Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 9 de dezembro de 2025

Jensen Huang, hoje CEO da Nvidia, a empresa mais valiosa do planeta, não iniciou sua trajetória nos Estados Unidos em universidades renomadas ou polos de inovação tecnológica. Sua história começou em um internato rural no Kentucky, onde estudantes carregavam facas, fumavam com frequência e o mais jovem deles, aos nove anos, era encarregado de limpar os banheiros usados por cem adolescentes. Esse aluno era Huang.
A lembrança desse período, longe de ser marcada por ressentimento, é contada por ele com bom humor em entrevista recente ao podcast de Joe Rogan. Filho de imigrantes chineses que viviam em Bangkok durante um dos golpes de Estado na Tailândia, Huang foi enviado com o irmão aos Estados Unidos em meados dos anos 1970. Os pais decidiram que já não era seguro manter as crianças na região e buscaram um local onde pudessem estudar, mesmo com recursos financeiros praticamente inexistentes.
Infância difícil em internato rural moldou sua visão de mundo
O tio da família encontrou vaga no Oneida Baptist Institute, uma escola situada em um dos condados mais pobres do Kentucky. Os dormitórios não tinham fechaduras nem portas nos armários, e o ambiente reunia adolescentes envolvidos em brigas e hábitos pouco convencionais para uma criança de nove anos recém-chegada ao país. Seu colega de quarto tinha dezessete anos e estava enfaixado após uma briga recente.
Cada aluno tinha uma função: enquanto seu irmão trabalhou nos campos de tabaco da instituição, Huang foi encarregado da limpeza dos banheiros. Segundo ele, a maioria das memórias dessa época é positiva. Em um dos relatos aos pais, descreveu sua primeira visita ao McDonald’s como se tivesse conhecido o “restaurante do futuro”, impressionado com a luz e a comida servida em embalagens.
Naquela época, contato à distância era limitado e caro. Os meninos gravavam fitas de áudio descrevendo a rotina e as enviavam aos pais em Bangkok; os pais regravavam por cima e retornavam a correspondência. Dois anos depois, a família se reuniu nos Estados Unidos, trazendo apenas malas e economias mínimas. A mãe de Huang passou a trabalhar como empregada doméstica e seu pai, engenheiro, entrou no mercado enviando currículos e ligando para empresas listadas nos classificados.
Riscos, resiliência e o início da Nvidia
Ao lembrar da dificuldade financeira dos pais, Huang destaca que muitos dos riscos assumidos por eles se tornaram referência para sua própria jornada empreendedora. Ele recorda um episódio marcante: ao quebrar uma pequena mesa no apartamento alugado onde viviam, viu a expressão de preocupação da mãe por não saber como pagar pelo móvel.
A formação de caráter construída nesse período influenciou diretamente a forma como o CEO conduz a Nvidia. Trabalhando inicialmente como lavador de pratos e depois ajudante em uma lanchonete da rede Denny’s, Huang reuniu dois amigos em uma das mesas do restaurante e esboçou a ideia que daria origem à empresa. Seu objetivo era criar um chip capaz de rodar gráficos 3D em computadores pessoais, uma proposta ousada para a época.
Muitos projetos que posteriormente se tornariam essenciais para o avanço da inteligência artificial enfrentaram resistência inicial. A plataforma Cuda, lançada em 2006, dobrou o custo dos chips e fez o valor de mercado da Nvidia despencar. Huang recorda que “ninguém queria, ninguém pediu, ninguém entendeu” o sistema, que hoje sustenta a computação de IA de quase todos os grandes modelos do mundo.
Situação semelhante ocorreu com o supercomputador DGX-1. Quando apresentado, o produto foi recebido com silêncio. O primeiro contato foi feito por Elon Musk, então à frente de uma pequena equipe de pesquisa que viria a se tornar a OpenAI. Huang entregou pessoalmente o equipamento, sem imaginar que aquela iniciativa seria decisiva para a evolução do setor.
Uma trajetória guiada pela coragem de arriscar
Mesmo como líder de uma empresa avaliada em mais de 4,5 trilhões de dólares, Huang afirma que não enxerga sua trajetória como resultado de visão estratégica heroica, mas como consequência direta da coragem que viu em seus pais ao recomeçarem aos quase quarenta anos em um país desconhecido. Para ele, tudo deriva da premissa de que, se alguém acredita profundamente em um futuro possível, deve agir, caso contrário, viverá com arrependimentos.
Visão Bolso do Investidor
Histórias como a de Jensen Huang mostram como resiliência, adaptação e disposição para assumir riscos são elementos fundamentais não apenas no empreendedorismo, mas também no universo dos investimentos. O caminho da Nvidia, repleto de decisões impopulares, projetos incompreendidos e apostas de longo prazo, reforça a importância de enxergar além do curto prazo e de acreditar em fundamentos sólidos mesmo quando o mercado ainda não reconhece seu valor. Para investidores, a lição é clara: grandes oportunidades raramente surgem de consenso. Elas costumam nascer de convicções bem fundamentadas, disciplina e capacidade de suportar períodos de incerteza.
Fontes: Fortune
