixa, ações, crédito e ativos reais continua sendo a forma mais consistente de atravessar diferentes ciclos econômicos.
Fontes:
- InfoMoney
